Uma nova fase

Carros voadores: a estratégia que pode reerguer a Embraer após a crise

De olho no mercado de eVTOL desde 2017, Embraer criou a Eve ano passado e agora começa a ver o mercado reagindo positivamente a essa nova área

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SÃO PAULO – Já há alguns anos em dificuldade, a fabricante de aeronaves Embraer (EMBR3) viu sua situação financeira piorar bastante em 2020 com o estouro da pandemia do coronavírus, que paralisou sua produção e fez despencar os pedidos por novas unidades conforme os voos no mundo todo foram cancelados, ao mesmo tempo em que a Boeing rompeu o acordo para parceria que tinha com a companhia.

Mas uma nova estratégia que tem sido agora um grande foco da companhia, os “carros voadores”, tem chamado muita atenção, tanto de investidores quanto analistas, e parece abrir um novo caminho para a empresa brasileira voltar a ter dias melhores.

Depois de ver suas ações encerrarem 2020 com desvalorização de 55,14%, a Embraer tem tido um ano de boa recuperação na bolsa, com as ações atualmente acumulando ganhos de 137,51% nestes poucos mais de 5 meses.

E esse novo momento da companhia nasceu de uma novidade iniciada em outubro do ano passado, quando a EmbraerX, braço de inovação do grupo, anunciou a criação de uma nova empresa, a Eve Urban Air Mobility Solutions, ou somente Eve, focada em desenvolver veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOL, na sigla em inglês).

Na época, o CEO da EmbraerX, Daniel Moczydlower, explicou que o projeto do eVTOL está em desenvolvimento dentro da EmbraerX há cerca de quatro anos e a ideia veio ganhando corpo desde então. “Por mais que o mercado (para um veículo como esse) não exista hoje, dá para olhar no futuro. Muita gente está apostando nele e tudo nos leva a crer que não é uma aposta despropositada”, disse.

E mesmo sendo um projeto para mais alguns anos, parece começar a dar resultado para a companhia brasileira, com alguns analistas apontando para um negócio-chave e que pode ajudar a recuperar toda a Embraer.

Anos difíceis

Olhando para os resultados da Embraer, o investidor já via um cenário bastante complicado. Depois de um prejuízo de R$ 1,3 bilhão em 2019, o dobro dos R$ 669 milhões negativos de um ano antes, a companhia se viu no meio da crise gerada pela pandemia.

Além de ser obrigada a paralisar sua produção por conta do impacto direto do vírus, a empresa sofreu conforme as companhias aéreas, seus clientes, cancelaram pedidos e suspenderam qualquer nova solicitação de aeronave para cortar custos conforme seus negócios estavam parados e os aviões não podiam deixar o solo.

Para piorar, cerca de um mês após o mundo parar por conta da Covid-19, a Embraer recebeu a notícia da desistência da Boeing do acordo de joint-venture que as duas tinham. Um grande baque para os investidores, que depois de muita discussão no campo político em aceitar essa parceria, viram a grande oportunidade da companhia desaparecer.

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Com a crise do 737 Max e os efeitos da pandemia, a Boeing passou a enfrentar sérios problemas financeiros e houve rumores até de uma possível falência. Já a Embraer, após o prejuízo de 2019 – anunciado em março do ano seguinte – e sua produção parada, ficou desvalorizada frente ao preço que a Boeing pretendia pagar.

Tudo isso fez a empresa americana exercer seu direito de rescisão do acordo que tinham na data limite para isso. Por algumas semanas ainda surgiram especulações de outras companhias podendo se unir com a Embraer, mas no fim, nada foi levado para frente.

E desde então o cenário tem sido bastante complicado para a Embraer. Em 2020, a empresa acumulou prejuízo líquido de R$ 3,6 bilhões, entregando 148 aeronaves, ante 208 no ano anterior. Em relação aos pedidos, a carteira somava US$ 14,4 bilhões em dezembro último, ante US$ 16,8 bilhões em 2019.

