Alta de custos

Geadas em estados no Brasil e ciclo de gado nos EUA representam mais desafios para os frigoríficos

Previsão de aumento dos custos com alta do milho pode impactar BRF e JBS, enquanto retração do mercado bovino nos EUA em 2022 pode impactar JBS e Marfrig

Geadas atingiram na madrugada de terça-feira (29) regiões agrícolas do Paraná e Mato Grosso do Sul, o que deve acentuar perdas na safra brasileira de milho já fortemente impactada pela seca, de acordo com especialistas ouvidos pela Reuters.

Ainda é difícil precisar o impacto do frio excessivo, uma vez que o prejuízo demora alguns dias para aparecer nas lavouras.

Atualmente, considerando apenas os efeitos da severa seca no centro-sul, a segunda safra brasileira está estimada em 61,6 milhões de toneladas, queda de 22,4 milhões de toneladas em relação potencial inicial estimado pela Safras & Mercado.

A colheita nacional, considerando a primeira safra, está prevista pela consultoria em 95,5 milhões de toneladas. O Paraná, normalmente é segundo Estado produtor brasileiro do cereal após Mato Grosso, enquanto o Mato Grosso do Sul vem em quarto.

“Vamos ter lavouras aí que, dependendo da geada de hoje, é possível que tenha perda total”, comentou Paulo Molinari, analista de milho da Safras & Mercado.

Segundo ele, o mercado de milho no Brasil está paralisado, sem vendas de produtores, devido à incerteza de como ficará a oferta do Brasil.

Para o analista, uma das alternativas da indústria de carnes, que já lidava com custos de matérias-primas da ração historicamente elevados, é importar ou aumentar o uso de trigo como ingrediente da alimentação de criações.

Mas no Paraguai, que costuma exportar milho ao Brasil, as geadas foram “extremamente fortes”, disse o agrometeorologista Marco Antônio dos Santos, da Rural Clima, citando outro fator que pode limitar a oferta a indústrias brasileiras.

O impacto do fenômeno climático poderia ter sido mais intenso, não fossem as chuvas registradas em algumas regiões.

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“Choveu em algumas áreas, isso aliviou um pouco as geadas amplas principalmente no norte do Paraná e algumas áreas de Mato Grosso do Sul. No entanto, o centro de alta pressão ficou em cima do Paraguai”, disse Santos.

“Geadas extremamente fortes –de forte a muito forte–, não teve nem moderada no Paraguai, provavelmente dizimou”, afirmou o meteorologista, dizendo que perdas só vão ficar mais claras nos próximos dias.

Há previsão de que o frio intenso continue na quarta-feira, disse a Rural Clima em boletim.

“Infelizmente as previsões se confirmaram, e amanhã (quarta-feira) o dia deve ser mais frio ainda, a massa polar está ganhando força”, comentou.

A segunda safra de milho do Paraná está estimada em 9,8 milhões de toneladas pelo Departamento de Economia Rural (Deral), que vê uma colheita, até o momento, com queda de cerca de 5 milhões de toneladas ante o potencial inicial, devido ao impacto da seca.

Os números devem mudar dependendo do impacto do frio para as lavouras, disse o especialista em milho do Deral, Edmar Gervásio.

Segundo ele, da área total de milho segunda safra no Paraná de 2,5 milhões de hectares, 1,8 milhão de hectares estão em fases em que perdas podem ocorrer.

Mas ele ponderou que a maioria das lavouras do Estado está em frutificação “já em fase final”, não devendo ter impacto, assim como ocorre quando os plantações estão em maturação, perto da colheita.

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Na avaliação do Bradesco BBI, a quebra de safra nos estados do Paraná e Mato Grosso do Sul pode colocar pressão de alta no mercado global dos preços do milho e, portanto, representam um risco de baixa para i) BRF (BRFS3), já que a ração representa cerca de 30% de seus custos totais; ii) JBS (JBSS3), já que a ração representa cerca de 12% de seus custos totais; e iii) M. Dias Branco (MDIA3), com os analistas destacando que os preços de milho e trigo geralmente possuem forte correlação, sendo o trigo responsável por cerca de 45% de seus custos totais.

“Notamos que a colheita de milho de inverno no Mato Grosso do Sul responde por cerca de 8% da produção anual do Brasil, e no Paraná em cerca de 12%. Em uma análise de sensibilidade, um declínio de 50% na safra de milho de inverno de ambos os estados combinados versus estimativas de safra inicial seria responsável por uma redução adicional equivalente a cerca de 4% das exportações globais de milho”, apontam os analistas.

Os analistas do BBI possuem recomendação neutra para BRF, com preço-alvo de R$ 32 e outperform (desempenho acima da média do mercado) para JBS e M. Dias Branco, com preços-alvos respectivos de R$ 38 e R$ 32.

Ainda no radar do setor – e representando um viés para frigoríficos, o Itaú BBA analisou o mercado americano, especificamente as expectativas para JBS e Marfrig (MRFG3). Os analistas apontam que o mercado de bovinos nos Estados Unidos deve passar por uma retração em 2022, impactando diretamente os resultados das duas empresas.

Os analistas apontam que está começando fase de contração, que inicialmente traz margens maiores para os frigoríficos devido ao baixo custo do gado. Com o tempo, a liquidação deste gado, porém, faz com que a oferta se restrinja e os preços do gado se recuperem.

A seca atual nos EUA deve acelerar ainda mais este processo, uma vez que implica em piores condições de pastagem e colheita, levando a custos mais altos de grãos e rações. Além disso, as atuais condições das pastagens devem forçar uma aceleração na liquidação do gado até o segundo semestre de 2021.

De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), a produção de carne bovina deve apresentar seu primeiro declínio em sete anos em 2022.

“Com a expectativa de recuperação dos preços do gado em 2022, o ambiente do consumidor é um fator-chave para a lucratividade dos frigoríficos”, apontam os analistas, que ressaltam que o crescimento econômico dos EUA deve se manter resiliente nos próximos dois anos. Adicionalmente, a reabertura dos bares e restaurantes deve apoiar a melhoria do mix de canais de venda e mitigar as taxas de abate mais baixas que esperamos para 2022.

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“Apesar do ambiente favorável ao consumidor, esperamos que as margens dos frigoríficos se contraiam a partir do segundo semestre do ano que vem”, avaliam.

Mesmo nesse cenário, os analistas reiteram a JBS como a principal escolha dentre as empresas de proteínas, com preço-alvo de R$ 47. “Após a desaceleração do ciclo do gado americano, o portfólio diversificado da JBS sustentará um balanço patrimonial saudável”, avaliam.

Eles também possuem recomendação de compra para Marfrig, com preço-alvo de R$ 26 por ativo, também comentando a fusão em potencial com a BRF após a companhia de Marcos Molina adquirir mais de 30% de ações BRFS3. “A continuidade da forte dinâmica operacional nos EUA seria essencial para o sucesso de ambas as empresas, caso se combinassem, pois permitiria uma maior redução na alavancagem da Marfrig (que atualmente se beneficia do ciclo mais forte) e garantiria o início da nova empresa com um balanço patrimonial saudável e capacidade de investimento sustentado, uma vez que a necessidade de aumentar o capex [investimentos em capital] está no centro dos problemas atuais da BRF”, apontam os analistas do BBA.

(com Reuters)

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