Natura busca volta às origens e estreia novas ações na 4ª: como mercado vê mudanças?

Estratégia inclui separação da Avon Internacional, ganho de eficiência na região hispânica e expansão da marca Natura no canal direto e no mercado mexicano

Murilo Melo

Ativos mencionados na matéria

Loja da Natura no Shopping Anália Franco (Foto: Divulgação)
Loja da Natura no Shopping Anália Franco (Foto: Divulgação)

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A Natura (NTCO3), prestes a mudar seu código de negociação na Bolsa, apresentou nesta semana, em sua sede em Cajamar, na Região Metropolitana de São Paulo, as diretrizes para os próximos anos durante o Investor Day 2025, evento com analistas de bancos e casas de investimento. A empresa disse que seu foco será a operação na América Latina, com estrutura mais simples e estratégia de crescimento centrada na marca Natura. Analistas avaliam que a companhia está tentando recuperar competitividade após um longo ciclo de reestruturações.

Parte central dessa estratégia é a separação da operação internacional da Avon, que ainda está em andamento. Também está em curso a chamada Wave 2 (ou Onda 2), que inclui integração operacional em países como México e Argentina. A expectativa é de uma estrutura mais enxuta, mas analistas apontam que a empresa precisa demonstrar capacidade de execução.

A XP Investimentos avalia que a marca Natura deve liderar a geração de valor para a companhia. Segundo Danniela Eiger e Laryssa Sumer, analistas que assinam o relatório, a mensagem principal do dia foi o claro foco da empresa em simplificar o negócio e retornar às suas origens, com muitas oportunidades no core business (negócio principal), especialmente na Onda 2, Hispana e na marca Natura.

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Segundo a análise, há espaço para crescer em países hispânicos, onde a presença ainda é pequena. A fusão com a Avon pode ampliar a margem de lucro e o volume de vendas, com entrada em lares antes exclusivos da antiga concorrente. No México, a base de consultores foi mantida mesmo após a mudança no modelo de vendas, superando as projeções.

A XP também observou avanços na gestão financeira. Houve melhora no controle de estoques, planejamento e eficiência tributária. A empresa está simplificando seu portfólio e centralizando a produção. Isso pode liberar caixa e permitir distribuição de dividendos ou pagamento de juros sobre capital próprio. A Natura também detalhou os avanços da Emana Pay, sua plataforma de pagamentos, que apoia a operação principal e pode gerar nova fonte de receita.

Mesmo com esses avanços, a XP afirma que investidores aguardam maior regularidade nos resultados. A casa recomenda a compra das ações, mas espera pressão sobre os números no curto prazo durante a transição da nova estrutura.

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O Itaú BBA manteve recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado), com preço-alvo de R$ 14. Para o banco, a melhoria da rentabilidade na região hispânica é um dos principais vetores de valor. A margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) nesses países é de 2,8%, contra 21,5% no Brasil.

O México é apontado como o principal obstáculo, mas a marca Natura está presente em apenas 9% dos lares mexicanos, contra 54% no Brasil. O banco também espera melhora na conversão de Ebitda para caixa, métrica que já evoluiu no ano passado.

O Bradesco BBI reiterou recomendação outperform e preço-alvo de R$ 17. Para o banco, o evento foi esclarecedor. A análise destacou oportunidades em inovação, novos canais e capital de giro. A estratégia de retornar às bases anteriores às aquisições, com margens mais altas e distribuição de dividendos, foi considerada positiva.

O banco também citou que a Wave 2 no México e na Argentina pode elevar a margem Ebitda da região para 6,5% no primeiro trimestre e espera uma solução para a operação internacional da Avon.

O JPMorgan manteve recomendação neutra para a ação NTCO3, com preço de R$ 11,05. O banco observou que o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos (HPC) na América Latina deve crescer a uma taxa de 7,3% ao ano até 2029, o que pode beneficiar a Natura.

A participação da empresa no mercado brasileiro subiu de 11,1% em 2015 para 14,1% em 2024. Nos países hispânicos, passou de 6,6% para 8,9%. Mesmo assim, o banco apontou que a diferença de margem entre Brasil e região hispânica (22,6% contra 6,5%) mostra que há espaço para avançar.

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O Morgan Stanley manteve recomendação equal-weight (peso neutro) e preço-alvo de R$ 13. A análise destacou o foco nas marcas Natura e Avon na América Latina, com oportunidades no canal direto ao consumidor, produtos capilares e mercado mexicano. A Wave 2 é tratada como processo em andamento, com ganhos de produtividade. A Emana Pay foi chamada de “joia escondida”, com potencial de aumentar a produtividade e reduzir inadimplência entre representantes.

O Goldman Sachs, por sua vez, avaliou o evento como positivo em termos estratégicos, mas sem novidades relevantes em relação a comunicações anteriores. Manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 13.

Para o banco, a marca Natura lidera a estratégia de crescimento, com ênfase em inovação, estrutura de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e possibilidades em produtos capilares e no México. O relatório também trouxe preocupação com a maior concorrência de marketplaces digitais como o Mercado Livre (MELI34), que diluem a vantagem da Natura na distribuição tradicional.

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Novos papéis

Cabe ressaltar que, nesta terça-feira, acontece a “consumação” da incorporação da Natura&Co pela Natura Cosméticos, quando os acionistas titulares das ações da Natura&Co receberão para cada papel uma ação da Natura Cosméticos.

Com isso, quem tiver ações da Natura &Co (NTCO3) vai receber, automaticamente, uma ação da Natura Cosméticos (NATU3) para cada papel que possuir.

Os novos papéis começam a ser negociados na B3 nesta quarta-feira (2), agora no segmento de maior nível de governança da bolsa, o Novo Mercado. Como parte da mudança, a Natura &Co cancelou mais de 16 milhões de ações que estavam em tesouraria.

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A Natura Cosméticos, por sua vez, já aprovou um novo programa de recompra de até 34,1 milhões de ações, válido por um ano a partir desta quarta. Os novos papéis (NATU3) serão creditados nas contas dos acionistas no dia 3 e estarão visíveis nos extratos a partir do dia 4. Após a fusão, a companhia passará a ter cerca de 839 milhões de ações em circulação.