Caso Americanas (AMER3): vale a pena investir em ações de companhias em recuperação judicial?

Papel da varejista vem chamando atenção por conta das fortes oscilações, às vezes positivas, mas analistas destacam riscos

Vitor Azevedo

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O caso da Americanas (AMER3) trouxe algum destaque para as empresas que já entraram – ou estão – em recuperação judicial (RJ). Com as ações da companhia registrando forte queda na B3, e posteriormente trazendo fortes valorizações, diversos investidores têm olhado com mais atenção para o papel.

Após a divulgação de que a varejista entrou em RJ, no dia 19 de janeiro, as ações caíram fortemente. Essa tendência, no entanto, começou a mudar, com as ações saltando 146,5% desde o dia 20, sendo que apenas nesta quarta-feira (1) seus papéis subiam mais de 15% por volta das 11h (horário de Brasília).

Esses ganhos em um curto intervalo de tempo acabam chamando a atenção de investidores, que são atraídos pela possibilidade de ganhar bastante dinheiro em um pouco tempo. Diversos especialistas, porém, pregam cautela.

Em levantamento recente, a Guide, junto da Economatica, destacou que a maior parte das ações de companhias que entraram com o pedido de recuperação judicial teve queda considerável desde o início do processo.

Confira abaixo:

Atualmente, segundo dados da B3, existem 15 companhias listadas em processo de RJ, sendo 20 papéis negociados na Bolsa. Dentre esses, apenas os papéis ordinários da Eternit (ETER3), que entrou em RJ em 2018, vêm conseguindo dar retornos positivos aos seus acionistas – distribuindo até dividendos. O restante amarga forte prejuízo.

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Outras companhias listadas, lembra a Guide, já estiveram na mesma situação que a Americanas se encontra agora e conseguiram sair.

É o caso da Oi (OIBR3), por exemplo, que saiu da RJ em dezembro último, após mais de seis anos de litígio. Já a OGX se transformou em Dommo e, há pouco, foi comprada pela PRIO (PRIO3).

Outras empresas, contudo, não tiveram a mesma sorte. A MMX, do mesmo grupo da OGX, entrou em RJ e, posteriormente, um tribunal decretou sua falência (que depois foi revertida por outro tribunal mas, desde então, os ativos não negociam mais na B3).

Os papéis dessas companhias também passam por fortes oscilações, “abrindo oportunidades”, mas, no longo prazo, quase todos amargam também grandes desvalorizações – mesmo as que conseguiram, de alguma forma, sair da RJ sem falir.

As ações da MMX, mesmo pouco antes da falência, decretada em maio de 2021, saltaram 800% em uma semana, com especulação sobre uma possível venda. Logo após, os papéis deixaram de ser negociados.

“Alguns exemplos conhecidos de companhias que entraram em RJ são os da Oi, PDG, OGX, MMX. Outro caso conhecido é o da Rodovias do Tietê, onde muitos investidores de debêntures incentivadas foram negativamente impactados. Em todos estes casos, o valor das ações atualmente está muito baixo e, na maioria deles, consideravelmente menor do que seu preço antes da recuperação judicial. Além disso, essas recuperações judiciais demoram muito para serem concluídas (ou ainda não foram)”, diz a Guide, em relatório assinado pelo analista Mateus Haag.

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Poucas companhias em RJ se recuperam

Werner Roger, co-fundador da Trígono, endossa que a chance de uma empresa se recuperar após entrar em RJ é baixa.

“Se olharmos a quantidade de empresas que entram em RJ e conseguem sair bem do processo, o número é muito baixo. Essas oscilações fortes, que vemos como no caso da Americanas, são especulações”, diz o gestor. “Nós, usualmente, já não recomendamos. Nas atuais condições de mercado, muito menos. São, normalmente, empresas muito endividadas e nós estamos em um momento de juros alto”.

Ele lembra que o processo de recuperação judicial é seguido da perda de clientes, de fornecedores e de reputação. “É especulação pura. Se eu quisesse me divertir, iria para o jóquei ou para um cassino”.

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José Eduardo Daronco, analista da Suno Research,  pontua que, usualmente, um pedido de recuperação judicial é encarado como “a última alternativa” para manter as operações em andamento – e reforça que ele traz uma série de impactos negativos para toda a cadeia de produção.

