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SÃO PAULO – O Relatório de Emprego norte-americano era antecipado como principal indicador da semana, e a expectativa criada ao longo dos últimos dias era positiva, especialmente após uma surpresa positiva com a criação de postos de trabalho no setor privado, medida pelo ADP Employment Report.
A economia norte-americana, no entanto, registrou a abertura de apenas 36 mil postos de trabalho em janeiro, enquanto a estimativa era de 148 mil vagas criadas em janeiro. Ainda assim, a taxa de desemprego voltou a apresentar recuo e passou para 9% da PEA (População Economicamente Ativa). Com a colaboração dos resultados corporativos por lá, as bolsas norte-americanas conseguiram sustentar a alta, e o Dow Jones encerrou pela quinta sessão consecutiva no positivo nesta sexta-feira (4).
Por aqui, o cenário é bem diferente. O Ibovespa apresenta desde meados de janeiro um comportamento descolado dos principais mercados internacionais, acumulando queda de 2,14% na semana e de 5,82% no ano. A diferença entre os comportamentos têm várias explicações, e analistas consideram as quedas exageradas, mas evitam falar sobre quando a mudança de humor ocorrerá.
Preços e juro
“A inflação é o grande tema”, avalia Adriano Moreno, analista da Futura Investimentos. “Por um longo tempo, o Brasil ficou de olho em temas externos, já que o ambiente macroeconômico doméstico estava muito bem resolvido. Agora o mercado está de olho no que ocorre internamente”, indicou o analista.
A deterioração da inflação e, principalmente, das expectativas futuras para os preços, que não têm mostrado melhoras mesmo com o início do ciclo de aperto monetário, ocasionam um movimento vendedor forte sobre as ações de empresas sensíveis à alta dos juros, tais como imobiliárias, varejistas e até mesmo bancos, pois o temor envolve ainda medidas macroprudenciais adicionais, como um aumento dos compulsórios.
Por isso, índices internos de preço, como o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e o IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna), que serão publicados na terça-feira (8), ganham destaque na agenda econômica da semana. A percepção, segundo a Coin, é que devem reforçar a tendência de alta dos preços.
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Cortes no orçamento?
Para Dani Rappaport, sócio da InvestPort, a pressão inflacionária e a contínua deterioração das expectativas, além do avanço da curva de juros de longo prazo, indicam que o mercado precifica o posicionamento do Banco Central, que não promoverá neste momento um intenso arrocho monetário, o que o obrigará no futuro a pesar a mão sobre os juros.
Rappaport não concorda com essa visão, e acredita que a inflação arrefecerá, provando acertada a dose de juros administrada pelo Banco Central. O relatório Focus prevê que a intensidade do ciclo será de 175 pontos-base. Para tanto, será importante a contribuição da política fiscal.
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, declarou que o tamanho do corte do orçamento será divulgado entre os dias 10 e 12 fevereiro. Para a Coin, o anúncio deve contribuir para minimizar as pressões inflacionárias, mesma opinião de Rappaport. “Com uma política fiscal mais rigorosa, acredito que os investidores irão se acalmar um pouco, até porque estão muito na ponta negativa”, afirmou o sócio da InvestPort.
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Instabilidade externa também tem culpa
Em sua opinião, deveria haver uma correção positiva do Ibovespa, já que as quedas recentes foram intensas e injustificadas. Para Adriano Moreno, da Futura, de fato há certo exagero no comportamento do mercado, mas o analista acredita que ainda é precipitado apostar em qualquer movimento de recuperação do índice.
Observando a situação mais instável nos mercados emergentes, entre as medidas restritivas e a alta dos preços, e uma melhora dos dados econômicos norte-americanos, com uma forte temporada de balanços, estrangeiros têm migrado de mercados emergentes para economias maduras. Só nos primeiros dois dias de fevereiro, não residentes levaram embora R$ 157,5 milhões.
Por causa disso, e o posicionamento vendido dos estrangeiros em contratos de índice futuro, Moreno não se mostra otimista para o curto prazo. Edgard Tamaki, estrategista da TCX Consultoria, acompanha, e lembra ainda do crescente temor de que o Banco Central, tendo usado todas as medidas à sua disposição para conter a alta do real, irá ter que apelar para o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para a renda variável.
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A Coin alinha-se no mesmo sentido, citando ainda a instabilidade política no Egito, que tende a ter um impacto bem mais forte sobre os mercados como um todo caso as manifestações tomem também países produtores de petróleo ou ameacem o canal de Suez.
No atual nível em que estão as bolsas norte-americanas, Moreno vê “muita gordura para queimar”. Sem mais novidades positivas para sustentar as altas, o gradual aumento das incertezas propicia uma correção. E se a situação piorar nos Estados Unidos, o Ibovespa não mais tende a operar descolado dos índices externos.