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Muito tem se falado na alta nos preços dos produtos. Este é um dos assuntos que têm dominado os noticiários e bate-papo com amigos ou mesmo em família. Mas, além de ser tema freqüente nos veículos de comunicação e até na sua casa e de causar efeito no seu bolso, diminuindo seu poder de compra, você sabia que esse aumento generalizado dos preços, conhecido como inflação, pode mexer com a cabeça das pessoas?
Para a professora e psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, que estudou a fundo essa questão, as pessoas tendem a misturar sentimentos, como medo e atração, ao enfrentarem a alta sucessiva dos preços. Ela chegou a essa conclusão observando a reação dos seus pacientes nos períodos de maior inflação no País, quando, por exemplo, era muito comum um produto dobrar de valor de um dia para outro.
Números que fascinam
Naquela época, por causa da quantidade de zeros estampados nos preços e nos holerites – para se ter uma idéia, o salário de um trabalhador comum chegava à casa dos milhões -, as pessoas perdiam a noção dos valores e acabavam tendo uma falsa sensação de que o dinheiro se multiplicava. Isso acontecia principalmente porque preços e salários eram reajustados automaticamente, já que a inflação literalmente disparava, ultrapassando, em alguns anos, os 2 mil por cento.
Vera Rita lembra que seus pacientes ficavam fascinados ao ver o saldo de sua conta corrente recheado com tantos números. “Era um mundo absolutamente irreal”, define. “O tamanho dos números impressionava”.
Por essa razão, havia certa resistência em encarar o problema e as pessoas não conseguiam pensar muito no futuro, vivendo o agora. “Nos tempos de inflação alta, era impossível se planejar, porque, de um dia para outro, os preços subiam drasticamente. Com isso, as pessoas passavam a viver o hoje intensamente, sem condições de planejar nada. Um tempo de ilusão”, explica, destacando que todos vivenciavam o salve-se quem puder.
Vícios que detonam o orçamento
Para piorar esse cenário de falta de planejamento, as pessoas acabam adquirindo certos “vícios” que afetam seu orçamento, quando os preços começam a subir. Um deles é o chamado comportamento de manada: ao ver muitas pessoas fazendo uma coisa, nossa capacidade de julgamento fica comprometida e agimos por imitação. No caso da inflação, ganha força a idéia de estocar produtos, para evitar ser surpreendido por um novo aumento nos preços.
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Só que essa atitude leva a novas altas nos preços, pois, se há menos produtos no mercado, eles ficam cada vez mais valorizados. Imagine que você está em pleno deserto, morrendo de sede, e com algum dinheiro. Se tivesse um único quiosque vendendo um copo de água, com certeza, pagaria muito mais por essa água do que se tivesse de comprá-la em uma região onde encontraria o produto com facilidade.
Outro vício prejudicial ao orçamento é o de fazer contas mentais, que nada mais é do que distorcer nossos cálculos. Assim, supondo que você ganhe um salário de R$ 1 mil, poderia pensar da seguinte maneira:
- posso comprar um tênis de R$ 200, pois vou ganhar R$ 1 mil;
- posso pagar por uma viagem de R$ 800, pois vou ganhar R$ 1 mil;
- vou me presentear com R$ 100 em roupas, pois ganharei R$ 1 mil.
No final das contas, seu salário de R$ 1 mil não será suficiente para cobrir as despesas de R$ 1.100, que você mentalmente fez, em vez de colocá-las em uma planilha de orçamento para avaliar sua renda e seus gastos, antes de sair torrando todo o dinheiro que suou tanto para ganhar.
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Ninguém está a salvo
Como os tempos já são outros e a inflação galopante das décadas de 80 e 90 parece ter ficado para trás – embora tenha crescido um pouco acima do esperado recentemente -, Vera Rita avalia que as pessoas tornam-se mais capazes de agir com mais racionalidade em relação ao seu bolso, ficando mais seguras para poupar, por exemplo, pois não correm mais o risco de encontrar os preços nas alturas.
“É importante que as pessoas tenham consciência do papel fundamental da estabilidade econômica no planejamento do seu orçamento, da sua educação financeira. A inflação acaba derrubando tudo isso”, comenta.