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Ibovespa não consegue subir e fecha em baixa de 0,23% com exterior após euforia com Copom, mas analistas seguem otimistas

Analistas reforçaram otimismo com o mercado após corte de juros em 0,5 ponto pelo Copom

Lara Rizério Vitor Azevedo

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Conforme já sinalizado pelo movimento na noite da véspera do ETF (EWZ), principal ETF (fundo de gestão passiva) atrelado à Bolsa brasileira e negociado nos EUA a sessão pós-Copom começou com  ganhos expressivos para o Ibovespa.

Na última quarta-feira (2), o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou os juros em 0,5 ponto, para 13,25% ao ano, magnitude que surpreendeu uma grande parte do mercado e levou a previsões mais positivas para a Bolsa. Com isso, nesta quinta (3), o Ibovespa chegou a uma máxima de 122.619 pontos, ou avanço de 1,46%.

Porém, no fim da manhã, o índice passou a operar entre leves perdas e ganhos, também acompanhando a continuação do cenário de aversão ao risco no exterior. O Ibovespa fechou em queda de 0,23%, aos 120.585 pontos.

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A bolsa brasileira já vinha precificando há meses a perspectiva de corte da Selic no segundo semestre, apoiada, entre outros fatores, em uma melhora relevante em dados de inflação corrente e projeções, além de avanços em pautas no Congresso, incluindo a nova regra fiscal e a reforma tributária. Até a quarta-feira, porém, não havia um consenso sobre a magnitude do corte, que surpreendeu boa parte do mercado.

No comunicado que acompanhou o anúncio do primeiro corte da taxa básica de juros em três anos, em uma decisão dividida, o BC sinalizou ainda novos cortes equivalentes nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).

Em relatório antes da abertura do mercado, a Levante Corp destacou a projeção de uma abertura positiva, mas havendo um peso no exterior. “Como era de se esperar, os contratos futuros do Ibovespa iniciaram a sessão com uma alta de pouco menos de 1%. A valorização só não foi mais intensa devido à baixa nos contratos futuros do índice americano S&P 500. As ações em Wall Street seguem na descendente, ainda pressionadas pela notícia de que a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota dos títulos públicos americanos”, apontou.

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A decisão do Copom chegou a puxar principalmente ações de empresas mais expostas ao mercado local, mais sensíveis a juros, como construtoras, assim como papéis de consumo e varejo, mas que viraram para queda posteriormente.

Parte do mercado também repercutiu uma preocupação com a possibilidade de que a postura monetária mais branda do Copom reflita, de alguma forma, a pressão política exercida desde o início do ano pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com um coro de autoridades cobrando cortes da Selic.

Campos Neto acabou sendo o voto de desempate, determinante para que o BC cortasse os juros em 0,5 ponto percentual e não em 0,25 ponto, em uma decisão por 5 votos a 4.

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“O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, teve uma mudança bastante significativa de postura em relação à última decisão do Copom, quando houve unanimidade entre os diretores para que se mantivesse estável a taxa Selic em um comunicado duro, sem sequer citar a possibilidade de reduções futuras da taxa de juros”, disse à Reuters Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.

A curva de juros brasileira ilustra parcialmente a preocupação de uma influência política na atuação do Banco Central, com a ponta curta caindo e o meio e a ponta longa subindo. Os DIs para 2024 e 2025 perderam 19,5 e 18,5 pontos-base, a 12,46% e 10,49%. As taxas dos contratos para 2027 e 2029, do outro lado, ganharam quatro e 10,5 pontos, a 10,11% e 10,39%, e as dos para 2031, 18 pontos, a 10,83%.

“Na ponta curta, com o corte maior e sinalização de prosseguimento, a curva embute a certeza na queda dos juros. Já nos contratos mais longos, os investidores costumam se proteger do sentimento de maior leniência do banco central com a inflação. As taxas mais longas também foram pressionadas pelos yields dos treasuries, ainda fruto do rebaixamento da dívida dos EUA”, explica Alexsandro Nishimura, economista e sócio da Nomos.

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As ações de varejistas e de companhias de crescimento sofreram com a virada das taxas. Os papéis ordinários da Via (VIIA3), Méliuz (CASH3) e Mazine Luiza (MGLU3) perderam, respectivamente,  6,73%, 6,24% e 5,11%, figurando entre as maiores quedas do Ibovespa.

O dólar fechou em alta de 1,94%, a R$ 4,898 na compra e a R$ 4,899 na venda, também de olho nos juros – no caso levando mais em conta o diferencial entre as taxas americanas e brasileiras.

Apesar do dia de volatilidade, as visões para a Bolsa são positivas.

Em relatório divulgado durante a manhã da véspera, o JPMorgan apontou esperar que a decisão do Copom seria acirrada, mas que projetava um corte de 0,25 ponto, sendo assim surpreendido por um corte mais forte.

