Esperado? Fed não surpreende com corte de juros, mas sinalizações abalam os mercados

Corte de juros em dezembro parece que não é mais tão certo assim

Lara Rizério

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A decisão do Federal Reserve veio em linha com o esperado, com um corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa de juros americana para a banda entre 3,75% e 4% ao ano.

Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, aponta que houve duas surpresas com a decisão. A primeira é que um dos dirigentes, Stephen Miran, o último indicado por Donald Trump, defendeu um corte maior de 0,50 ponto. Já outro membro, o presidente da distrital de Kansas City, Jeffrey Schmid, votou pela manutenção da taxa em 4,25%, o que mostra uma divisão interna sobre o ritmo ideal de flexibilização monetária.

Outro ponto relevante é o anúncio de que o Fed deve encerrar a redução do seu balanço a partir do final de novembro. O balanço, que chegou a quase US$ 9 trilhões em 2022, está sendo normalizado desde 2023 e deve se estabilizar na casa dos US$ 6 trilhões, ainda acima do nível pré-pandemia, que girava em torno de 4 trilhões.

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“Esse movimento levanta uma questão para 2026: se o Fed pode voltar a expandir seu balanço em um cenário de inflação ainda elevada e mercado de trabalho lateralizado. Caso isso ocorra, o dólar pode se enfraquecer ainda mais frente a outras moedas no próximo ano. Por ora, o sinal é de pausa na redução do balanço, o que tende a dar suporte aos ativos de risco globais no curto prazo”, avalia o especialista.

Marcos Moreira, sócio da Garten Capital, apontou que a decisão do Fed não representa uma grande mudança de direção na política monetária que já estava sendo adotada. “O que ficou claro nesta decisão foi o reforço do foco do Fed no mercado de trabalho, mais do que na inflação. Eles reconhecem que o mercado de trabalho tem mostrado sinais de menor dinamismo e que parte disso já reflete a redução no ritmo de imigração, algo que já estávamos monitorando de perto”, avalia.

Além disso, a postura de que ainda aguardam efeitos das medidas tarifárias reforça a visão de maior cautela e dependência de dados em relação às próximas decisões.

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Sobre isso, foi particularmente importante a fala de Jerome Powell, presidente do Fed, em coletiva pós-Fomc.

Powell apontou que autoridades do banco central dos Estados Unidos estão lutando para chegar a um consenso sobre o que está por vir para a política monetária e que os mercados financeiros não devem presumir que outro corte na taxa de juros ocorrerá no final do ano.

“Nas discussões do comitê nesta reunião, houve opiniões muito diferentes sobre como proceder em dezembro”, afirmou Powell na coletiva de imprensa após o encerramento da reunião de política monetária do Comitê Federal de Mercado Aberto, apontando que uma redução da taxa básica de juros na reunião de dezembro não pode ser colocada como certa. “Longe disso, a política monetária não está em uma trajetória predefinida”, disse ele.

Gustavo Cruz destaca que o discurso de Jerome Powell acabou desanimando um pouco os mercados – fazendo com que Wall Street perdesse força e que o dólar ganhasse ímpeto no Brasil. “Hoje, se a decisão fosse tomada, a tendência seria de manutenção da taxa. Powell destacou um Federal Reserve dividido: metade dos dirigentes acredita na necessidade de dois cortes até o fim do ano, enquanto a outra metade entende que não há espaço para isso”, aponta.

“Os comentários dissuadindo as expectativas de que mais um corte está garantido foram recebidos de forma negativa pelo mercado e alguns indicadores viraram para o vermelho após a entrevista”, aponta Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad.

Da mesma forma, a probabilidade de uma manutenção dos juros em dezembro implícitas nos contratos futuros aumentaram bastante.

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“Ainda acreditamos que um corte de 0,25 é o mais provável, mas temos que reconhecer que Powell fez tudo o que pode para dizer que nada está garantido. De um lado, ainda não está clara a magnitude do esfriamento no mercado de trabalho. De outro, não sabemos se os impactos do tarifaço vão eventualmente impactar a trajetória da inflação de forma mais contundente. E para completar tudo indica que as discordâncias entre os membros do Fomc adicionam uma camada de incerteza sobre as perspectivas para a continuidade da política monetária nos EUA”, aponta.

Essa surpresa negativa, porém, não deve gerar grandes distorções, ressalta Cruz, uma vez que o Fed também anunciou o fim da redução de seu balanço, o que na prática significa mais liquidez na economia. Powell reforçou que fatores como o shutdown (paralisação) do governo americano não influenciam diretamente a decisão sobre juros e que o comitê está focado em acompanhar indicadores de inflação e mercado de trabalho.

Ele também mencionou que a economia americana pode estar próxima da taxa neutra, aquela que nem estimula nem desacelera a atividade, o que justificaria uma pausa em dezembro e possíveis cortes apenas em janeiro.

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Sobre inflação, voltou a dizer que os impactos das tarifas comerciais ainda devem aparecer nos próximos meses, embora não devam alterar o cenário base do Fed.

Cruz também chama a atenção para o trecho em que Powell comentou sobre o papel da inteligência artificial na economia. O presidente do Fed destacou que o momento atual é bem diferente da bolha da internet, pois as empresas que investem em IA já têm receita e modelos de negócio consolidados. “Ele também disse que esse setor não deve ser diretamente afetado por variações marginais nas taxas de juros, o que reforça a força estrutural desse movimento tecnológico”, avalia.



Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.