Dos US$ 240 ao US$ 130 a tonelada

Da disparada à forte queda: o que esperar para as ações de Vale, CSN Mineração e siderúrgicas com o “novo cenário” para o minério?

Papéis estão sob pressão em meio ao cenário de queda do minério, ainda que esperado, surpreender pela velocidade; contudo, analistas veem opções atrativas

SÃO PAULO – Contratos futuros negociados em Dalian com queda de mais de 7%, os de Singapura com baixa de mais de 12%, derrocada de 13,5% no porto de Qingdao.

Por onde quer que se olhe, o dia é de forte queda para o minério de ferro que, à vista, chegou ao menor patamar desde 1 de dezembro, a US$ 132,66 a tonelada, após chegar a beirar os US$ 240 em maio. Ou seja, mais que uma queda pontual, essa é uma tendência observada no mercado, com os preços acumulando baixa de mais de 40% em relação ao recorde alcançado há apenas três meses.

A queda já vinha ocorrendo uma vez que a China tem pressionado siderúrgicas a limitarem a produção para reduzir a poluição, e o menor volume produzido em julho sinaliza que as medidas começam a fazer efeito. Alguns grandes produtores já tomaram providências para reduzir a oferta, enquanto a gigante de mineração BHP disse esta semana que a crescente probabilidade de cortes severos da produção no segundo semestre “testa a resolução altista dos mercados de futuros”.

O cenário de queda foi agravado pela percepção maior de risco com a variante delta do coronavírus, que se espalha rapidamente e com dados mais fracos nos EUA e na China, que recentemente reforçaram a percepção de que a recuperação econômica global está perdendo força.

Somou-se a isso ainda a expectativa de que o Federal Reserve possa em breve começar a reduzir o enorme estímulo que ajudou a elevar os preços no último ano (ainda que os dados mais fracos de atividade possam levar o Fed a adiar esse anúncio).

Por mais que essa baixa fosse já bastante esperada e até em certa parte precificada pelos investidores – em análises anteriores, a expectativa de queda para o minério já era destacada -, o impacto é invariavelmente sentido nas ações dos setores de mineração e siderurgia. Pela primeira vez desde abril, a Vale (VALE3) fechou abaixo dos R$ 100 na B3, com queda de 5,71%, a R$ 97,51, um valor quase 17% abaixo da máxima de fechamento da Vale, registrada em 28 de julho, quando os ativos fecharam a R$ 117,30.

O papel da CSN Mineração (CMIN3), por sua vez, fechou com perdas menos expressivas, de 0,28%, a R$ 6,99, após cair até 4,42%, mas ainda acumulando perdas de 18,26% apenas em agosto.

Nesta sessão, os papéis de siderúrgicas também caíram forte, com CSN (CSNA3) em baixa de 5,78% e acumulando perdas de 16% no mês, Usiminas (USIM5) também com desvalorização de 5,69% na sessão e de cerca de 17% em agosto. Já Gerdau (GGBR4) teve perdeu 3,52% na sessão e acumula baixa de 8,5% no mês. Ainda assim, os papéis dessas companhias registram ganhos acumulados entre 17% e 24% em 2021, ainda na esteira de resultados recordes no auge dos preços das commodities, mas com muitas dúvidas no radar sobre o que esperar daqui para frente.

Para o Morgan Stanley, embora os analistas já esperassem que a dinâmica de oferta e com a demanda desacelerando levassem a um declínio de preço para uma média de US$ 118 a tonelada em 2022, eles ficaram surpresos com a velocidade com que essa “normalização” de preço está ocorrendo. E, para os analistas do banco, dada a demanda mais fraca por aço da China, ainda é possível ver mais quedas potenciais a partir desse ponto.

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Grande parte do foco do mercado tem sido sobre as restrições à produção de aço da China – com cerca de 27 milhões de toneladas de cortes de produção anunciados para o segundo semestre-, mas o Morgan acredita que a desaceleração da demanda de uso final de aço na China também está desempenhando um papel significativo.

“A correção de 5% no preço do vergalhão da China desde o início de agosto pode apontar para um ambiente de redução da demanda. Na verdade, os dados de produção industrial da China para julho, divulgados no início desta semana, destacam uma desaceleração significativa nos principais setores de uso final do aço da China, principalmente nos setores de construção e infraestrutura”, apontam.

