Após o resultado

Bradesco: o ponto de atenção que ofuscou os dados positivos e fez a ação fechar “no zero”

Banco lucrou R$ 6,5 bilhões no primeiro trimestre de 2021, alta de 73,6% na base anual, mas inadimplência em alta preocupou

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O Bradesco registrou um lucro líquido recorrente de R$ 6,5 bilhões no primeiro trimestre de 2021, uma queda de 4,2% na comparação com o quarto trimestre de 2020, porém aumento de 73,6% em relação ao mesmo período do ano passado, divulgou a instituição financeira na noite da última terça-feira (4).

O lucro líquido contábil foi de R$ 6,15 bilhões. A média das projeções dos analistas do mercado financeiro para o lucro do banco era de R$ 6,02 bilhões, de acordo com dados compilados pela Refinitiv.

Os resultados foram considerados, no geral, positivos pelos analistas de mercado, mas alguns pontos do balanço, com destaque especialmente para a elevação da inadimplência, geraram um sinal de alerta.

Assim, a sessão começou com queda para as ações: os ativos BBDC4 chegaram a ter perdas de 2,77%, mas amenizaram, ainda que fechando com um desempenho bem menos expressivo , que foram zerando as baixas ao longo do dia, acompanhando o movimento de alta do mercado. Contudo, os ganhos foram bem menos expressivos para as ações do banco na comparação com a alta do Ibovespa: enquanto o benchmark da Bolsa subiu mais de 1,5%, os ativos BBDC4 tiveram alta de apenas 0,17%, a R$ 23,84.

Entre outros destaques do balanço, com relação ao crédito, o Bradesco viu sua carteira expandida avançar 2,6% nos três primeiros meses deste ano e alcançar R$ 705,2 bilhões, saldo 7,6% superior ao verificado no fim de março de 2020.

As despesas com provisões para créditos de liquidação duvidosa, mais conhecidas pela sigla PDD, cederam 14,5% na comparação com o período imediatamente anterior e ficaram em R$ 3,9 bilhões, 41,8% abaixo em relação ao primeiro trimestre do ano passado. O estoque de provisões, no entanto, chegou a R$ 46 bilhões, uma alta de 11,3% sobre o resultado pouco acima de R$ 40 bilhões registrado há um ano.

Os últimos 12 meses foram de ajustes na operação do Bradesco, de acordo com o balanço divulgado ontem. No período, o banco fechou 1.088 agências e demitiu cerca de 8,5 mil funcionários. Apenas nos primeiros três meses de 2021, foram encerrados 83 pontos de atendimento e fechados 888 postos de trabalho.

O Bradesco manteve as projeções de desempenho para 2021, os chamados guidances, divulgadas no início deste ano. O banco espera que sua carteira de crédito cresça de 9% a 13% neste ano. No primeiro trimestre, os empréstimos tiveram incremento de 7,6%. O banco espera ainda que sua receita de prestação de serviços tenha aumento de 1% a 5% neste ano ante 2020. No primeiro trimestre, esse faturamento, porém, encolheu 2,6%.

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Nas despesas, o Bradesco promete seguir com austeridade no corte de custos e vê a possibilidade de seus gastos operacionais se reduzirem em até 5%, no melhor cenário. No mínimo, devem cair 1%. De janeiro a março, o corte foi de 4,7%.

O Credit Suisse destacou que Bradesco reportou bons resultados, com um Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) de 18,1%, 7,1 pontos percentuais acima de um ano antes, e registrando um balanço de boa qualidade, o que deixa a equipe de análise confiante de que a companhia está caminhando para um 2021 robusto, mesmo considerando a menor contribuição da margem financeira (NII, na sigla em inglês) com o mercado e as provisões adicionais.

Para os analistas, embora alguns possam ver a margem do cliente estável como um ponto de preocupação, a equipe espera que acelere nos próximos trimestres, à medida que os volumes de crédito continuem subindo e o mix de empréstimos melhore com a maior participação de crédito de varejo e o retorno das linhas de crédito rotativo.

O lucro líquido gerencial ficou 6% acima do consenso e 9% acima do esperado pelo Credit. O custo de risco ficou menor do que o esperado, grande queda em opex e resultados de seguro mais sólidos foram os principais destaques positivos. Os analistas reiteraram recomendação de outperform (desempenho acima da média do mercado), com preço-alvo de R$ 30,91.

A XP destaca que os resultados foram impulsionados principalmente por um forte desempenho operacional, com melhorias em sua margem financeira, seguros e custos.

De acordo com Marcel Campos e Matheus Odaguil, analistas da XP, a companhia registrou um bom desempenho operacional, apontando que o segmento de seguro parece estar se recuperando.

