Pacote para baixa renda deve testar planejamento de produto das construtoras

Para especialistas, linha de subsídio de R$ 34 bilhões põe em evidência dilema urbano da moradia e modelo de custos

Publicidade

SÃO PAULO – Um desenho ainda carente de detalhes operacionais. Esse é o retrato do programa habitacional lançado pelo Governo Federal na quarta-feira (25). Entre premissas, uma certeza: construir um milhão de moradias para famílias com renda até dez salários mínimos representará uma oportunidade de testar o planejamento de produto das construtoras, segundo analistas ouvidos pela InfoMoney.

Tanto pelo tamanho quanto pela iniciativa, a linha de subsídio foi elogiada. Serão investidos R$ 34 bilhões, divididos entre os recursos da União e do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). “A questão de baixa renda na habitação está mais perto do Estado do que do sistema empresarial, pois a capacidade de comprar precisa da intervenção do Governo”, resumiu o professor titular de Real Estate da Escola Politécnica da USP, João da Rocha Lima Jr..

Enquanto as empresas contribuem com planejamento e produção. Dentro da BM&F Bovespa, ponto para as que, já há algum tempo, estão atuando no baixo padrão. Os especialistas apontam: MRV Engenharia (MRVE3), PDG Realty (VALE5), Rodobens (RDNI3), Rossi Residencial (RSID3) e Tenda (TEND3).

Ocupação urbana

Mesmo com as pessoas atendidas no desejo de buscar seu imóvel, a boa administração e implementação do projeto vai depender de alguns desafios. “Morar é terreno adequado, localização adequada, transporte adequado, infraestrutura adequada. A questão é urbana, não é só de construção civil”, disse o professor da Politécnica.

De fato, as pessoas não poderão ser deslocadas a uma localização a 4 horas do trabalho. Ou seja, além das cifras, há uma premissa de planejamento. “Não podemos repetir erros do passado: conjuntos habitacionais longe dos centros urbanos, que isolavam as pessoas e se tornaram áreas violentas. No momento de aprovação dos projetos, é preciso evitar isso”, opinou Alcides Leite, professor de economia da Trevisan Escola de Negócios.

A equipe de pesquisa da Planner Corretora ponderou: “o interessante é a cifra envolvida e o interesse do Governo. Há também o movimento para 2010, ano de eleições presidenciais. O pacote ainda precisa apresentar uma estrutura mais completa, foi muito superficial como esperávamos”.

Continua depois da publicidade

Modelo de custos

Há também um debate em torno do modelo de produção das incorporadoras e construtoras de imóveis. Se não há dúvidas quanto à capacidade de engenharia da construção, existem novos parâmetros de planejamento de produto, sobretudo para quem está ainda está migrando para segmentos mais baixos.

“A construção civil no Brasil ainda é muito artesanal, com coisas complexas, e, portanto, o custo é muito alto. Acho que a habitação popular viabiliza o desenvolvimento de técnicas construtivas mais avançadas que permitam reduzir muito o custo unitário” acrescentou Alcides Leite.

A ideia de avanço nesse ponto tecnológico prosperou na Espanha, no Chile e no México, onde se construíram casas boas a preços baixos. A expectativa é de fomento de um mercado com custo baixo, integrado à cadeia produtiva. “O plano tem a virtude de abrir caminho no médio e longo prazo para se criar esse tipo de coisa”, finalizou.