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Ibovespa a 206 mil: quem puxou — e quem ficou atrás — no histórico rali pós-eleição

Bolsa saltou 7,7% e fechou acima dos 200 mil pontos pela primeira vez; bancos e ações sensíveis aos juros lideraram, enquanto exportadoras ficaram para trás

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O Ibovespa encerrou esta segunda-feira (5) em um patamar inédito. O principal índice da Bolsa brasileira disparou 7,70%, aos 206.911,89 pontos, superando pela primeira vez os 200 mil pontos no fechamento. Durante o pregão, chegou aos 209.605,70 pontos, nova máxima histórica intradiária.

O avanço ocorreu no primeiro pregão após o resultado do primeiro turno das eleições e veio acompanhado por uma forte reprecificação de outros ativos brasileiros. Os juros futuros recuaram, o dólar caiu com força e o Ibovespa chegou a superar os 209 mil pontos, enquanto as ações mais ligadas à economia doméstica ocuparam as primeiras posições entre as maiores altas do dia.

Mas os 7,7% de valorização do Ibovespa escondem movimentos bastante diferentes dentro da carteira.

Bancos, empresas ligadas ao mercado de capitais e companhias sensíveis ao custo do crédito avançaram muito acima do índice. Magazine Luiza, B3, Banco do Brasil, Itaú e Bradesco estiveram entre os destaques. Na direção contrária, exportadoras como Suzano e Embraer sofreram com a valorização do real, enquanto Vale também terminou o dia no campo negativo.

O retrato do pregão ajuda a mostrar de onde veio a arrancada que levou o Ibovespa aos 206 mil pontos — e quais ações ficaram praticamente de fora dela.

B3 dispara mais de 20% e vira termômetro da reprecificação

Entre as ações mais diretamente associadas ao mercado financeiro, a B3 (B3SA3) disparou mais de 20%, acompanhada por XP e BTG Pactual.

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A intensidade do movimento esteve ligada principalmente ao forte fechamento da curva de juros e à mudança nas expectativas incorporadas aos ativos domésticos. Juros longos menores reduzem a taxa utilizada para trazer a valor presente os resultados futuros das empresas e também podem aumentar a atratividade relativa das ações diante da renda fixa.

Para B3 e outras empresas ligadas ao mercado de capitais há um efeito adicional: maior fluxo para ações e crescimento dos volumes negociados podem favorecer receitas relacionadas à negociação, distribuição e investimentos.

Um levantamento do Morgan Stanley sobre os últimos dez anos citado pelo InfoMoney mostra ainda que a B3 apresentou historicamente sensibilidade de aproximadamente 13% para cada queda de 1 ponto percentual nos juros longos brasileiros. A relação é histórica e não significa que a mesma magnitude necessariamente se repita em cada movimento da curva.

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Depois do salto desta segunda, o gráfico passa a exigir atenção à capacidade de B3SA3 de sustentar os níveis rompidos e consolidar parte do avanço.

Itaú rompe R$ 50 e renova recordes

As ações preferenciais do Itaú Unibanco (ITUB4) avançaram mais de 10% e estabeleceram novos recordes.

Durante a sessão, ITUB4 passou dos R$ 50 pela primeira vez e superou resistências importantes no gráfico, acompanhando o movimento de valorização generalizada dos grandes bancos.

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O Itaú esteve entre os papéis favorecidos pela redução do prêmio exigido pelos investidores para os ativos domésticos. Além do efeito sobre valuation, a queda das taxas futuras influencia expectativas para crédito, atividade e inadimplência.

No levantamento do Morgan Stanley, ITUB4 mostrou historicamente sensibilidade próxima de 10% para uma queda de 100 pontos-base nos juros longos.

Do ponto de vista gráfico, a renovação da máxima histórica deixa o papel sem resistências anteriores claramente estabelecidas. A antiga máxima de R$ 48,81 passa, por sua vez, a funcionar como uma referência importante para avaliar a sustentação do rompimento.

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Bradesco dispara e supera o próprio Ibovespa

O Bradesco também apresentou desempenho bem superior ao índice, com BBDC4 avançando dois dígitos no pregão.

A disparada das ações do Bradesco ocorreu em meio à queda dos juros futuros, à melhora do valuation e ao aumento do fluxo para ativos brasileiros.

O movimento reforçou o caráter setorial da alta: Itaú, Bradesco e Banco do Brasil avançaram todos em dois dígitos em uma sessão marcada pelo fechamento expressivo das taxas futuras.

Na análise histórica do Morgan Stanley, BBDC4 apresentou sensibilidade próxima de 11% para cada redução de 1 ponto percentual nos juros longos.

No curto prazo, depois da forte arrancada, aumenta a importância da capacidade do papel de sustentar os rompimentos conquistados nesta segunda-feira.