A atual tendência de baixa pode levar a medidas de estímulo, mas o Morgan acredita que pode levar seis meses antes que se traduza em demanda real de aço. Enquanto isso, a ‘redefinição regulatória’ no setor imobiliário da China torna improvável uma recuperação rápida da demanda, segundo o Morgan. “Embora a demanda de aço da China possa se recuperar com a melhora sazonal da atividade de construção em setembro, uma melhora rápida seria necessária para compensar a atual fraqueza do mercado”, aponta.

Nesse contexto, e também levando em conta um aumento da oferta sazonal de minério, os analistas apontam que ainda podem ver pressão de baixa no preço atual e risco de queda significativo na projeção que possuem para o quarto trimestre (do minério a US$ 160 a tonelada).

Por outro lado, os analistas do Bradesco BBI destacaram que o movimento do minério de ferro nesta quinta foi de uma queda exagerada, levando em conta que a produção de aço chinesa não deve entrar em colapso no segundo semestre, os níveis de estoque não estão “inchados” e as margens das siderúrgicas chinesas permanecem em bases positivas.

Para o BBI, o mercado de minério de ferro não estará mais tão apertado em 2022, mas os preços ainda estarão acima dos níveis normais. Eles ainda elevaram as projeções: “Esperamos que os preços do minério de ferro fiquem em média US$ 170 a tonelada em 2021 e US$ 120 a tonelada em 2022, ante previsão anterior respectiva de US$ 150 a tonelada e US$ 110 a tonelada.”, apontam.

A casa acredita que haverá um aumento na demanda global de minério de ferro, a 7,5% em 2021 e em mais 1% em 2022, chegando a 2 bilhões de toneladas. Por outro lado, haverá um crescimento “limitado” da oferta de minério de ferro (de 90 milhões de toneladas em 2021 e de 60 milhões em 2022, principalmente da Vale, que está crescendo gradualmente), o que deve sustentar o mercado de minério de ferro.

Os analistas avaliam que as margens das siderúrgicas devem permanecer sustentadas em níveis saudáveis ​​e acima da média em 2022 e por outros anos, devido a: (i) restrições de produção na China para conter as emissões, que no fim do dia limitam a capacidade de produção disponível do país e  (ii) menores exportações da China, apoiando siderúrgicas fora do país; os analistas esperam que a China exporte entre 15-20 milhões de toneladas a menos de aço em 2022, após exportar 70 milhões de toneladas em 2021 e (iii) nenhuma mudança muito significativa sobre a demanda de aço (embora o crescimento seja a taxas mais baixas em relação aos dias atuais).

Mineradoras e siderúrgicas: depois das fortes quedas…

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Com esse cenário, o que esperar para as ações das mineradoras e siderúrgicas negociadas na B3?

O Morgan, em seu caso-base para o ano que vem, ainda está levando em conta preços projetados abaixo dos valores atuais da commodity. Contudo, os analistas avaliam que a queda dos preços pode aumentar o foco sobre os riscos de ganhos das mineradoras. Nas Américas, Vale e CSN Mineração aparecem com as maiores proporções de seu portfólio atreladas à dinâmica de preços do minério, podendo ser afetadas.

O Bradesco BBI, por sua vez, reforça que as ações das companhias de mineração e siderurgia na B3 estão refletindo um cenário excessivamente pessimista.

“Os nomes do minério de ferro refletem os preços da commodity entre US$ 50 e US$ 60 a tonelada para sempre”, aponta em relatório Thiago Lofiego, analista do Bradesco BBI, o que seria um valor entre 55% e 62% menor frente o patamar atual. As siderúrgicas, aponta, refletem uma correção entre 50% e 55% nos preços domésticos.

O analista ressalta que os preços dos metais estão sendo negociados naturalmente com base no backwardation (relação entre os preços atuais versus os preços do mercado futuro), com os investidores constantemente esperando uma correção, que se materializou parcialmente nos últimos meses.

“Mas, no final do dia, o que realmente importa é em que patamar os metais realmente são negociados contra as expectativas e, em última análise, o que esse FCF (fluxo de caixa livre) em excesso significa para os preços das ações”, aponta. Assim, reforça, os preços atuais dos papéis estão sendo negociados precificando um cenário muito mais negativo.

