Publicidade
SÃO PAULO – A semana parecia fadada a terminar em tom positivo. Ao longo dos últimos dias, indicadores nos Estados Unidos continuaram a corroborar a recuperação da economia e mostraram evolução também no mercado de trabalho, com criação de vagas surpreendente no setor privado, de acordo com o ADP, e recuo dos pedidos de auxílio desemprego.
O Relatório de Emprego, nesta sexta-feira (4), não decepcionou. Com criação de 192 mil vagas, número mais forte desde abril de 2009, e queda da taxa de desemprego para abaixo de 9%, o mercado de trabalho enfim deu sinais de recuperação. No entanto, confirmada a expectativa, os investidores voltaram a observar a situação na Líbia com mais atenção, e o petróleo disparou novamente.
Com isso, as principais bolsas encerraram em queda nesta sexta e apagaram em parte os ganhos obtidos ao longo da semana, encerrando o período com leves altas. Já o Ibovespa acumulou valorização de 1,66% nos últimos sete dias, recuperando os 68 mil pontos. Na próxima semana, no entanto, a agenda econômica, que ganhou relevância em alguns dos últimos pregões e ajudou a segurar os mercados, será bastante morna. “A ausência de indicadores gera atenção para outros eventos que estão ocorrendo no mundo”, e por isso a volatilidade pode ser ainda mais exacerbada, acredita Jason Vieira, analista da Apregoa.
Ajuste pós-Carnaval
“O conflito no Oriente Médio e no norte da África continua a dominar as mentes dos investidores dos mercados emergentes”, apontou o Barclays. Para Jason Vieira, como este é um fator difícil de prever, é complicado indicar o tamanho da correção que ocorrerá na quarta-feira, quando a BM&F Bovespa voltar a operar, após o feriado de Carnaval.
Com o atual clima de instabilidade, o movimento de ajuste pode ser mais extremo do que o normal, afirma Vieira. Para Jorge Dib, gestor de recursos da Grau, o comportamento do Ibovespa deverá acompanhar, nos três dias em que estará aberto na próxima semana, o desempenho dos mercados europeus e norte-americanos no início da semana.
Por lá, os investidores continuarão atentos à Líbia. De acordo com os últimos relatos, forças lideradas pelo governo de Muammar Gaddafi teriam aumentado a força de seu contra-ataque, encenando batalhas para tomar o controle da cidade de Zawiya.
Continua depois da publicidade
Cerca de 13 pessoas teriam morrido, segundo o The New York Times. De acordo com testemunhas, conflitos também teriam ocorrido em Ras Lanuf, uma importante cidade petrolífera, e existem relatos ainda não confirmados de um incêndio em uma refinaria em Zewietina. Com isso, a cotação do petróleo voltou a disparar no mercado internacional, atingindo mais de US$ 104 por barril.
Orçamento nos EUA e política fiscal na Europa
Além dos possíveis desdobramento por lá, que “são meras suposições”, indica Vieira, Wall Street continuará com um olho em como o governo resolverá o impasse criado em torno do Orçamento para 2011, afirmou Jorge Dib. Até agora, o documento para este ano não foi aprovado, e um mandato extraordinário foi emitido para impedir um congelamento das atividades governamentais. De outro modo, sem Orçamento, muitos órgãos teriam parado nesta sexta. O novo prazo expira dia 19 de março, e é necessário que democratas e republicanos consigam, de alguma forma, chegar a uma decisão conjunta para aprovar a peça até então.
Na Europa, é a crise fiscal que continua no radar. Até o fim de março, espera-se que a Europa decida as características básicas do ESM (Mecanismo Europeu de Estabilidade). Segundo a Fitch, que nesta semana manteve os ratings da Grécia e de Portugal com perspectiva negativa, o ESM poderia condicionar empréstimos soberanos à reestruturação das dívidas. Além disso, o Mecanismo deve ser o credor preferencial dos países que recebem empréstimos, subordinando assim outros detentores de títulos. Se confirmadas essas duas perspectivas, é provável que as notas dos dois países sejam rebaixadas, mas não mais do que em dois níveis, afirmou a agência de classificação de risco.
Continua depois da publicidade
Lacônico também na ata
No cenário nacional, sem resultados de empresas previstos, o evento mais importante na agenda será a ata do Copom (Comitê de Política Monetária), que elevou no último encontro a Selic em 50 pontos-base, com um comentário lacônico. Para Jorge Dib, da Grau, o documento também não deve esclarecer muito a situação.
Vieira é da mesma opinião. O analista acredita que o Banco Central não deve sinalizar algo mais concreto para o futuro, mas apenas utilizar a ata para explicar os fundamentos que nortearam a decisão da semana passada. O Barclays espera mais uma alta dos juros na reunião de abril, acompanhada por novas medidas macroprudenciais, de modo a apertar a política monetária.