Isso porque, depois de um fraco 2020, em que o negócio de seguros representou apenas 26% do lucro fraco do banco (versus 29% nos ganhos de R$ 26 bilhões de 2019), e implicando em 13,4% de rentabilidade (versus 19% em 2019), 2021 começou bem com o segmento atingindo 25% de um lucro 74% maior na base anual, implicando em rentabilidade de 20%, seu melhor resultado desde o quarto trimestre de 2019, visto que as receitas financeiras melhoraram no trimestre saltando 90% anual, para R$ 1,4 bilhão.

“Esperamos que o seguro tenha um bom desempenho nos próximos trimestres, assim como o segundo aumento de sinistros da segunda onda de COVID no trimestre e os participantes da indústria declararam que os clientes começaram a evitar procedimentos seletivos novamente”, avaliam os analistas.

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O Bradesco ainda apresentou redução de custos de 5% na base anual, melhor do que o guidance do banco e levando a uma melhora do índice de eficiência do banco. “As despesas parecem estar caindo em todos os lugares, de pessoal a despesas administrativas específicas, e vemos isso como um movimento necessário com tanta concorrência vindo dos bancos digitais mais leves e empresas de varejo”, reforçam.

Aumento da inadimplência é sazonal?

Por outro lado, os analistas avaliam que precisam de mais clareza da administração sobre o aumento sazonal da inadimplência, uma vez que o índice de inadimplência em 90 dias se deteriorou 28 pontos-base no trimestre, para 2,5% (e ficando 8 pontos-base acima da expectativa da XP), significativamente afetado por empréstimos renegociados já provisionados. A inadimplência vinha estável em 1,9% desde setembro, depois de ter atingido o pico de 4,5% no primeiro trimestre do ano passado.

Com a alta da inadimplência, o banco consumiu 50 pontos percentuais em índice de cobertura – relação entre empréstimos inadimplentes e provisões – em 90 dias para 350%. Embora ainda em um patamar confortável, os analistas esperam que a inadimplência aumente consideravelmente nos próximos trimestres.

“No conjunto, acreditamos que o resultado foi positivo”, apontam os analistas. Na véspera, vale ressaltar, as ações tiveram queda de cerca de 3% tanto repercutindo o resultado do Itaú (que, mesmo com forte alta do lucro, decepcionou pela qualidade do resultado, veja mais clicando aqui) quanto pelo dia mais negativo do mercado no exterior.

A Levante Ideias de Investimentos, por sua vez, aponta que, se o resultado veio acima das expectativas do mercado em termos de lucro líquido, apresentou uma leve piora em termos de margem financeira (além da inadimplência).

“Enquanto o Santander apresentou seu resultado na semana anterior muito acima das expectativas do mercado, enxergamos os resultados de ambos Bradesco e Itaú um pouco aquém do esperado, mostrando que pelo menos no curto prazo o banco de origem espanhola tem conseguido crescimento mais expressivo”, afirmam os analistas.

Eles ressaltam que o Bradesco se mostrou focado em melhorar sua eficiência, seguindo a redução de custos, mas houve uma desaceleração neste quesito. Já o banco digital Next, que pertence ao Bradesco, também apresentou resultados positivos, com crescimento anual de 92% na base clientes, atingindo 4,4 milhões usuários, além de uma redução de 40% nas despesas por cliente.

“Os principais catalisadores para as ações do Bradesco, na nossa visão, são uma melhora estrutural da economia brasileira com o andamento da vacinação e aceleração do consumo e novos desenvolvimentos quanto um possível IPO do Next”, apontam os analistas.

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Os analistas da XP reiteraram recomendação de compra e preço-alvo de R$ 27 para o banco de Osasco, pois acreditam que: i) seus resultados sejam mais sustentáveis no longo prazo; ii) sua estratégia de redução de custos está alinhada às expectativas de um banco mais eficiente na era digital; enquanto iii) seus múltiplos parecem descontados para pares privados com um preço por patrimônio líquido de 1,5 vez no trimestre.

O Safra reiterou a sua preferência pelo banco após o resultado, uma vez que os números, na visão dos analistas, corroboraram a expectativa de que o Bradesco deva entregar um resultado bastante sólido em 2021. O preço-alvo é de R$ 32.

Cabe destacar que os ativos BBDC4 lideram a preferência dos analistas entre os bancos, de acordo com compilação feita pela Refinitiv, com quatorze recomendações de compra, zero neutra e zero de venda. No caso do Itaú (ITUB4), nove recomendam compra, sete têm recomendação neutra e zero de venda. Para o Santander (SANB11) e Banco do Brasil (BBAS3), uma divisão ainda maior: cinco recomendam compra, sete têm recomendação neutra e uma recomendação é de venda para SANB11. No caso de BB, nove recomendam compra, cinco têm recomendação neutra e uma é de venda.

(com Reuters e Estadão Conteúdo)

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