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O “reality show” da Bovespa: empresa oferece R$ 300 mil para você investir na Bolsa

Conheça as "proprietary tradings", que buscam criar novos operadores da Bolsa dando aos "candidatos" uma grande quantia de capital para aprender a investir

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SÃO PAULO – Na televisão brasileira e mundial, há todo tipo de “reality show” em que um grupo de pessoas filmadas por dezenas de câmeras são postas à prova em diferentes modalidades. Há “realities” em que o vitorioso é aquele que consegue cativar mais os espectadores, o melhor cantor, a modelo mais bonita e promissora, etc. Se a experiência fosse replicada para a Bolsa de Valores, talvez o modelo que mais se assemelha ao programa de TV seria o das “proprietary trading”. Também chamadas de “prop tradings” ou PPTs, são empresas criadas inicialmente nos Estados Unidos que buscam montar uma equipe de operadores para investir o próprio capital, e fazem isso da maneira mais simples possível: colocando os candidatos a trader para operarem na prática.

A empresa disponibiliza uma quantia mínima de capital para esses operadores negociarem diariamente. Para os traders que mostrarem ótimos resultados, o limite de capital disponível é elevado; já para os que derem prejuízo, a exclusão é iminente. Para os candidatos a trader, a vantagem é que o dinheiro utilizado vem da própria “prop trading” – ou seja, eles não correm risco de ficarem mais pobres, já que todo o risco da operação fica na PPT. Por outro lado, o lucro das operações é dividido entre o investidor e a empresa, em um percentual definido por ela.

O processo de seleção tem um lado “darwinista”, já que os mais fortes – ou os traders com as operações mais lucrativas – entram para o time de gestores dos recursos enquanto os mais fracos – ou os que derem maior prejuízo – são naturalmente “eliminados” – utilizando uma expressão bem comum ao mais famoso dos “reality shows” da TV brasileira. Essa forma de escolha torna o processo bastante empolgante, uma vez que abre chance para que uma pessoa sem experiência nenhuma de mercado ganhe uma vaga que poderia ser ocupada por um trader com anos de vivência na BM&FBovespa e com um currículo muito mais completo. Basta, para isso, que ele entregue lucros maiores que os demais em suas operações.

Com um modelo de negócio tão atraente, principalmente para pessoas ambiciosas e que buscam ficar ricas rapidamente, surge uma grande dúvida: por que nunca ouvimos falar disso antes? A explicação é dada justamente pelo próprio modelo das PPTs. “Nos EUA, esse modelo de negócio é muito fechado, pois uma ‘prop trading’ não tem clientes, logo, ela não precisa divulgar nada nem fazer propaganda”, explica David Rabello, sócio majoritário da Auctus Capital, a primeira “prop trading” do Brasil. “Então, para nascer uma ‘prop trading’ aqui, tinha que ser alguém que viveu nesse mercado e trouxesse o modelo dos EUA para cá, senão ninguém nunca saberia montar isso no país”.

Rabello, de 29 anos, nasceu no Rio de Janeiro, mas foi morar em Miami aos 12. Seu primeiro contato com o mercado de ações foi aos 16 anos, trabalhando em um “hedge fund”. Aos 23 anos, foi para o Safra Securities, onde ajudou na montagem da mesa institucional do banco em Nova York, operando o capital do próprio Safra e de seus clientes, que eram predominantemente “prop tradings” de firmas como Trillium Capital, Jane Street e First New York. Após sair do banco, montou sua própria PPT em Nova York e daí conheceu Alexandre Klabin, com quem começou a discutir a possibilidade de trazer esse negócio ao Brasil. Em 2012, os dois retornaram ao país para começar esses estudos. Klabin se tornou um de seus sócios na Auctus Capital e sócio-diretor da gestora de recursos Genus Capital Group.

Em busca do “Pelé” da Bolsa
Para entrar em uma “prop trading”, Rabello explica que existem duas portas: uma para os traders que já possuem experiência no mercado, mas que não querem se vincular a nenhuma corretora, e a outra, para aqueles que têm curiosidade sobre o assunto, mas ainda não sabem que são bons, pois ao longo da vida quase não tiveram um contato mais profundo com o mercado financeiro. A Auctus se propõe a treinar e ajudar no desenvolvimento desses investidores. “O Edson Arantes do Nascimento nunca se tornaria o Pelé se não chutasse uma bola na infância”, diz Rabello.

