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Faça o que eu digo, não faça o que eu faço: Buffett é questionado por usar "contabilidade criativa"

Grande crítico das empresas que usam o método não-GAAP na divulgação de resultados, Buffett tem usado a mesma estratégia com a Berkshire Hathaway

Warren Buffett
(Bloomberg)

SÃO PAULO - Se Warren Buffett faz uma análise ou dá um conselho sobre o mercado, todo investidor acaba parando para ouvir, mas recentemente uma situação diferente chamou atenção com o megainvestidor no melhor estilo "faça o que eu digo, não faça o que eu faço". Bastante crítico das empresas que não usam as regras de divulgação de resultado, Buffett tem feito exatamente o que diz ser errado.

O GAAP (Generally Accepted Accounting Principles, na sigla em inglês), é o formato de divulgação de balanço requerido por todas as empresas públicas dos Estados Unidos, sendo que algumas companhias fogem desta "fórmula" para melhorar os números de seu resultado financeiro.

Buffett sempre reclamou de quem faz isso, apesar de também não ser um grande apoiador do GAAP. Em uma de suas mais recentes cartas para acionistas, ele diz que se tornou "comum para os diretores afirmarem a seus acionistas para ignorar certos itens de despesas que, na verdade, são todos muito reais".

Os analistas de Wall Street "também fazem seu papel nessa farsa, interpretando os falsos" lucros "ignorantes da compensação alimentados por gerentes", escreveu ele. "Talvez eles são cínicos, questionando a si mesmos que, como todo mundo está jogando o jogo, por que eles não devem ir junto com ele. Qualquer que seja o seu raciocínio, esses analistas são culpados por propagar números mentirosos que podem enganar os investidores", disse Buffett.

O megainvestidor também assinou o manifesto "Governance Principles" (Princípios de Governança, em tradução livre), que reuniu os principais líderes empresariais em julho de 2016, incluindo diretores do JPMorgan e da General Motors. Uma de suas recomendações de "bom senso" era que as empresas nunca deveriam usar métricas "não-GAAP".

No entanto, a Berkshire Hathaway usou métricas financeiras alternativas nos últimos três anos, com indicadores que são amplamente considerados "não-GAAP". Por conta disso, pela primeira vez, a SEC (Securities and Exchange Commission, na sigla em inglês) escreveu uma carta para o chefe financeiro da companhia, Marc Hamburgo, pedindo que a Berkshire volte a usar dados GAAP nos segmentos de manufatura, serviços e varejo. As informações são do portal MarketWatch.

Em uma de suas cartas aos acionistas, Buffett racionalizou este método: "apresentamos os dados desta maneira porque Charlie e eu acreditamos que os números ajustados refletem mais exatamente as verdadeiras despesas econômicas e os lucros dos negócios agregados na tabela do que os GAAP".

Hamburgo respondeu à SEC mostrando três anos de dados, detalhando o impacto em suas despesas operacionais GAAP em relação às despesas contábeis de aquisição que haviam sido excluídas dos resultados operacionais do segmento. Ele também disse à SEC que a empresa incluiria divulgações em futuros documentos que esclareceriam "que os lucros do segmento em discussão e análise da administração não incluem as despesas relacionadas à aquisição".

Nos últimos anos, Buffett usou diversas vezes termos "não-GAAP' no balanços da Berkshire. Em sua carta anual de 2013 ele disse que a "estranha" contabilidade GAAP que ele foi forçado a usar para o Grupo Marmon e as transações da Iscar Metals reduziram o valor contábil da empresa, mas aumentaram o "valor intrínseco". Em 2012 ele reclamou sobre a contabilidade "bizarra" de GAAP, que aumentou a diferença entre o valor contábil GAAP da empresa por ação e a medida de "valor intrínseco".

 

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