Em mercados

Até que ponto a inversão na curva de juros sinaliza recessão na economia dos EUA?

Os riscos de recessão do maior PIB do mundo estão aumentando, mas diversos analistas e economistas não acreditam que a atividade econômica dos EUA sofrerá tamanho revés já no ano que vem

EUA
(Shutterstock)

SÃO PAULO - A discussão sobre a inversão dos diferentes vencimentos na curva de juros dos títulos dos EUA parece mesmo ter vindo para ficar, reforçando o alerta sobre o risco de recessão na economia da maior economia do mundo.

Se em março o rendimento dos juros de curto prazo (no caso, de 3 meses) ficou acima dos de longo prazo (de 10 anos), na última semana foi a vez dos títulos do Tesouro americano de 10 anos passarem a negociar abaixo dos yields das Treasuries de 2 anos.

A ideia de que esta inversão indica uma recessão ocorre porque a curva de juros está diretamente relacionada à expectativa de inflação. Ou seja, o yield (rendimento) de longo prazo tende a ser maior que o curto porque a expectativa "normal" é que a economia cresça, e com isso a inflação também avance.

Neste cenário, se o título de curto prazo agora está maior, é sinal de que o mercado está precificando que a inflação de longo prazo será menor do que está hoje, mostrando que sua expectativa é que a economia americana não vá crescer. Ou seja, uma recessão estaria batendo à porta da maior economia do mundo. 

Porém, muitos economistas e analistas de mercado questionam sobre até que ponto a inversão na curva de juros é mesmo um sinal de recessão na economia americana. Vale destacar que, após a inversão da curva na semana passada, dados de consumo e inflação nos EUA vieram robustos e, conforme apontaram os estrategistas do Morgan Stanley, enfraqueceram a possibilidade de que o Federal Reserve cortará os juros de forma mais acelerada. 

Conforme destaca Alberto Bernal, estrategista global da XP Investimentos, a inversão da curva é função direta das incertezas relacionadas à disputa comercial, que gera uma maior aversão ao risco do mercado e temores de desaceleração na economia.

Porém, o estrategista aponta não estar convencido de que haverá de fato uma recessão no país por três razões em especial:  (1) o endividamento do consumidor típico dos EUA continua saudável; (2) o Federal Reserve deve realizar um corte de 50 pontos-base dos juros (atualmente entre 2% e 2,25%) em setembro para proteger a economia do país da desaceleração da economia mundial e, finalmente, (3) a pressão do mercado em breve forçará o presidente americano Donald Trump a fechar um acordo comercial com a China, de modo que as incertezas sejam finalmente mitigadas.

Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio-fundador da gestora de recursos Mauá Capital, ressalta que, como em boa parte das vezes a inversão das curvas de juros antecedeu uma recessão, os investidores acabam tendo uma reação exagerada quando a história se repete. 

Conforme aponta estudo feito pelo Credit Suisse, contudo, o movimento da curva de juros de 2 anos-10 anos deu dois alarmes falsos em 8 desde 1978. Já a inversão da curva de 3 meses-10 anos parece muito mais confiável, aponta o banco suíço, "funcionando" em 7 de 8 ocasiões desde 1966 (com nenhuma leitura falsa desde 1978). Neste caso, o tempo para que uma recessão aconteça é de 11 meses e a curva precisaria inverter durante 5 meses, o que já aconteceu.

"Os mercados exageram, às vezes para o otimismo, às vezes para o pessimismo. No final, estes movimentos acabam levando a reações dos governos e dos reguladores, o que é o caso agora", afirma o ex-diretor do BC, destacando que as medidas das principais autoridades monetárias do mundo estão sendo bastante contundentes no sentido de evitar uma recessão. 

Sinais de alerta
Mas existe risco de recessão? "Sem dúvida", aponta Figueiredo. As economias estão desacelerando, com destaque para a Alemanha, a nação com o maior PIB da Europa e que está preparando um plano de estímulo contra uma possível recessão, após a atividade do país ter contraído 0,1% no segundo trimestre. 

No domingo, o ministro das Finanças, Olaf Scholz, sugeriu que o governo alemão poderia ter gastos extras de 50 bilhões de euros (US$ 55 bilhões) em caso de crise econômica. Na semana passada, a chanceler Angela Merkel disse que a economia está “caminhando para uma fase difícil” e que seu governo reagirá “dependendo da situação”. 

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Ainda há diferenças entre os setores da economia global a serem analisados. Enquanto há uma possível recessão no setor de manufatura, a recessão no setor de serviços é pouco provável. A princípio, avalia o ex-diretor do BC, os dados não mostram que haverá recessão, com a economia dos EUA aquecida e tendo registrado no início de julho o seu maior ciclo de expansão da história (por 121 meses seguidos).

Contudo, os temores sobre a guerra comercial - que nos últimos dias tem registrado contornos piores do que o esperado com as tarifas de importação a diversos produtos chineses sendo impostas pelos EUA -, têm elevado as probabilidades sobre uma desaceleração nos EUA. 

Porém, este maior receio sobre a recessão pode justamente levar Donald Trump a diminuir o tom contra os chineses, com o presidente de olho principalmente nas eleições de 2020, o que pode diminuir o receio dos investidores sobre a disputa sino-americana e, consequentemente, melhorar o ânimo global.

Figueiredo aponta ainda que o cenário de juros baixos veio para ficar por questões mais estruturais do que cíclicas. Isso por uma combinação de envelhecimento populacional (que leva a um menor consumo) e o aumento da tecnologia (que diminui a pressão sobre serviços) como fatores que levam a um ambiente de inflação mais baixa levando, consequentemente, a taxas baixas no longo prazo. Porém, a grande dúvida é se os juros lá na frente estarão menores do que os de hoje. 

De qualquer forma, o sinal de alerta está dado: conforme destaca a Pimco, uma das principais gestoras de renda fixa do mundo, o risco de recessão nos EUA aumentou, enquanto o Bank of America Merrill Lynch vê este risco entre 20% e 33%.

Por outro lado, os EUA possuem instrumentos e fundamentos para evitar uma recessão que passam, além do corte de juros pelo Fed, pelo fato de haver uma estabilidade financeira maior, haver maior fortalecimento dos balanços dos bancos e a alavancagem no setor imobiliário estar razoável, ao mesmo tempo em que a poupança das famílias está alta, aponta a Pimco. "Todos esses fatores devem ajudar em um eventual revés da economia americana".

Contudo, os investidores vão continuar atentos aos próximos dados da economia americana e da europeia e, principalmente, sobre como será a reação das autoridades monetárias a eles. Neste sentido, a fala de Jerome Powell, presidente do Fed, na próxima sexta-feira na conferência de Jackson Hole, será observada com atenção uma vez que pode dar sinais sobre os próximos passos da política de juros da autoridade monetária. A inversão na curva pode não decretar uma recessão, mas deve ser monitorada com atenção. 

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