O dono da Auctus revela que tem recebido candidatos das “duas portas” de acesso – ou seja, desde traders experientes até operadores de primeira viagem. Após uma triagem inicial, esses candidatos já são convidados a mostrar como operam no mercado – esse período pode durar poucos meses ou até mais de um ano. Segundo Rabello, entre 80% e 90% dos traders perdem dinheiro no mercado, mas, mesmo assim, o modelo de negócio consegue se sustentar porque, enquanto os perdedores operam com a quantia mínima disponível, os “vencedores” são premiados com um limite cada vez maior de capital, compensando os maus resultados dos demais.

Inicialmente cada trader recebe R$ 300 mil para operar, com um limite de perda por operação é de R$ 10 mil. À medida que os melhores traders começam a ser identificados, eles recebem mais dinheiro para operar. Hoje já há operadores responsáveis pela gestão de R$ 1 milhão. “Os traders que perdem dinheiro vão saindo, enquanto os bons vão tendo um limite ainda maior para operar, aumentando ainda mais o retorno. E esses bons traders vão passando suas técnicas para os outros, preparando uma seleção de operadores . É tudo muito meritocrático, é como se houvesse um darwinismo no mercado”, explica o sócio da Auctus. Do lucro obtido durante as operações, o trader fica com 60%. O restante vai para a Auctus.

Lucro impressionante
Até o momento, o modelo de negócio da primeira “prop trading” do Brasil tem se mostrado muito rentável. Segundo dados fornecidos por Rabello, o fundo de investimento que a Auctus Capital utiliza para operar no mercado obteve um retorno 36,5% sobre o capital inicial entre setembro e dezembro de 2013 – no mesmo período, o Ibovespa, principal índice de ações da Bolsa, subiu apenas 3%. Uma característica natural dos “traders” que ajuda a explicar esse resultado muito acima do “termômetro” do mercado é a de aproveitar oscilações intradiárias de preços para buscar pequenos lucros percentuais.

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O giro do dinheiro é rápido. “Costumamos movimentar em média entre R$ 4 e R$ 10 milhões por dia na Bovespa. Mas só em novembro do ano passado o volume negociado alcançou quase R$ 250 milhões, sendo que em alguns dias giramos 1% do volume médio diário da Bovespa [cerca de R$ 70 milhões]”, conta o sócio, que revela uma predileção por operar no mercado de ações, embora também faça algumas operações com contratos futuros de índice, DI e dólar.

Até o começo de 2014, a empresa contava com oito traders – incluindo o dono – e a expectativa de Rabello é de que ela termine este ano com uma equipe de 50 operadores. “Queremos novos talentos para montar um time vencedor. Esse é o negócio das ‘prop tradings’: criar uma peneira de talentos, onde os bons são recompensados e os ruins, naturalmente eliminados”.

Por que a demora a chegar?
Por ser um modelo de negócios disseminado nas principais praças financeiras do mundo, Rabello acreditava que a chegada das PPTs no Brasil era questão de tempo. Mas por que será que esse negócio demorou tanto para chegar em território brasileiro? Ele atribui a demora a dois principais fatores: a burocracia e a falta de tecnologia do mercado brasileiro. “Demoramos quase um ano para montar a estrutura burocrática da ‘prop trading’ no Brasil. Se nós, que somos brasileiros e sabemos que as coisas naturalmente demoram para andar por aqui, quase desistimos por causa dessas dificuldades, imagine então o que pensa um estrangeiro que conhece pouco a legislação nacional?”, questiona Rabello.

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A própria forma de atuação de uma ‘prop trading’ não faz parte da regulação da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), órgão regulador do mercado brasileiro. “Essa prática é diversa da gestão de recursos de terceiros, mas, como se trata na verdade de gestão de recursos próprios, ela se encontra fora da esfera de competência desta autarquia”, respondeu a CVM à Revista InfoMoney. “Nos EUA, as ‘prop tradings’ são todas empresas ltda.; aqui, tivemos que criar a Auctus como uma asset”, explica o trader.

Já a falta de tecnologia está associada à ausência de um sistema de gerenciamento de risco coletivo em tempo real no Brasil, algo imprescindível para o desenvolvimento de uma “prop trading”. “Controle de risco é uma das partes mais importantes do negócio. O sistema ajuda a gerenciar um risco automaticamente em tempo real e em grupo. Não tínhamos uma plataforma que fazia isso no Brasil, o que tornava o negócio inviável”, explica Rabello. A solução praticamente caiu do céu. Na metade do ano passado, chegou ao Brasil a Sterling Manager, que disponibilizou essa ferramenta e acelerou o desenvolvimento da Auctus.

Essa matéria foi publicada na edição 49 da revista InfoMoney, referente ao bimestre março/abril de 2014. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.

Thiago Salomão

Idealizador e apresentador do canal Stock Pickers