Alívio vai durar?

Inflação nos EUA surpreende com núcleo abaixo do esperado e anima mercado, mas algo muda na visão do Fed sobre juros?

Para maior parte dos analistas, apesar do alívio em março com inflação, Fed deve manter os planos de acelerar o ritmo de alta de juros nas próximas reuniões

Por  Mitchel Diniz, Lara Rizério -

O índice de preços ao consumidor medido pelo CPI nos EUA subiu 1,2% em março na comparação com fevereiro e teve avanço de 8,5% frente igual período de 2021, a maior alta desde dezembro de 1981, ainda que em linha com as projeções.

Contudo, o núcleo da inflação (que exclui itens voláteis, como commodities e alimentos) subiu 0,3% frente fevereiro e 6,5% na comparação anual, abaixo da expectativa do mercado de altas de 0,3% e 6,6%, respectivamente. Os números animaram os investidores e repercutem positivamente no mercado, em meio a expectativas de que a inflação possa ter chegado a um pico. As techs foram as mais impactadas positivamente, com o Nasdaq subindo por volta de 1% durante boa parte da manhã desta terça-feira (12).

“É um número forte, mas a reação por enquanto sugere que está precificado, especialmente com a leitura mensal do núcleo ficando abaixo das expectativas”, escreveu Mike Loewengart, diretor administrativo de estratégia de investimento da E-Trade, do Morgan Stanley. “O grande debate é se leituras ainda elevadas são o novo normal ou se estamos começando a ver uma luz no fim do túnel inflacionário”, apontou.

Cabe ressaltar que os recentes dados de inflação altos e declarações de autoridades do Federal Reserve consolidaram a visão de que o banco central dos EUA será mais agressivo no combate ao aumento dos preços, o que também provocou temores de que o Fed possa “errar” e causar uma recessão ao subir muito os juros.

Para os economistas do Morgan Stanley, o CPI de março mostra que inflação pode ter chegado em pico.

“O núcleo do índice de preços ao consumidor em março surpreendeu para baixo, com um declínio maior do que o esperado nos preços dos principais bens, juntamente com uma queda surpreendente nos aluguéis”, escreveram os especialistas , que projetavam alta de 0,46% na comparação com fevereiro. O índice de carros usados ​​e caminhões caíram 3,8% no mês, contribuindo para a queda do núcleo.

Já os dados de aluguel foram mais suaves do que o esperado, subindo 0,43% na base mensal, sendo a leitura mais baixa desde dezembro de 2021. “Embora esperemos que a inflação dos aluguéis permaneça firme ao longo do horizonte, os dados mais recentes ajudam a reduzir o risco de uma aceleração adicional substancial nas taxas mensais de inflação”.

Fora do núcleo, porém, os preços de energia subiram substancialmente (conforme o esperado) e os alimentos também subiram forte, levando o CPI a 1,2% ao mês e “trazendo a taxa para  o que vemos como seu provável pico, em 8,5%”.

Sem mudanças nos planos do Fed, por enquanto

De qualquer forma, mesmo com o ânimo do mercado, o núcleo mais baixo da inflação ao consumidor não deve alterar os  planos do Fed, segundo avalia CM Capital.

“Cabe destacar que recentemente as falas dos membros do Fomc foram duras em relação a condução da política monetária. Não esperamos que haja alguma alteração na condução da política monetária por conta do indicador divulgado hoje”, escreveram os analistas da casa.

De acordo com a análise, o mercado entendeu que o avanço de 0,3% no núcleo da inflação, menor que o esperado, sugere que a reprecificação das commodities afetou de forma mais amena a economia local, com potencial de transmissão limitado por ora.

A defasagem entre a inflação ao produtor e a inflação ao consumidor segue elevada para o histórico local, mas foi reduzida significativamente, avalia a casa. Contudo, para eles, o índice de preços ao produtor de março, que será divulgado amanhã, deve fazer com que o descolamento entre os estágios de processamento produtivo e o consumidor final volte a aumentar. “De modo geral, isso significa que ainda existe espaço para o repasse de preços nos próximos meses”, concluem os analistas.

A Genial Investimentos ressalta que a expressiva alta dos componentes mais voláteis é decorrente da invasão da Ucrânia pela Rússia, como consequência do impacto substancial no preço global de commodities e insumos agrícolas e nos preços das commodities energéticas.

Assim, a avaliação é que o conflito seguirá pressionando a inflação americana nos próximos meses, devido aos impactos sobre os preços de combustíveis e alimentos. O elevado nível de preços, que deteriora o poder de compra das famílias, impacta o consumo nos EUA, visto que limita a renda disponível a ser gasta com o consumo de bens e serviços não essenciais.

Embora os salários tenham apresentado altas consecutivas nos últimos meses, os aumentos têm vindo abaixo da inflação, adicionando um viés negativo para o consumo nos próximos meses.

“Vale ressaltar que a piora do cenário inflacionário ocorreu em um momento em que a inflação americana já se encontrava em um patamar bastante elevado”. Este fato, aponta a equipe de análise macroeconômica, aumenta a pressão para que o Fed acelere o aperto monetário para conter a dinâmica inflacionária.

“Nesse sentido, diante dos indicadores que apontam para uma economia superaquecida e de um persistente processo inflacionário, acreditamos que o Banco Central americano irá acelerar o ritmo de aumento de juros em 0,5 ponto na próxima reunião do comitê”, avaliam os economistas, projetando que a taxa de juros americana encerrará o ano em 3%.

O Citi avalia ainda que, apesar do núcleo abaixo do esperado, muitos elementos viram seus preços subindo a passos fortes, incluindo serviços. Assim, mantém sua expectativa de alta de 0,5 ponto dos juros no próximo encontro do Fomc, com altas adicionais nessa proporção em junho, julho e setembro.

André Perfeito, economista-chefe da Necton, também ressalta que outro ponto de atenção está relacionado aos custos de serviços que subiram 5,1% em relação ao ano anterior, o maior avanço desde 1991. As tarifas aéreas apresentaram forte alta de 10,7% em março, ancorada na disparada dos combustíveis.

Do lado positivo, destaca-se a segunda queda mensal consecutiva nos preços dos carros usados – que há meses impulsionava a inflação de bens. Entretanto, embora em menor escala, os preços dos carros novos subiram levemente.

“Os dados sugerem certo pico de inflação e isto tem feito que investidores tirem em parte o pé dos juros mais altos sem com isso dizer que não haverá altas consideráveis na taxa básica norte-americana que deve ter o pace aumentado de 25 para 0,5 ponto percentual (ou 50 pontos base)”, avalia.

Conforme destaca o BofA, em geral, o dado ainda reflete componentes de inflação cíclica muito fortes e que não devem impedir o Fed de entregar três aumentos de 0,5 ponto percentual nas próximas reuniões. Assim, apesar do alívio, o dado de inflação não deve mudar os planos do Fed.

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