Errar é humano (e robótico)

Robôs usados em operações de alta frequência erram e levam a perdas bilionárias, mas eles também podem evitar uma crise

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SÃO PAULO – “High-frequency trading”. É esse o nome dado às operações em que modelos matemáticos levam os robôs a decidirem, sem interferência humana e em milésimos de segundo, pelo melhor momento para fechar negócios em Bolsa. O que em princípio pode parecer o segredo do sucesso financeiro, no entanto, também tem seu lado ruim. Ao contrário do que muitos imaginam, errar não é privilégio dos humanos. Os robôs, quando erram, podem gerar perdas bilionárias.

Mesmo assim, há pessoas, como John Bates, que acreditam que eles podem ser a solução do mercado. Integrante da comissão de segurança da Bolsa de Valores de Londres e fundador da Progress Software, empresa que tenta identificar oportunidades e ameaças nos negócios de alta frequência, ele falou à Revista InfoMoney sobre o receio no uso dos robôs, o impacto sobre investidores individuais e as críticas de aumento da desigualdade no mercado.

Revista InfoMoney: A Progress trabalha com um enorme fluxo de informações no qual tenta localizar tendências e encontrar oportunidades. Mas como investidores individuais que não têm acesso a esses complexos algoritmos podem se beneficiar dessa situação?

JOHN BATES: Atualmente, os pequenos investidores precisam procurar um corretor especializado nos bastidores da compra e venda de ativos. No entanto, algo interessante para o investidor, e que está começando a ficar disponível ao público, é um modelo de “social trading”. Nele, qualquer negócio que você faz, ao invés de ser escondido, como no “high-frequency trading”, é compartilhado com todo o sistema. Você vê o que todos estão fazendo, como no Facebook. Embora esse sistema ainda não tenha muitos adeptos, talvez no futuro haja mais transparência e a gente possa ver o que todos estão fazendo.

Em um futuro próximo?

Eu realmente não sei. Os hedge funds certamente não gostariam muito disso. Eles querem manter a própria estratégia em segredo. Mas essa é uma possibilidade para tornar o mercado mais aberto.

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Enquanto isso não acontece, o receio quanto ao uso dos algoritmos continua. Você acredita que, em algum momento, a opinião pública passará a observá-los como defensores do mercado?

Acho que sim. Se olharmos os algoritmos usados pelos traders, eles são como Ferraris sendo dirigidas pela estrada. Até recentemente, os reguladores tentavam acompanhá-los com uma bicicleta, mas agora nós também demos a eles Ferraris.

Você diria que uma crise poderia ser evitada com o auxílio dos algoritmos?

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Acho que sim. Com o sistema correto, podemos identificar e obter um alerta prévio sobre o que está errado. Todos falam do “flash crash” de 2010 [erro de ordem que levou o índice Dow Jones à maior queda em pontos de sua história dentro de um mesmo pregão], mas há a todo tempo “miniflash-crashes”. Eu poderia citar uns 25 que aconteceram nos últimos dois anos. Nos EUA, também em 2010, a Infinium Capital teve um algoritmo que saiu errado e moveu o mercado de petróleo em muitos pontos percentuais. No Japão, o Deustche Bank teve algoritmos que saíram de controle e abalaram o índice Nikkei, assim como na Europa o Rabobank tinha um algoritmo no mercado de câmbio que saiu errado e também moveu a libra em vários pontos percentuais. Então, o tempo todo, temos algoritmos saindo errado, traders inconsequentes e manipulação do mercado. A boa notícia é que já podemos ver uma melhora no gerenciamento de risco. Imagine se nós cercarmos o algoritmo por um “firewall” e isolarmos aqueles que saíram errado. Imediatamente impediríamos uma minicrise. Não digo que podemos evitar todas as crises, mas certamente podemos mitigar o risco.

Você pode nos dar um exemplo de como um algoritmo afetou o mercado e outro conseguiu evitar uma crise maior?

No Reino Unido, um de nossos clientes, que é uma Bolsa, usa uma supervisão que identificou uma manipulação. O diretor de uma empresa estava manipulando o preço de uma ação para valorizá-la e vendeu muitas ações próprias com um preço inflado. Mas isso pôde ser detectado. Então foi reportado ao regulador, e a pessoa foi multada em cerca de 1 milhão de libras. Esse tipo de coisa acontece o tempo todo, é só questão de encontrar. Até recentemente, você nunca encontraria algo assim.

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Você concorda com a afirmação de que os robôs criam desigualdade no mercado?

Bem, sempre haverá desigualdade, sempre terá alguém mais efetivo que outros. O mais importante é todos terem acesso às mesmas capacidades, e acho que isso os reguladores têm tentando remediar. Até agora a análise é que não há nada injusto, só há investidores que tomam vantagem de algo que é legal. Mas há, realmente, muito pensamento sobre o que devemos fazer. A minha opinião é que o mais importante é policiar, ter um monitoramento em tempo real, deixar as pessoas com medo de fazer algo errado. No momento, é uma questão de reputação. As pessoas acham que quem usa o “high-frequency trading” tem uma vantagem injusta, mas elas têm mesmo? Ninguém ainda conseguiu responder definitivamente essa questão.

Essa matéria foi publicada na edição 40 da revista InfoMoney, referente ao bimestre setembro/outubro de 2012. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.