Publicidade
SÃO PAULO – O encarecimento dos alimentos – que no ano passado, no âmbito do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), ficou em mais de 10%, pela média – é um estimulador da inadimplência. Análise da LCA Consultores aponta que consumidores de baixa renda, que possuem maior proporção do orçamento comprometido com esse gasto, deixam de pagar outras dívidas quando os preços sobem acentuadamente.
“Comida é um bem de difícil compressão dos gastos. É possível mudar o mix de produtos, optar por um mais barato, mas não dá para comer menos. Dessa forma, quando existe uma valorização muito forte, existe uma dificuldade”, afirmou Fernando Pessoa, economista da empresa.
Peso e variação
Conforme o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), no que diz respeito à proporção, 35,71% do rendimento de famílias pertencentes ao estrato um – ganho médio de R$ 380 – são destinados à compra de alimentos. Para o estrato três, a faixa mais alta, a fatia fica em 23,8%. O estrato 2 (nível intermediário, composto por famílias com renda mensal de R$ 930), direcionam 31,19% da renda.
De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), responsável pelo levantamento do IPCA, no ano passado o item carnes ficou 22,15% mais caro. Em seguida veio o item leite e derivados, com alta de 19,79%. Os preços dos feijões chegaram a aumentar, em média, 109,20%.
Dívidas não pagas
Segundo dados do Banco Central, a inadimplência dos consumidores fechou 2007 em 13% das operações de crédito. Do total, 6% das movimentações registraram atraso médio entre 15 e 90 dias e as outras 7% apresentaram atraso superior a 90 dias. Em janeiro daquele mesmo ano, as proporções eram, na mesma ordem, 14,1%; 6,6% e 7,5%.
Apesar do cenário ter melhorado, é possível verificar que as dívidas não-pagas em crediários (aquisição de outros bens) e cheque especial tiveram aumento entre dezembro de 2006 e de 2007. Para a compra do carro houve queda.
Continua depois da publicidade
“Se o orçamento da pessoa estiver em cima da linha, ocorre uma contração de outros gastos, o que aumenta a inadimplência. A última despesa que será cortada será a comida”, resumiu Pessoa. De qualquer maneira, o financiamento do carro é algo também priorizado. “Se a pessoa deixa de pagar a parcela, a financeira toma o bem, o que não acontece com a compra de uma geladeira, por exemplo.”
Veja:
| 2006 | 2007 | |||||
| Operação | Até 90 dias | Mais de 90 dias | Total | Até 90 dias | Mais de 90 dias | Total |
| Cheque especial | 2,9% | 10,6% | 13,5% | 3,4% | 10,6% | 14% |
| Crédito pessoal | 4,5% | 6,2% | 10,7% | 4% | 5,3% | 9,3% |
| Aquisição de Veículos | 6,8% | 3,3% | 10,1% | 6,7% | 3% | 9,7% |
| Aquisição de bens (outros) | 7,9% | 11,2% | 19,1% | 8,6% | 12,4% | 21% |
Fonte: Banco Central
Continua depois da publicidade
Estabilização
A LCA prevê que o encarecimento dos alimentos ficará, neste ano, em linha com o aumento do salário médio dos brasileiros, algo em torno de 6%. Dessa forma, não haverá uma perda no poder de compra. “E as pessoas devem adequar seu orçamento aos novos preços”, concluiu o economista da empresa.
A coordenadora do ICV (Índice de Custo de Vida), Cornélia Nogueira Porto, também acredita que a escalada de preços não vai se manter nos próximos meses. “Em janeiro a alta foi mais forte, mas muito por causa da sazonalidade, período de chuvas etc”, explicou.