Banco do Brasil sobe 11% e completa rali dos bancos

O Banco do Brasil (BBAS3) também participou do movimento, encerrando a sessão com alta de dois dígitos.

A ação chegou a disparar cerca de 13% ao longo do pregão, acompanhando a forte reprecificação do setor financeiro.

Entre Itaú, Bradesco e Banco do Brasil, o banco estatal apresentou a maior sensibilidade histórica aos juros longos na amostra do Morgan Stanley. Uma redução de 100 pontos-base esteve associada, historicamente, a uma valorização próxima de 13% para BBAS3, ante 11% para Bradesco e aproximadamente 10% para Itaú.

Os números ajudam a dimensionar por que o setor financeiro respondeu de maneira tão intensa ao movimento da curva, embora fatores específicos de cada banco também influenciem a formação dos preços.

Magazine Luiza lidera com salto de 24%

A reprecificação não ficou restrita ao setor financeiro.

Magazine Luiza (MGLU3) terminou entre os maiores ganhos da sessão, com alta de 24,18%, em um pregão no qual empresas ligadas ao consumo e ao crédito também avançaram fortemente.

Magalu, Cyrela, Localiza e Vamos chegaram a saltar mais de 20% durante o pregão, refletindo principalmente o forte recuo das taxas dos DIs.

A reação está ligada à elevada sensibilidade de empresas de varejo às condições de crédito e ao nível dos juros. Taxas menores podem reduzir despesas financeiras e melhorar as condições para o consumo financiado, ainda que esse efeito dependa da trajetória efetiva da política monetária e da atividade.

No caso do Magalu, a valorização ampliou um movimento que já vinha sendo observado no gráfico. Depois da aceleração desta segunda, passa a ser relevante acompanhar se as regiões rompidas conseguirão funcionar como suporte.

Localiza, Vamos e Cyrela refletem queda dos juros

A mesma dinâmica apareceu em outros setores sensíveis ao custo do dinheiro.

Localiza (RENT3) e Vamos (VAMO3) avançaram mais de 20% durante a sessão. As duas companhias operam negócios intensivos em capital e financiamento, o que aumenta a influência do custo de captação sobre seus resultados e avaliações.

O setor imobiliário também participou do movimento. Cyrela (CYRE3) chegou a subir mais de 20%, enquanto MRV também registrou alta de dois dígitos.

A construção civil está entre os segmentos tradicionalmente mais sensíveis aos juros, tanto pelo efeito das taxas sobre o financiamento dos compradores quanto sobre o custo de capital das próprias empresas.

A força conjunta de varejo, locadoras e construtoras reforçou um dos traços mais claros da sessão: as maiores altas se concentraram justamente entre empresas mais expostas às condições financeiras domésticas.

Petrobras avança mesmo com petróleo em queda

Entre as grandes empresas do Ibovespa, a Petrobras também ajudou a empurrar o índice para o recorde.

PETR4 terminou em alta de mais de 8% e estabeleceu nova máxima histórica durante o pregão. O movimento chamou atenção porque ocorreu na direção oposta à do petróleo no exterior.

Enquanto as ações da estatal subiam, o Brent recuava no mercado internacional. PETR4 atravessou em uma única sessão três projeções técnicas que estavam no radar antes da abertura, em R$ 53, R$ 54,15 e R$ 55,55.

O próximo nível técnico apontado aparece em R$ 57,85, seguido pela região psicológica dos R$ 60.

A divergência entre Petrobras e petróleo também reforça a dimensão doméstica do movimento desta segunda-feira.

Quem ficou para trás no rali?

A força da sessão também pode ser medida pelo número reduzido de ações no vermelho.

Apenas um pequeno grupo de papéis ficou de fora da euforia do Ibovespa, entre eles Suzano, Embraer, Vale e WEG.

Parte relevante desse grupo reúne empresas com forte exposição ao exterior, que enfrentaram um efeito oposto ao observado entre as ações domésticas: enquanto os juros recuaram, o dólar caiu fortemente diante do real.

Suzano cai com real mais forte

Suzano (SUZB3) apareceu entre as maiores quedas da sessão.

A companhia possui receitas fortemente vinculadas ao dólar, e a valorização da moeda brasileira reduz o valor, em reais, das receitas obtidas no exterior.

O movimento torna Suzano um dos exemplos mais claros do outro lado da reprecificação observada nesta segunda: o mesmo real forte que acompanhou a melhora dos ativos domésticos funcionou como pressão para algumas empresas exportadoras.

Embraer também fica fora da euforia

Embraer (EMBJ3) também terminou o pregão no campo negativo.

A companhia possui forte presença internacional e exposição cambial, o que fez a apreciação do real atuar como um dos vetores negativos para o papel em uma sessão de valorização excepcional da moeda brasileira.