O JPMorgan pontuou que um corte na Selic de 0,50 ponto poderia dar um impulso aos mercados na sessão pós-Copom e ainda destacou o potencial de ganhos com os cortes para baixo nos juros.

Cabe destacar que a decisão foi por 5 votos a 4, com votos por um corte de 0,50 ponto de Roberto Campos Neto (presidente), Ailton de Aquino, Carolina de Assis Barros, Gabriel Galípolo e Otávio Damaso. Os diretores Diogo Guillen, Fernanda Guardado, Maurício Moura e Renato Gomes defenderam corte de 0,25 ponto.

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“Nos próximos meses, o ritmo da flexibilização, juntamente com a magnitude total do ciclo, continuará a guiar os movimentos do mercado, desde que haja uma sensação de que há uma oportunidade de reavaliação dos ativos à frente”, avaliaram os estrategistas do banco. O banco projeta o Ibovespa a 135 mil pontos até o fim do ano de 2023, isso exclusivamente devido à expansão de múltiplos impulsionada por taxas mais baixas.

Thiago Lourenço, operador de renda variável da Manchester Investimentos, destacou que a redução estava dentro dos cenários previstos, mas não era a aposta majoritária.

“A gente deve ver com isso uma sustentação de um ambiente mais otimista e, consequentemente, a continuidade desse fluxo de compras no mercado. Essa redução da taxa de juros já vem sendo aguardada há mais de 6 meses e isso é uma sinalização clara de que os fatores técnicos estão suficientemente confortáveis para poder iniciar essa flexibilização monetária. Isso com certeza tende a contribuir para o resultado das empresas no segundo semestre e também melhorar a dinâmica econômica”, avalia o especialista.

Desta forma, a expectativa é que essa redução de 0,5 ponto, por ser a primeira, seja seguida outras dessa magnitude ou talvez até uma mais agressiva até o fim do ano (ainda que a sinalização seja de manutenção do ritmo de cortes).

“Isso já deixa o mercado com um campo aberto para poder reprecificar os ativos, revisar a curva de juros, também podendo trazer um fluxo estrangeiro também maior para o país”, avalia, uma vez que pode reduzir a expectativa de crescimento baixo para a economia do Brasil por conta da taxa de juros a níveis atualmente bastante elevados, que prejudicam a atividade.

“Um corte de 50 pontos-base era esperado por uma menor parcela do mercado, não era um consenso do mercado, então surpreendeu positivamente. Com isso, os ativos de risco devem ganhar uma boa tração. (…)  A gente vai ter algum alívio inclusive no mercado de crédito privado. Com isso deve acontecer menos ruído político, menos declarações e críticas do governo contra o Banco Central e um clima mais harmonioso entre BC e governo”, avalia o economista e assessor de investimentos Bruno Monsanto, sócio na RJ+ Investimentos.

Isabel Lemos, gestora de renda variável do Fator, também destacou que a decisão tem impacto positivo nos ativos, já que o mercado estava bem dividido sobre a magnitude do corte.

“Mais especificamente na parte de Bolsa, é visto como positivo com a redução no custo de capital das empresas ao longo do tempo, não é só por conta dessa redução de juros, mas ao longo do tempo já está precificando juros mais baixos”, avalia Isabel, destacando que isso será positivo aí para os resultados das empresas no médio e longo prazo.

Os setores mais impactados serão os mais sensíveis a juros, como o imobiliário, consumo, industrial, então são empresas mais voltadas à economia doméstica. “Todo mundo acaba ganhando com juros mais baixos, mas a gente entende que esses sejam os setores que tenham uma reação melhor”.

Outro ponto importante na queda de juros é que provavelmente também vai ter mais investimentos. Empresas que vão ter uns resultados operacionais um pouco melhores e vão poder começar a voltar a reinvestir. Outras empresas que se beneficiam são empresas endividadas em moeda local.

Mais projeções para o Ibovespa

Além do JPMorgan, a XP destaca seguir otimista com a Bolsa brasileira, vendo ainda como bastante descontada. O Preço/Lucro do Ibovespa atualmente negocia em 8,5 vezes, um desconto relevante em relação à média histórica de 11 vezes.

“Além disso, o Brasil também é barato quando comparado às ações globais: o MSCI ACWI é negociado a um P/L projetado muito mais alto, de 16,8 vezes, e o Brasil está próximo dos maiores descontos históricos”, avalia a casa, que recentemente elevou a projeção para o Ibovespa no fim do ano de 130 mil para 133 mil pontos.

A Guide Investimentos acredita que o índice pode se valorizar até 140 mil pontos nos próximos meses considerando o valuation baixo e também o crescimento dos lucros das empresas. A casa destaca que a queda dos juros possui um impacto direto nos lucros: o endividamento das empresas do Ibovespa aumentou sensivelmente após a pandemia e diversas empresas têm arcado pagamentos de juros elevados. A queda dos juros deve aliviar este fardo, principalmente em 2024.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.