Os analistas veem Usiminas, Vale e CSN Mineração sendo as melhores opções no setor, todas negociando a múltiplos muito atraentes e, no caso da Vale e CMIN, oferecendo atrativos dividendos de 15% e 19% para 2022.

Sobre Vale, o BBI ressalta que o minério de ferro agora está sendo negociado mais perto dos fundamentos de oferta e demanda, o que implica que os investidores podem ficar mais confortáveis ​​com a compra de ações após a recente queda nos preços. Os analistas ainda elevaram o preço-alvo do ADR da companhia de US$ 25 para US$ 26, um potencial de alta de 33% em relação ao último fechamento, enquanto possuem um preço-alvo de R$ 133 para VALE3, ou alta de 28%.

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Para CSN Mineração, o preço-alvo é de R$ 14, alta de 94% em relação ao fechamento de quarta.

Já sobre CSN, o BBI retomou a cobertura com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 67 por ação, ou um potencial de alta de 72% em relação ao último fechamento.

Usiminas, assim como a Vale, teve o preço-alvo elevado, passando de R$ 32 para R$ 34, ou um potencial de alta de 85%.

O analista aponta que, embora acredite que os volumes de aço e os preços atingiram o pico no Brasil, por enquanto, o ambiente operacional segue muito saudável para a companhia. Isso porque a produção de automóveis (a Usiminas produz aço plano, utilizado para esses fins) tende a melhorar nos próximos trimestres, também suportada pela reposição de estoque, uma vez que os estoques de automóveis estão historicamente baixos. Além disso, o maquinário e a demanda de bens de capital devem continuar a crescer à medida que o Brasil sai da pandemia e os preços e margens globais do aço devem permanecer em níveis elevados.

A Gerdau também tem recomendação de compra pelo BBI, com preço-alvo sendo elevado de R$ 45 para R$ 46 para GGBR4, um potencial de alta de 61%. “Acreditamos que a dinâmica dos ganhos deve permanecer forte nos próximos trimestres, uma vez que a Gerdau desfruta de uma combinação de sólida demanda de uso final e preços saudáveis ​​nas principais divisões. No Brasil, apesar dos preços domésticos de aço mais fracos em 2022, volumes saudáveis ​​e menores pressões de custos devem implicar em margens ainda muito saudáveis ​​(perto de 30%)”, avaliam.

Um risco para o mercado de aços longos (mais utilizado na construção civil) pode ser o ritmo de aumento de novas capacidades que estão sendo adicionadas ao mercado. Já nos EUA, um spread de metal maior do que a média ainda deve ser a norma em 2022, já que a atividade de construção permanece sólida, avaliam.

Enquanto o BBI está mais otimista, o Itaú BBA fez ponderações sobre o setor antes mesmo da forte derrocada das ações do setor nesta quinta-feira.

Os analistas do banco reduziram a recomendação para as ações de CSN e Usiminas de outperform para market perform,  (perspectiva de valorização dentro da média do mercado), destacando que as perspectivas de valorização da CSN e da Usiminas não representam proposições atraentes de risco e recompensa. O preço-alvo para CSN passou de R$ 61 para R$ 48 e para Usiminas passou de R$ 28 para R$ 24.

Já a Gerdau é a favorita dos analistas no setor, sendo uma empresa mais focada em aço, sem exposição a mineração. “Gostamos mais da dinâmica para aço do que para minério no curto prazo”, apontam. O preço-alvo para o ativo GGBR4 é de R$ 40.

Eles reforçam a avaliação de que, apesar da média estimada por eles para o minério de ferro em 2021 ter subido levemente de US$ 150 a tonelada para US$ 170 a tonelada, veem um cenário desafiador para a commodity, destacando os dados recentes indicando queda na produção de aço na China.

Sobre a Vale, os analistas do BBA seguem com recomendação equivalente à compra para os ativos da companhia, mas reduziram o preço-alvo de US$ 26 para US$ 25 (em um movimento contrário ao do BBI). “Ainda acreditamos que a Vale apresenta uma boa proposta de valor, com a geração de caixa apresentando um retorno de 21% em 2021 e potencialmente levando a uma distribuição de dividendos extraordinária de aproximadamente US$ 5 bilhões durante a segunda metade de 2021 – o equivalente a um total de mais de US$ 18 bilhões retornando aos acionistas por meio de dividendos ou recompras”, apontam.

(com informações da Bloomberg)

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