Hoje, a Embraer tem um endividamento alto (US$ 4,4 bilhões) e uma geração de caixa baixa que dificulta a criação de novos empreendimentos de forma independente. O presidente da companhia, Francisco Gomes Neto, afirmou ao Estadão, em 2020, que até o projeto de uma nova aeronave turboélice que vinha sendo programado não se concretizaria se não houvesse um parceiro.

Os eVTOLs

E em meio às várias notícias negativas de 2020, “escondido” no noticiário da Embraer, foi criada a Eve, trabalhando em um segmento que, apesar de parecer longe da realidade das pessoas, hoje tem mostrado ser uma grande oportunidade.

“A Embraer vai capturar um espaço importante no mercado se ela se mover rápido. Agora o projeto tem de acelerar, ganhar velocidade, para sermos os primeiros a entrar”, disse Moczydlower no anúncio de outubro.

O projeto da Eve teve início muito antes da companhia existir oficialmente. Isso porque a EmbraerX entrou para o Uber Elevate (projeto de transporte aéreo compartilhado e acessível da Uber) logo em seu início, em 2017, mostrando que já estava de olho no mercado do que viria a se chamar eVTOL.

Esse tipo de veículo se assemelha muito a um helicóptero (que é definido pela sigla VTOL), mas tem já como grande diferencial ser totalmente elétrico. Mais do que isso, a ideia futurista desses veículos também trazem comparações com um grande drone, já que parte de seu projeto também já é focado em ele não ter um piloto.

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A criação do eVTOL busca tornar possível o transporte de pessoas a curtas distâncias, criando voos intramunicipais mais baratos, com uma frota de aeronaves servindo como “táxis voadores”.

A ideia é mais do que substituir o helicóptero e sim criar uma nova dinâmica para as viagens aéreas nas grandes cidades, que demandará também uma reconfiguração do controle de tráfego aéreo urbano para se fazer frente ao crescimento no número de pousos e decolagens.

“O helicóptero é uma das máquinas mais ineficientes que existe. O consumo de combustível é elevado, faz muito barulho. A única razão de ele existir é a possibilidade de se fazer pousos e decolagens na vertical. Queremos encontrar uma equação de custo que permita usar um eVTOL com a mesma frequência que se usa um Uber Black (modalidade de carros mais luxuosos no aplicativo de transporte Uber)”, explicou Moczydlower.

As projeções ainda variam muito, com expectativas que esses modelos comecem a operar entre 2023 e 2028, mesmo assim, são perspectivas curtas quando se olha para o tipo de projeto. Em março deste ano, a Embraer divulgou imagens do primeiro voo realizado com seu modelo eVTOL.

A oportunidade para a Embraer

Para a equipe de análise do Credit Suisse, embora os negócios de aviação comercial da Embraer tenham tido muita dificuldade desde o início da pandemia, assim como a unidade de defesa (por motivos não relacionados), o “eVTOL é visto como uma oportunidade chave de longo prazo pelos investidores”.

“Vemos o eVTOL como o principal fator por trás do forte desempenho da Embraer no acumulado do ano, junto com seu novo posicionamento como o único provedor de jatos regionais e uma melhoria na demanda por jatos executivos”, afirmam os analistas.

Isso em um momento em que assunto ganha força, principalmente para a a empresa brasileira. Em menos de duas semanas, foram três grandes notícias envolvendo eVTOL, sendo dois de pedidos de unidades e uma de fusão da Eve.

Em 1 de junho, a subsidiária anunciou uma parceria com a Halo para desenvolver produtos e serviços de Mobilidade Aérea Urbana (UAM) nos Estados Unidos e no Reino Unido. A parceria inclui um pedido de 200 unidades do eVTOL, com entregas previstas para começarem em 2026.

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Uma semana depois foi fechado um contrato para entrega de 50 “carros voadores” para a Helisul Aviation, empresa que opera helicópteros na América Latina.

A principal notícia, porém, ficou para o anúncio de negociações para a fusão da Eve com a Zanite Acquisition, uma empresa de aquisição de propósito específico, ou SPAC na sigla em inglês.

Uma SPAC também é chamada de “empresa de cheque em branco”, já que é uma companhia que está listada na bolsa, mas sem um negócio estabelecido, buscando adquirir ou se unir com uma empresa privada, tornando-a pública sem precisar passar pelo processo tradicional de uma oferta pública de ações (IPO).