O comportamento de Embraer, assim como o de Suzano, ajuda a mostrar que o movimento não representou uma compra indiscriminada de todas as ações da Bolsa.

Vale cai mesmo com Ibovespa nos 206 mil

A Vale (VALE3) foi outro peso pesado ausente do rali.

Enquanto o Ibovespa disparava, VALE3 destoou do mercado diante do real forte, do minério físico pressionado e de um gráfico ainda sem confirmação de reversão.

O contraste é relevante: o Ibovespa conseguiu avançar 7,7% mesmo com uma de suas ações de maior peso no terreno negativo.

No gráfico, VALE3 permanece em uma configuração bastante diferente daquela observada em bancos e Petrobras. A primeira barreira relevante para uma recuperação mais consistente aparece em R$ 77,55. Na parte inferior, R$ 68,67 segue como suporte técnico próximo.

WEG e outras exportadoras também recuam

WEG (WEGE3) também terminou o pregão no vermelho, assim como Klabin e algumas companhias ligadas à siderurgia.

A presença dessas ações entre as poucas quedas da sessão reforça que empresas com receitas dolarizadas ou maior exposição às commodities enfrentaram uma dinâmica diferente daquela observada entre os ativos domésticos.

O que vencedores e perdedores revelam sobre o rali

A fotografia da sessão mostra uma divisão relativamente clara.

De um lado ficaram bancos, empresas ligadas ao mercado de capitais e companhias mais sensíveis às condições financeiras domésticas, como varejistas, locadoras e construtoras.

Do outro apareceram principalmente empresas expostas ao dólar e algumas companhias ligadas a commodities.

Isso ajuda a explicar a natureza do avanço do Ibovespa: mais do que um movimento uniforme de seus componentes, houve uma reprecificação especialmente intensa dos ativos domésticos, acompanhando a queda dos juros e a valorização do real.

Petrobras foi uma exceção importante entre as commodities ao renovar máximas mesmo com o petróleo em queda. Vale, por outro lado, não acompanhou o índice.

Ibovespa: 200 mil pontos viram referência no gráfico

A disparada desta segunda também redesenhou o mapa técnico do Ibovespa.

Depois de superar os 200 mil pontos e alcançar 209.605 pontos na máxima, o gráfico passou a apontar 215.630 pontos, 221.450 pontos e 230 mil pontos como próximas referências.

Na direção oposta, a antiga máxima histórica de 199.354 pontos passa a funcionar como primeira região relevante de suporte. Abaixo dela, aparecem 189.487 pontos, 182.990 pontos e 178 mil pontos.

O movimento também deixou o índice bastante afastado das médias móveis. No gráfico diário, o Índice de Força Relativa (IFR) chegou à região de sobrecompra, sinal de forte aceleração — condição que, isoladamente, não confirma uma reversão.

Depois de uma alta de 7,7% em apenas uma sessão, os próximos pregões passam a mostrar quanto dessa reprecificação conseguirá ser consolidado.

Além da tentativa de superar a máxima desta segunda-feira, o comportamento do índice em eventuais retornos à região dos 200 mil pontos será uma das principais referências para a leitura de curto prazo.

Confira o desempenho das ações que se destacaram na sessão:

TickerVariação (%)Cotação
XPBR31+24,43%R$ 139,61
MGLU3+24,18%R$ 9,45
B3SA3+22,63%R$ 23,30
BPAC11+22,52%R$ 80,89
VAMO3+21,31%R$ 5,75
RENT3+20,68%R$ 50,06
CYRE3+18,40%R$ 33,14
ASAI3+16,41%R$ 12,98
BBDC4+13,57%R$ 21,84
SBSP3+11,58%R$ 31,50
ITSA4+11,52%R$ 16,36
MRVE3+11,37%R$ 6,27
BBAS3+11,00%R$ 26,33
ITUB4+10,37%R$ 49,48
PETR4+8,19%R$ 55,36
AXIA3+7,87%R$ 61,38
Ibovespa+7,70%206.911,89 pts
PETR3+6,68%R$ 60,40
USIM5-0,27%R$ 7,46
WEGE3-0,39%R$ 51,25
KLBN11-0,86%R$ 18,46
VALE3-0,97%R$ 71,40
GGBR4-1,19%R$ 25,79
EMBJ3-3,31%R$ 95,00
SUZB3-5,39%R$ 41,96
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Rodrigo Petry
Mercados | Economia | Onde Investir

Coordenador de Projetos Editoriais. Atuou como editor de mercados e investimentos no InfoMoney, liderando o Ao Vivo da Bolsa e o IM Trader. Antes, foi editor-chefe do portal euqueroinvestir, repórter do Broadcast (Grupo Estado) e revista Capital Aberto. Também foi Gestor de Relações com a Mídia do ex-Grupo Máquina e assessor parlamentar.