Com dólar elevado, empresas correm para proteção cambial nos balanços; entenda

Movimentações ainda se deram em momento que formar posições de hedge está mais caro, devido a alta dos juros

Vitor Azevedo

Notas de dólar
17/07/2022
REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração
Notas de dólar 17/07/2022 REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração

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As recentes incertezas no cenário brasileiro, com a alta do dólar e o avanço dos juros futuros, levaram as empresas a aumentar suas posições de hedge, que são as coberturas financeiras contratadas para proteção das dívidas, em moeda estrangeira, sobretudo a norte-americana.

E essa movimentação acontece mesmo com o preço de contratação financeira do hedge com custos mais elevados. Por trás disso, estão os ruídos políticos, que geraram estresse no mercado, especialmente as falas do presidente Lula com ataques ao Banco Central ou sinalizações de menor responsabilidade fiscal.

Na semana passada, porém, os ruídos diminuíram. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que Lula determinou o cumprimento do arcabouço fiscal e autorizou corte de despesas de R$ 26 bilhões. Enquanto isso, a expectativa é de que a indicação de Gabriel Galípolo para presidência do BC – outro fator de estresse – já ocorra em agosto.

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Mesmo assim, com esses recentes movimentos, que já trouxeram um alívio no dólar, que após testar os R$ 5,70, agora está cotado a R$ 5,44, os estragos foram feitos, principalmente por conta do fechamento dos balanços financeiros das empresas, do 2º trimestre, no final de junho.

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Dólar alto e proteção cambial

Diante do fechamento das contas do balanço, segundo especialistas, muitas empresas procuraram por instituições financeiras para montar posições – tentando travar o dólar em patamar menor –, para minimizar o impacto das oscilações do câmbio nos balanços, o que traz efeitos negativos nos custos financeiros.

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A formação de posições de hedge são difíceis de monitorar, já que algumas delas são realizadas dentro de instituições financeiras, não no “mercado aberto”. João Ascoli, trader e colaborador da Investfy, explica, no entanto, que os mercados de opções e de futuros ajudam a ilustrar a demanda. 

Fonte; Investify

“É impossível falar quem está comprando, mas esse fluxo acaba aparecendo nas opções, no volume de negociação e no spread (diferença entre preços) do ‘casado’. Conforme esse gráfico [acima], podemos ver que as operações foram crescendo nos strikes maiores”, fala Ascoli.

O strike, ou preço de exercício, é o valor pelo qual o ativo subjacente será comprado ou vendido se a opção for exercida. A escolha do strike é crucial, pois deve refletir suas expectativas sobre o movimento futuro dos preços.

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No mercado de câmbio, as operações de hedge tendem a se concentrar em strikes maiores à medida que o tempo passa e as taxas de câmbio se consolidam em novos níveis. Isso acontece porque, nesses patamares, já existem operações abertas. Quem vendeu, então, precisa realizar o hedge utilizando contratos futuros, ajustando-os conforme necessário.

Tudo isso gera uma maior demanda por esses strikes durante períodos de rolagem, como observado no período de maio a junho, refletindo uma adaptação às novas condições do mercado.

“Você consegue sentir o direcional do mercado. A gente usa essa expressão de que “sumiu a contraparte”. Todo mundo sabe que um dólar mais alto acaba gerando essa demanda da ‘economia real’ para as empresas”, acrescenta. 

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Segundo dados da B3, as negociações de futuros de moedas em maio chegaram a 683 mil negócios, com 6,7 milhões de contratados negociados. Em março, para fins de comparação, foram 601 mil negócios e 6,59 milhões de contratos. E apesar de os números de junho ainda não estarem disponíveis, especialistas esperam que eles aumentem novamente. 

Empresas buscam proteção

“As empresas, assim como o mercado, procuram se antecipar e proteger seus balanços através do hedge. Só que, ao contrário do serviço financeiro, as companhias têm o seu dia a dia a cumprir. Elas não são tão ágeis”, fala Thiago Avallone, especialista em câmbio da Manchester Investimentos. 

Segundo Avallone, é normal, porém, que as companhias demorem mais do que instituições financeiras para realizar suas operações de “antecipação”. Diferentemente dos bancos e gestoras, que realizam essas movimentações diariamente, as empresas, não raro, aguardam mais, achando que uma queda — nesse caso, do dólar — pode sair. 

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Um exportador pode decidir não vender todo o seu lote de dólares imediatamente se ele antecipa que o dólar vai continuar subindo. Já um importador em uma situação de estresse, que precisa enviar uma grande quantidade de dólares em uma semana, poderia se encontrar em um ciclo vicioso de ter que realizar operações em um mercado adverso.

Empresas realizam hedge, então, para para mitigar riscos financeiros decorrentes de variações em preços de commodities, taxas de câmbio e juros, visando estabilizar custos e receitas para melhor planejamento e competitividade no mercado. 

Operações mais caras

As recentes operações ainda se deram em um momento em que elas custaram mais para as companhias. A alta do juros, que acompanhou a do dólar, acabou também encarecendo as operações de hedge. 

O câmbio futuro é calculado multiplicando o câmbio à vista pelo diferencial de juros entre dois países. Se os juros internos estão altos e os rendimentos dos títulos apertados, isso amplia o diferencial, influenciando o preço no mercado futuro, que é o mais acessível para essas negociações. Assim, aumentos nesse diferencial elevam o custo de proteção cambial. 

“Outro fator importante para a gente trabalhar esse custo de hedge é o seguinte: Digamos que eu sou um importador e na semana passada eu queria comprar uma proteção para um mês. O banco vai me vender. Só que o banco para me vender está assumindo um risco, mas ele precisa precificar esse risco. E a forma dele precificar esse risco é abrindo o spread”, acrescenta Ascoli.

Para ele, a verdade é que parte das proteções foram feitas no “calor do momento”. “O hedge, para ele ser bem feito, é igual a comprar guarda-chuva. Você tem que comprar guarda-chuva em dia de sol”, explica.

Charles Laganá Putz, membro do Conselho de Administração do IBEF-SP (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo), vai na mesma toada, dizendo que “é comum que algumas empresas se descuidem e só percebam a necessidade de proteção quando ocorrem grandes variações”, como as recentes.

“As empresas deveriam manter posições de hedge cambial de forma contínua, alinhadas às suas necessidades naturais de moeda, e não apenas reagir quando o mercado está estressado. CFOs experientes, que já enfrentaram turbulências anteriores, normalmente fazem hedge no momento em que seus compromissos em outra moeda são estabelecidos, seja como credores ou devedores”, conta.