As companhias não confirmaram, mas segundo a agência de notícias Bloomberg, o acordo poderia avaliar a empresa combinada em cerca de US$ 2 bilhões, cerca de dois terços do valor atual de toda a Embraer (levando em consideração a forte alta das ações da companhia após a divulgação das negociações, de 15,6%).

E mais do que todas essas notícias mostrarem o bom momento e ajudarem a certificar a oportunidade que pode ser esse mercado para a Embraer, esse valor da operação também traz uma nova visão para os investidores sobre a companhia.

“O interesse de investimento pela SPAC consolida e valida esse modelo de negócio, além de ancorar uma avaliação de mercado sólida para a sua startup. Isso pode impulsionar mais as ações da Embraer no curto prazo”, avalia a Levante Ideias de Investimentos.

A visão dos analistas

Esses recentes movimentos envolvendo a Eve levou a uma série de comentários e revisões por parte dos analistas, caso do Bradesco BBI, que na sexta-feira (11) elevou a recomendação para os recibos de ações negociados na Bolsa de Nova York – ou ADRs (American Depositary Receipts) – da Embraer de underperform (desempenho abaixo da média do mercado) para outperform (exposição acima da média do mercado).

Além disso, o preço-alvo da instituição teve uma elevação expressiva de 320%, passando de US$ 5 projetado para o final de 2021 para US$ 21 para o final de 2022, o que configura um potencial de alta de 34% em relação ao fechamento de sexta.

Os analistas Victor Mizusaki e Pedro Fontana, do BBI, disseram que a Embraer reduziu os riscos do projeto eVTOL com sucesso por meio do anúncio de dois pedidos em junho, que totalizam 250 aeronaves.

“Achamos que esses pedidos devem reduzir significativamente o risco do projeto e pode atrair investidores para financiar o desenvolvimento das aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical que devem entrar em operação até 2026. A Embraer tem experiência comprovada no desenvolvimento de produtos e a associação com Zanite e outras potenciais parcerias estratégicas devem ajudar a financiar o projeto eVTOL”, avaliam.

Já o Morgan Stanley avalia que “se, a transação for adiante, deve levar o mercado a atribuir um valor significativamente maior ao negócio eVTOLs da Embraer do que antes (independentemente do que se acredita sobre as perspectivas do negócio no longo prazo)”. Além disso, os analistas enxergam essa operação como chave para a capacidade da Embraer de financiar seu negócio.

A equipe do Credit Suisse, por sua vez, cita que o valor de US$ 2 bilhões, em um primeiro momento, pode parecer baixo, já que outras empresas de eVTOL com fusões com SPACs conseguiram um valuation maior, como a Joby Aviation, que levantou US$ 1,6 bilhão na combinação de negócios e passou a ser precificada a US$ 6,6 bilhões após a fusão, enquanto a Lilium levantou US$ 830 milhões e ficou avaliada em US$ 3,3 bilhões.

Apesar disso, os analistas do banco suíço apontam que as incógnitas da operação, como o tamanho e a escala da Eve e os termos certos do negócio, tornam as comparações complicadas de serem feitas neste momento.

Mesmo assim, os analistas reforçam que ainda existem muitas questões a serem respondidas. O Credit Suisse diz que mesmo os mais otimistas, como eles, veem o balanço patrimonial da Embraer ainda sobrecarregado, com desempenho errático em todos os três negócios principais da companhia, além de uma perspectiva obscura do segmento de defesa e um valuation elevado, embora admitam que isso possa mudar assim que a visibilidade sobre a Eve ficar mais clara.

O Morgan lembra que ainda não se sabe ao certo quanto capital seria injetado no início da operação se um negócio fosse fechado e nem qual será o tamanho da participação que a SPAC terá na nova companhia.

Já a Levante diz que “a preocupação com o alto endividamento e com o consumo agressivo de caixa pode ter passado, de modo que o mercado olha a Embraer como um dos principais players do setor de aviação e, agora, de inovação na mobilidade urbana e transporte aéreo”.

(Com Estadão Conteúdo)

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