O que fez o Ibovespa disparar no ano? JPMorgan tem teoria – e ainda não foi “gringo”

Banco aponta desconexão entre alta do índice e fluxo estrangeiro em 2025, defende que ETFs estão no centro do movimento da Bolsa brasileira e vê mais apetite do exterior no ano que vem

Paulo Barros

Painel eletrônico na B3. REUTERS/Alexandre Meneghini
Painel eletrônico na B3. REUTERS/Alexandre Meneghini

Publicidade

A menos que ocorra um desastre, nem a correção desta quarta-feira (17) impedirá o Ibovespa de encerrar 2025 em forte alta. O mercado está otimista para que o bom desempenho se mantenha no ano que vem, mas ainda se divide na motivação do avanço. Alguns agentes vêm destacando a tese de trade global, com fluxo de economias desenvolvidas para emergentes, mas o JPMorgan tem outra teoria: um crescimento inesperado dos ETFs.

Em relatório divulgado nesta quarta, analistas do banco argumentam que o fluxo estrangeiro visto até aqui em 2025, de cerca de R$ 20 bilhões, é um salto importante diante da saída de R$ 32,1 bilhões em 2024, mas não é suficiente para explicar a disparada de 32% do Ibovespa.

Entre os fatores que ajudaram a sustentar o mercado, o JPMorgan cita recompras de ações, reinvestimento de dividendos via fundos passivos, cobertura de posições vendidas e, principalmente, o avanço dos ETFs. “Os fluxos de ETFs, em particular, tornaram-se um fator-chave e provavelmente continuarão sendo essenciais para o desempenho do mercado no futuro”, afirmam as analistas para mercados emergentes Emy Cherman e Cinthya Mizuguchi.

Continua depois da publicidade

Maior crescimento desde 2019

No universo de mercados emergentes, os ETFs passivos atraíram US$ 82 bilhões em 2025. O Brasil responde por cerca de 4,5% desse total, equivalente a aproximadamente US$ 3,7 bilhões.

Considerando os principais ETFs ligados ao mercado brasileiro, os fluxos somaram US$ 1,8 bilhão no ano, o maior nível desde 2019. A maior parte dessas entradas ocorreu a partir do “Dia da Libertação”, quando Donald Trump anunciou sua política de tarifas, com forte ritmo entre maio e o fim do ano.

Para 2026, o JPMorgan projeta um cenário mais favorável para o fluxo estrangeiro. O banco afirma ter uma visão positiva para mercados emergentes e espera que a queda de cerca de 3,5 ponto percentual na Selic impulsione as ações. O principal risco apontado é a volatilidade associada ao ciclo eleitoral.

Fundos ainda não estão comprando

No mercado doméstico, os dados mostram que fundos locais seguem registrando resgates. Fundos de ações e multimercados continuam com saídas líquidas, embora relatos de clientes indiquem desaceleração nos resgates nos últimos meses.

Em novembro, a indústria de fundos teve saída líquida de R$ 16 bilhões, puxada principalmente por renda fixa. No acumulado do ano, o setor registra entrada de R$ 145 bilhões. Os fundos dedicados a ações tiveram resgates de R$ 1,2 bilhão no mês e acumulam saídas de R$ 53 bilhões em 2025, marcando o 17º mês consecutivo de retiradas.

A participação de ações no patrimônio total dos fundos permanece em 7,9%, patamar estável no segundo semestre e abaixo da média histórica de 11,2%. Já os fundos multimercados registraram saída de R$ 885 milhões em novembro, o menor valor desde dezembro de 2021, embora o saldo negativo no ano chegue a R$ 61 bilhões. Na renda fixa, houve saída de R$ 7,6 bilhões no mês, após seis meses de entradas que somaram R$ 125 bilhões; no acumulado do ano, o fluxo é positivo em R$ 162 bilhões.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)