Efeito pós-balanço

Netflix perde mais de US$ 50 bi de valor de mercado em apenas uma sessão após dados decepcionantes; analistas cortam projeções

Mercado também repercute as expectativas negativas da empresa para 2022

Por  Mitchel Diniz -

A primeira queda no número de assinantes em uma década foi o dado que falou mais alto no balanço do primeiro trimestre de 2022 da Netflix. Desde que os números saíram, as ações da plataforma de streaming derreteram e fecharam com queda de 35,12%, a US$ 226,19. Detentores dos BDRs da companhia (NFLX34) viram o papel ceder 23,47% no mesmo horário, a R$ 20,97. Com isso, em apenas uma sessão, a companhia perdeu mais de US$ 50 bilhões de valor de mercado, mais precisamente US$ 54,387 bilhões, com a empresa passando de um valor de mercado de US$ 154,876 bilhões na véspera para US$ 100,49 bilhões no fechamento desta data.

A Netflix atribui o desempenho ruim no trimestre à suspensão do serviço na Rússia, que resultou na perda de 700 mil usuários. Não fosse isso, a plataforma teria obtido adições líquidas de assinantes na ordem de 500 mil. Ainda assim, o número viria bem abaixo das projeções da Netflix para 2022 – uma adição de 2,5 milhões de assinaturas.

“Netflix não é um nome que nós tínhamos na nossa carteira recomendada, de top BDRs, justamente porque tínhamos uma preocupação com desaceleração de crescimento de assinantes”, explica Jennie Li, estrategista de ações da XP. “O resultado de ontem confirmou essas preocupações”.

Os analistas concordam que pelo menos três fatores contribuem para a desaceleração de assinaturas. Primeiro, a volta das atividades presenciais, após um consumo maciço de serviços de streaming durante o período de restrições e distanciamento social da pandemia. O outro é escalada da inflação, que diminui o poder de compra dos potenciais assinantes, deixando itens “supérfluos” de fora do orçamento. Por fim, tem a concorrência dee outras plataformas de streaming, o que obriga a Netflix a investir mais em produções – custos que pesam nas margens.

“A Netflix aumentou seus gastos com conteúdo, principalmente em originais. Para pagar por isso, aumentou os preços de seu serviço, enquanto a empresa está explorando outras opções de crescimento, como adicionar videogames na plataforma”, diz a análise de Guilherme Zanin, estrategista da Avenue.

A empresa aumentou os preços de seus serviços e explicou que os ajustes ajudaram a incrementar a receita da companhia. Por outro lado, a cobrança mais cara fez com que 600 mil usuários cancelassem suas assinaturas nos Estados Unidos e Canadá.

A Levante Ideia de Investimentos ressalta que, ainda assim, a empresa conseguiu mostrar uma melhora nas receitas por usuário em todas as regiões no período. “A empresa segue conseguindo reajustar os preços bem acima da inflação sem ‘efeitos colaterais’, posto que – de acordo com seus executivos – o churn (taxa de cancelamento) não é alterado de maneira significativa com este movimento”, destaca. A margem operacional (de 25,1%) e o lucro líquido por ação (US$ 3,53) vieram melhores que o esperado.

Porém, a Netflix “ofereceu uma previsão sombria para o futuro”, como descreveu a equipe de análise da XP, prevendo que perderia 2 milhões de assinantes, apesar do retorno de séries esperadas. Mesmo com essa projeção, a empresa pretende alcançar margem de 20% no acumulado do ano.

“A gente começa a notar que Netflix se tornou uma empresa madura e demonstra uma certa dificuldade para crescer no mercado. E isso acaba se refletindo nas suas ações, negociando geralmente com mais desconto, por apresentar um menor potencial para longo prazo”, afirma Zanin.

O Credit Suisse avalia que a Netflix é uma clara líder no segmento de streaming, mas acredita que “muitos investidores irão exigir uma maior clareza com relação às novas estratégias de monetização e estratégias em adverstising antes de voltar a ter o papel”. O banco tem recomendação neutra para ação da empresa e reduziu o preço alvo do papel de US$ 450 para US$ 350, após a divulgação dos resultados, praticamente em linha com o fechamento da sessão de terça.

A Netflix planeja cobrar uma taxa de compartilhamento de senhas, mas a Ohmresearch não acredita que o plano para monetizar 100 milhões de usuários que utilizam a plataforma como não-titulares da conta dê certo. “A empresa pode até conseguir tirar uns dólares a mais de novos usuários, mas acreditamos que os outros vão olhar para a nova taxa como uma nova alta de preços e acabar cancelando a assinatura”, diz a análise.

Além disso, o CEO da companhia Reed Hastings, afirmou em teleconferência dos resultados que cogita lançar um plano de assinatura mais barato, contendo anúncios. Nos Estados Unidos, o plano premium da Netflix custa US$ 19,99. Aqui no Brasil, o mais barato é de R$ 25,90 por mês. O plano intermediário custa R$ 39,90 e o premium, com qualidade de vídeo superior, R$ 55,90.

“Não acreditamos que esses planos [com anúncios publicitários] vão ser colocados em prática logo nos Estados Unidos, pois achamos que essa oferta de menor preço deve ser introduzida em mercados emergentes como a Índia, onde a Netflix foi trucidade pela Amazon e Disney”, diz análise da Ohmresearch. A casa reduziu sua perspectiva de valor justo para o papel da empresa de US$ 305 para US$ 280, ou 20% abaixo do valor de fechamento da ação na véspera.

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