“Tão logo se confirme a recuperação judicial, os credores reduzem drasticamente os financiamentos, temendo um default. Além disso, os próprios fornecedores ficam céticos e evitam fornecer as mercadorias. A empresa acaba com menos produtos para a oferecer aos seus clientes, seja pela diminuição do crédito ou dos próprios bens pelos fornecedores, impactando os clientes finais e retirando a competitividade da empresa”, diz o especialista da casa de research.

A empresa enfrenta, ainda, outros problemas. É o caso da retenção de talentos, por exemplo, uma vez que os trabalhadores começam a procurar novas oportunidades, temendo demissões em massa.

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“Dito isso, o processo de recuperação judicial segue com a apresentação de um plano para o futuro, que a empresa ou os credores apresentam buscando estabelecer um equilíbrio econômico-financeiro para a companhia em RJ”, contextualiza Daronco. “Em geral, esses planos significam diluição de acionistas e deságio na dívida. Isso significa, em outras palavras, que todo mundo perde, tanto acionistas quanto credores”.

A opinião consensual é que um processo de “mudança de foco”, ou turnaround, nunca é fácil de ser realizado.

Quando uma empresa entra em RJ, credores e executivos vão para uma mesa tentar negociar qual será o futuro da companhia, os primeiros tentando reaver o que lhes é devido e os segundos tentando manter a empresa operando.

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Se uma mudança de rota não é fácil para uma empresa sadia, quando há uma série de debilidades operacionais, impostas pelo próprio processo de RJ, isso se torna ainda mais difícil.

A Americanas, neste momento, caminha para negociar com credores, sem ter, ainda, nenhum trajeto definido. Isso, de toda forma, impede uma avaliação clara de quanto a empresa vale e de quais serão seus passos futuros.

“Uma empresa que entra em RJ enfrenta dificuldades, principalmente, de crédito. Ninguém quer dar crédito para essa companhia. A maioria dos fornecedores ou vai pedir uma garantia ou vai cobrar à vista”, diz Laura Bumachar, sócia do Dias Carneiro Advogados. “Além disso, a empresa não pode alienar ou onerar nenhum bem do seu ativo permanente sem permissão judicial”.

Por fim, a especialista jurídica lembra que o próprio processo de uma RJ é caro, com a companhia tendo de desembolsar uma quantia considerável com advogados em um momento que seus balanços já não estão saudáveis.

Oportunidade no curto prazo?

Alex Carvalho, analista da CM Capital, é um dos investidores que defende que comprar ação de uma empresa em RJ pode ser interessante no curto prazo.

“Esses papéis ganham visibilidade e, com isso, também volatilidade, trazendo movimentos de curto prazo. É comum ver esses papéis oscilarem muito, o que abre algumas oportunidades”, debate o técnico. “Geralmente essas empresas são consideradas baratas dentro da perspectiva de viés de preço, que é diferente de valor”.

Ele destaca, no entanto, que ao se analisar o longo prazo a questão fica mais complicada.

“Criamos a perspectiva de que a empresa possa sair da RJ, pagando seus credores e gerando caixa, mas há o custo de oportunidade. Enquanto esperamos que essa empresa traga bons resultados, há outras empresas, de grande porte, que continuam dando lucro e pagando dividendos. O custo de oportunidade, então, pode sair caro”, contextualiza Carvalho.

Alguns gestores acabam por se expor a esses riscos, acreditando que podem conseguir surfar nessas fortes oscilações. No entanto, eles fazem essas movimentações com partes pouco relevantes dos seus portfólios.

Bruno Garcia, gestor da Truxt, em entrevista recente ao Stock Pickers, por exemplo, afirmou que comprou dívidas da Americanas após o estouro da RJ.

Compramos 0,70% do fundo em dívidas da Americanas. A história é feia e uma recuperação judicial de empresa de varejo é complicada. É difícil, mas é possível achar um equity value. A gente sempre tem que pensar em uma composição de risco. Investir é pensar em quanto risco você quer tomar

De acordo com o especialista, para além da chance da Americanas, ou de outras empresas em RJ se recuperarem, há, por exemplo, a questão do litígio, sendo possível que acionistas busquem na Justiça compensações dos controladores. Há também no radar a chance de os bancos tentarem realizar alguma operação para injetar capital ou de fundos de ativos estressados intervirem.

“Nós não somos obrigados a comprar ativos estressados, mas podemos fazer. Pegar uma posição pequena para colocar em um ativo que ninguém quer tomar, quando você acha que faz sentido, pode compensar. Já tivemos posição de dívida argentina, comprei Oi. É coisa de 1% do fundo”, disse o gestor no programa.