China pesa e Vale (VALE3) é rebaixada para neutra pelo Itaú BBA: cautela do mercado aumenta para ação

Últimos dados da economia chinesa guiam visão mais pessimista para preço do minério de ferro; analista da Ohm projeta volatilidade para papéis

Lara Rizério

Com novos dados da China mostrando um cenário ainda mais desafiador para a economia do gigante asiático e revisões de estimativas após a temporada de resultados, a cautela de analistas de mercado para as mineradoras – em especial a Vale (VALE3) na Bolsa brasileira – tem aumentado.

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Nesta quarta-feira (17), foi a vez do Itaú BBA reduzir a recomendação para o American Depositary Receipt (ADR, na sigla em inglês, na prática, os ativos negociados na Bolsa americana) da mineradora brasileira de outperform (desempenho acima da média do mercado, equivalente à compra) para marketperform (desempenho em linha com a média do mercado, equivalente à neutra).

O preço-alvo também foi reduzido, de US$ 20 ao fim de 2022 para US$ 15 ao fim de 2023, ainda representa um potencial de valorização de 10% em relação ao preço de fechamento da véspera. Nesta quarta, às 13h15 (horário de Brasília), os ativos VALE3 caíam 2,54%, a R$ 68,17; desde as máximas registradas no fechamento de 7 de março, a R$ 96,49, os papéis já caíram cerca de 30%.

Os analistas do banco incorporaram na revisão os menores preços para o minério de ferro, volume mais baixo de produção, menor potencial de recompra de ações e os novos custos de capital.

“Estimamos que a média do preço do minério de ferro deve cair para US$ 115 por tonelada em 2022 (ante estimativa de US$ 125) e para US$ 90 por tonelada em 2023 (de US$ 95 projetado anteriormente)”, aponta o BBA. Essa queda é justificada, principalmente, pelo momento mais fraco na economia da China – a equipe de macroeconomia da instituição reduziu o crescimento de PIB chinês de 4,2% para 3,2% em 2022. Isso principalmente diante do desaquecimento no setor imobiliário e da menor expectativa de produção de aço no país.

“Além disso, também acreditamos que a Vale irá entregar menores volumes de produção devido às revisões feitas para baixo pela companhia, tanto em minério de ferro quanto em metais básicos”, apontam os analistas.

Assim, o BBA cortou as suas estimativas de embarques de minério de ferro de 325 milhões de toneladas por ano (mtpa) para 310 mtpa, de níquel de 340 mil quilos toneladas ao ano (ktpa) para 275 ktpa, e de cobre de 182 ktpa para 177 ktpa em 2022.

“Neste contexto, ressaltamos que o custo caixa entregue na China atingiu altas históricas devido ao maior custo de extração de minério de ferro e aos maiores custos com frete marítimo”, aponta.

Os analistas do BBA destacaram ainda entender que a Vale possui menor capacidade de recomprar ações no futuro devido à menor expectativa de geração de caixa, maior limitação diante do nível de endividamento da companhia e o alto nível de recompra de ações (em torno de US$ 10,5 bilhões) já feito nos últimos meses. Assim, estimam que a Vale poderá recomprar cerca de US$ 3,5 bilhões em ações nos próximos meses. Desta forma, projetam um retorno menor aos acionistas.

Saiba mais sobre a tese do Itaú BBA para a Vale assistindo ao vídeo abaixo:

Cabe destacar que, nesta semana, uma série de dados divulgada pela China impactou o mercado de commodities e elevou o pessimismo com o crescimento do gigante asiático. Em destaque, o setor imobiliário, que sofreu com um boicote hipotecário que pesou sobre o sentimento do comprador, deteriorou-se em julho. O investimento imobiliário caiu 12,3% no mês passado, a taxa mais rápida deste ano, enquanto a queda nas novas vendas se intensificou para 28,9%. O setor demanda bastante aço, que usa como insumo o minério de ferro.

Nesta quarta-feira, o contrato de minério de ferro mais negociado para janeiro de 2023 na Dalian Commodity Exchange caiu 4,4%, para 683,50 iuanes (US$ 100,87) a tonelada, o menor nível desde 28 de julho. Além do cenário mais nebuloso para a China, fatores pontuais, como uma onda de calor que atinge várias regiões do país desde meados de julho, tem causado escassez de energia, forçando as autoridades a racionar eletricidade, levando a fechamento de siderúrgicas.

O aumento da oferta de minério de ferro na China também pesou sobre os preços. Os estoques de minério de ferro importado nos portos chineses tiveram aumento constante nas últimas sete semanas, atingindo 138,6 milhões de toneladas em 12 de agosto, o maior patamar desde meados de maio, segundo dados da consultoria Mysteel.

Em entrevista ao programa Global Pickers, do Stock Pickers, Gilberto Cardoso, analista de commodities da Ohmresearch, destacou que a China deve registrar uma queda da produção de aço entre 6 e 7% neste ano, o que representa um volume muito grande, ainda mais levando em conta o fato de ser a maior produtora mundial.

O país deve seguir com a sua estratégia de desalavancar a construção civil – que responde por cerca de 40% da demanda por aço – , enquanto a infraestrutura – que conta com 10% da demanda – deve ser estimulada, compensando parcialmente uma fraqueza maior no segmento imobiliário.

Já pelo lado da oferta, o analista projeta revisão para baixo nas estimativas de produção (guidance) das mineradoras em meio a um cenário de demanda mais reprimida. “Elas vão avaliar muito bem, principalmente com os preços girando entre US$ 90 e US$ 100 a tonelada e o foco maior do custo de siderúrgicas, com a tese de ‘minério de boa qualidade’ já não encantando mais tanto”.

Olhando para as empresas, no cenário atual, Cardoso aponta que faz sentido, para quem está comprado em Vale, manter a posição. “Para quem já está comprado, o papel vai recuperar, além de ser uma empresa fantástica na execução, ela também paga dividendo”, avalia.

Contudo, não recomenda aumento de exposição e projeta volatilidade para os papéis, em meio ao noticiário ainda bastante pesado para o setor. Para o analista, o piso do minério deve ficar entre US$ 80 e US$ 90 a tonelada, ainda longe das mínimas de US$ 45 atingidas em 2012. Contudo, o pico não deve passar dos US$ 120 a tonelada, muito abaixo da cotação acima de US$ 200 registrada em meados do ano passado.

“A Vale está negociando a uma relação entre 70% e 80% do preço do minério em Dalian no mercado futuro, então [o investidor] vai ter que ter coração”, aponta o analista.

Em relatório recente, o Bradesco BBI havia destacado que deve haver um caminho para a recuperação da demanda, mas que ele não deve ser linear, apontando a Gerdau (GGBR4) como preferida entre as mineradoras e siderúrgicas. A cautela para os ativos da mineradora tem aumentado em meio ao cenário mais difícil para China, com revisões de preços-alvo e recomendações aumentando desde julho deste ano.

O Bank of America, após a divulgação dos resultados da Vale, no fim de julho, reiterou recomendação neutra para os ativos da Vale. O preço-alvo para o ADR é de US$ 18.

“Os lucros da Vale são quase inteiramente impulsionados pelo preço do minério de ferro e nossa recomendação reflete a visão mais cautelosa do setor de minério de ferro do BofA, principalmente porque a produção de aço chinesa foi reduzida à medida que a redução de emissões é priorizada. A China também está implementando políticas para priorizar o crescimento de setores fora dos setores imobiliários e infraestrutura intensivos em aço (e minério de ferro)”, apontaram os analistas na avaliação.

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.