Netflix e o custo de fazer negócio no Brasil: como disputa tributária ofuscou balanço

Uma despesa extraordinária de US$ 620 milhões, decorrente de uma cobrança da CIDE reduziu sua margem operacional de 34% para 28%

Lara Rizério IA InfoMoney

Logo da Netflix em Los Angeles, Califórnia, EUA
12/7/2023 REUTERS/Mike Blake/Arquivo
Logo da Netflix em Los Angeles, Califórnia, EUA 12/7/2023 REUTERS/Mike Blake/Arquivo

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Positivo, mas com nuvens no horizonte. A Netflix divulgou seus resultados financeiros do terceiro trimestre de 2025 (3T25) com números sólidos, mas também com um alerta importante: uma disputa tributária no Brasil impactou diretamente sua rentabilidade. Isso indica o “custo de fazer negócios no Brasil”, conforme apontou o Itaú BBA em análise.

A gigante do streaming registrou receita de US$ 11,5 bilhões, um crescimento de 17% em relação ao mesmo período do ano anterior, alinhado com as expectativas do mercado. No entanto, uma despesa extraordinária de US$ 620 milhões, decorrente de uma cobrança da CIDE, com imposto brasileiro sobre remessas ao exterior, reduziu sua margem operacional de 34% para 28%.

Sem esse impacto, a empresa teria superado sua própria projeção de margem de 31%. Para o ano, a expectativa de margem operacional caiu de 30% para 29%, embora o fluxo de caixa livre tenha sido revisado para cima, chegando a US$ 9 bilhões.

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No pré-mercado, por volta das 8h (horário de Brasília) desta quarta-feira (22), as ações da Netflix caíam mais de 6%.

A projeção para o quarto trimestre mantém o ritmo de crescimento, com expectativa de receita 17% maior que no mesmo período de 2024. A Netflix aposta em uma programação forte, com o retorno de séries populares e eventos ao vivo, além de avanços em publicidade e jogos interativos.

Durante a conferência com investidores, a empresa destacou seu desempenho em engajamento e publicidade, com recordes de audiência nos EUA e Reino Unido e previsão de dobrar a receita com anúncios em 2025. A Netflix também reforçou seu otimismo para 2026, embora os números só sejam divulgados em janeiro.

O caso tributário no Brasil, que envolve a aplicação da CIDE sobre serviços prestados pela matriz americana à operação brasileira, reacendeu o debate sobre a tributação de plataformas de streaming no país. Um projeto de lei em tramitação propõe taxar essas empresas entre 3% e 6% da receita, além de exigir mais conteúdo nacional e transparência sobre audiência.

Apesar do revés fiscal, o Itaú BBA vê os fundamentos da Netflix como sólidos e alinhados com uma estratégia de crescimento sustentável e inovação, especialmente nas frentes de publicidade e jogos. O BBA tem recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado, equivalente à compra), com preço-alvo de US$ 1.514 (ou potencial de alta de 22% em relação ao último fechamento).

A XP aponta ainda, entre os destaques do trimestre, que KPop Demon Hunters tornou-se o filme mais popular da história da plataforma, enquanto a 2ª temporada de Wednesday e Happy Gilmore 2 também registraram forte audiência. O evento ao vivo de boxe entre Canelo Álvarez e Terence Crawford foi o mais assistido do século em lutas masculinas.

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Ainda assim, a companhia enfrenta preocupações sobre o ritmo de crescimento do engajamento e o aumento da concorrência com plataformas gratuitas como Youtube e Roku, o que também impacta as ações pós-balanço.

Para o 4T25, a Netflix projeta lucro por ação de US$ 5,45 e receita de US$ 12 bilhões, ambos em linha com o consenso, e margem operacional de 23,9% (alta de 2 pontos percentuais na base anual, avanço de 1 ponto percentual acima das estimativas do consenso). No consolidado do ano, a companhia ajustou a meta da margem EBIT de 30% para 29% devido ao impacto do Brasil (contra estimativas de 31,3% do mercado).

“As ações apresentam queda acentuada após o resultado, refletindo a percepção de que o trimestre ficou aquém das expectativas, mesmo com o sólido crescimento de receita e o avanço contínuo no negócio de anúncios”, ressalta a XP.

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Além dos resultados, os executivos da Netflix informaram na teleconferência de resultados que aquisições de grandes empresas de mídia não são grandes prioridades e que “podem ser exigentes”, diminuindo rumores acerca da aquisição da Warner Bros. Discovery, que tem passado por forte período de valorização diante das especulações.

O Goldman Sachs tem recomendação neutra para os ativos da Netflix, com preço-alvo de US$ 1.300 para as ações, ou potencial de alta de 5% frente o último fechamento.

“Saímos da teleconferência com a impressão de que muitos dos principais temas operacionais permanecem intactos: a) crescimento futuro da receita impulsionado por elementos do crescente engajamento, aliado a um crescente número de eventos ao vivo e conteúdo geral (com a lacuna entre engajamento e monetização provavelmente permanecendo uma variável-chave); b) os investimentos em dinheiro em conteúdo continuarão sendo uma área-chave de crescimento (embora provavelmente menores do que o crescimento da receita); e c) a empresa permanece nos estágios iniciais de expansão de inovações importantes em plataformas e produtos relacionados a IA, publicidade e jogos”, avaliam os analistas.

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Olhando para 2026, as principais variáveis ​​para o desempenho das ações no futuro provavelmente se ancorarão em: a) a execução de uma forte carteira de conteúdo; b) a continuidade da expansão das margens operacionais, mantendo o foco no investimento em diversas iniciativas de crescimento; e c) a expansão contínua do segmento suportado por anúncios (com importantes investimentos em tecnologia e parcerias provavelmente preparando o negócio para um crescimento superior ao do setor em 2026 e além).

“Quaisquer preocupações em torno da plataforma que possam impactar o desempenho das ações permanecerão mais focadas nas tendências de engajamento em relação aos concorrentes no cenário de conteúdo de curta/média duração”, aponta.

No longo prazo, o banco vê a Netflix como um gerador de receita de dois dígitos sustentado, com espaço para expandir consistentemente as margens operacionais nos próximos anos. “Olhando para 2026, continuaremos monitorando o potencial de expansão do crescimento de usuários e da monetização da camada de anúncios, como um potencial que pode impor uma trajetória ascendente às nossas estimativas atuais”, aponta.

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.