Investimentos: ainda vale a pena investir em dólar?

Eleições e cenário externo devem manter dólar pressionado nas próximas semanas; porém, investimento é de alto risco e pode gerar perdas

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SÃO PAULO – O dólar vem registrando forte valorização frente ao real desde o início de junho, quando a introdução da marcação a mercado levou os fundos DI e de Renda Fixa a registrarem perdas, alimentando o pessimismo entre os investidores.
Diante deste cenário, o Governo passou a enfrentar dificuldades na rolagem de alguns títulos públicos, o que acabou aumentando o nervosismo do mercado ainda mais, levando o dólar a disparar.

Eleições e cenário externo preocupam

O desempenho de uma moeda frente à outra reflete, de certa forma, o potencial de crescimento e os níveis de preços relativos das economias, mas em alguns casos apenas sinalizam uma perda de confiança momentânea, como aconteceu com o dólar e o real. Desta forma, a cotação do dólar pode ser vista como um termômetro do nervosismo, ou pessimismo do mercado. Quanto mais nervoso ou pessimista, mais alto sobe o dólar e vice-versa.

A pergunta que fica, entretanto, é por que tanto pessimismo? No término de um governo surgem especulações sobre qual será a política adotada pelo novo presidente, especialmente no que refere ao tratamento da dívida pública interna, que é expressa na forma de títulos públicos que fazem parte da carteira de investimentos da maioria dos fundos DI e de renda fixa.

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Quando surgem candidatos de oposição que adotam um discurso de confrontação, surge o medo de que o novo presidente possa adotar uma moratória da dívida interna. Infelizmente, ao contrário do que muita gente pensa, a moratória prejudicaria não apenas os grandes investidores, mas basicamente todas as pessoas que investem em renda fixa, o que inclui poupança, CDB e fundos. O avanço de Ciro Gomes (PPS) nas intenções de voto contribuiu também para alimentar a alta da moeda, exatamente devido à postura de confrontação que o candidato adota.

O principal fator por trás da disparada da moeda norte-americana nos últimos dias, porém, diz respeito à procura de dólares por muitas empresas brasileiras que têm que pagar dívidas no exterior. Com o Brasil é considerado atualmente como muito arriscado, o mercado internacional está praticamente fechado para estas empresas, que acabam buscando os dólares dentro do Brasil e, assim, pressionam as cotações da moeda norte-americana.

Além disso, a descoberta de fraudes contábeis em empresas norte-americanas tem minado a confiança dos investidores e colaborado com acentuadas desvalorizações das bolsas internacionais, o que diminui o apetite por ativos de risco, como os brasileiros.

Deste modo, frente às incertezas internas e ao cenário externo desfavorável, não é de surpreender que o dólar já acumule alta de 12,69% nos últimos sete dias, dos quais 9% somente desde segunda-feira. Mas, será que investir em dólares ainda é uma boa opção?

Investir agora é muito arriscado

Caso um calote por parte do governo ocorra, restarão poucos ativos imunes. Grande parte dos fundos DI e de renda fixa está investida em papéis do governo e boa parte do restante está em papéis de bancos, que dificilmente sairiam ilesos de uma moratória do governo.

Como todos perderiam em caso de moratória, o efeito chegaria também às bolsas de valores, pois estaríamos falando de um cenário de fuga maciça de capital estrangeiro.
O dólar, assim, deveria ter um bom desempenho, pois em uma situação de caos este apareceria como a melhor alternativa. Desta forma, investir em dólar nos patamares atuais só para quem realmente acredita na quebra do país e busca proteção, pois nos níveis atuais buscar valorização pode ser arriscado demais.

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Círculo vicioso

O grande problema é que a situação atual representa um perigoso círculo vicioso.
A alta do dólar aumenta o custo de rolagem da dívida pública, visto que parte dela é indexada ao dólar. O aumento da dívida pública por sua vez faz o risco país disparar, pois aumenta o risco do país não conseguir arcar com os encargos da dívida, alimentando ainda mais o nervosismo do mercado, e fechando este ciclo vicioso.

Além disto, do ponto de vista das empresas brasileiras, a alta do dólar frente ao real prejudica as empresas que possuem dívidas em dólar, que buscam se proteger através de instrumentos de hedge cambial. O aumento da procura por estes instrumentos de proteção contribui para a maior demanda de moeda norte-americana e, conseqüentemente impulsiona ainda mais o dólar. Este ciclo vicioso colabora para que novas cotações recordes sejam atingidas e o dólar não dá sinais concretos de queda.

Diante deste cenário, o dólar deve seguir pressionado até a definição do próximo presidente da República. Um fator, todavia, que poderia aliviar as cotações é a possibilidade de fechamento de novo acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional). Com isso, o mercado contaria com mais dólares para cumprir seus compromissos no exterior, aliviando a pressão sobre a moeda norte-americana.

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Deste modo, a estratégia a ser seguida depende da perspectiva de cada um. Para aqueles que acreditam no caos, o dólar surge, sem dúvida, como a melhor alternativa. Já para todos os outros que torcem para um cenário menos traumático, investir em dólares agora pode ser arriscado e levar a grandes perdas.