“Desenrola Adimplentes”: qual o impacto para os bancos brasileiros?

UBS BB vê menor rentabilidade para as instituições financeiras, enquanto JPMorgan alerta para pressão sobre receitas

Lara Rizério

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A nova rodada de medidas anunciadas pelo governo para ampliar o acesso ao crédito no país deve aumentar a concorrência entre os bancos e reduzir os retornos do crédito consignado privado, na avaliação de analistas do UBS BB e do JPMorgan.

Na segunda-feira (29), o governo anunciou mudanças no consignado para trabalhadores do setor privado, permitindo o uso do saldo do FGTS e de verbas rescisórias como garantia das operações. Os empréstimos contratados com essas garantias terão teto de juros de 1,99% ao mês. Além disso, foi lançado o programa “Desenrola Adimplentes”, voltado a pessoas com empréstimos em dia ou com atraso de até 90 dias, com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO).

Para o UBS BB, o novo consignado privado cria um produto de risco substancialmente menor, mas também com retorno significativamente reduzido para as instituições financeiras.

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Segundo os analistas Thiago Batista e Beatriz Shinye, a rentabilidade do novo produto deve ficar próxima de 18%, contra cerca de 40% observados no modelo anterior. A estimativa considera juros limitados a 1,99% ao mês e inadimplência em torno de 2%, ante taxas de 3,8% ao mês e perdas de aproximadamente 15% no formato anterior.

Apesar da redução da rentabilidade, o UBS BB avalia que a nova estrutura melhora significativamente a qualidade das garantias e tende a reduzir as perdas de crédito ao longo do tempo.

Os analistas também destacam que a plataforma da Carteira de Trabalho Digital (CTPS) pode aumentar a concorrência entre os bancos ao permitir que os clientes comparem ofertas de diferentes instituições em um único ambiente. Segundo o UBS BB, isso pode pressionar ainda mais os spreads do segmento.

“Acreditamos que essas mudanças devem ser relativamente positivas para o Nu (BDR: ROXO34) e para a maioria dos bancos incumbentes, que adotaram uma estratégia mais conservadora que outros entrantes”, afirmaram os analistas.

Já o JPMorgan adotou uma visão mais cautelosa. Em relatório divulgado após o anúncio das medidas, os analistas liderados por Yuri Fernandes classificaram o pacote como uma “primeira leitura negativa” para os bancos brasileiros.

A principal preocupação está justamente no teto de juros de 1,99% ao mês para operações com garantia ampliada do FGTS. Segundo o banco, os empréstimos consignados privados atualmente operam com taxas próximas de 5% ao mês, enquanto outras linhas de crédito pessoal destinadas ao público-alvo do programa chegam a cobrar entre 6% e 8% mensais.

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Na avaliação do JPMorgan, embora as garantias adicionais reduzam o risco das operações, a limitação das taxas tende a pressionar a receita financeira das instituições. O banco também questiona a lógica de conceder níveis diferentes de garantia dependendo do canal de contratação, uma vez que operações originadas pela CTPS Digital poderão contar com cobertura de até 100% do saldo devedor, enquanto empréstimos oferecidos diretamente pelos bancos terão cobertura menor.

O JPMorgan ressalta ainda que a adesão ao novo modelo será opcional para os bancos e que a combinação de garantias reforçadas com juros limitados pode fazer sentido apenas para clientes de menor risco.

Além do consignado privado, o banco chamou atenção para o lançamento do programa Desenrola Adimplentes, voltado a trabalhadores informais com empréstimos de até R$ 15 mil. O programa prevê renegociação de dívidas com juros limitados a 1,99% ao mês e garantia do FGO cobrindo até 50% das primeiras perdas da carteira.

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Para o JPMorgan, a sucessão de programas de renegociação lançados nos últimos meses — envolvendo pessoas físicas inadimplentes, pequenas empresas, estudantes, produtores rurais e agora também clientes adimplentes — levanta preocupações sobre possíveis efeitos de risco moral no mercado de crédito.

Embora reconheça desafios enfrentados pelas famílias brasileiras, como elevado endividamento e aumento da inadimplência, o banco afirma não estar convencido de que a criação de novos programas de refinanciamento seja a melhor forma de lidar com os problemas estruturais do crédito no país.

Em comum, UBS BB e JPMorgan concordam que o novo consignado privado deve reduzir o custo do crédito para trabalhadores formais e aumentar a competição entre instituições financeiras. A divergência está principalmente na percepção sobre os efeitos para os bancos: enquanto o UBS BB vê ganhos decorrentes da melhora das garantias e acredita que os grandes incumbentes podem sair fortalecidos, o JPMorgan enfatiza o potencial impacto negativo sobre margens e receitas do setor.

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.