Bradesco (BBDC4): por que ações caíram quase 4% mesmo com lucro acima do esperado?

Analistas destacam a continuidade da recuperação operacional do banco, embora haja alerta para sinais de pressão na qualidade de crédito e para o consumo de capital

Lara Rizério

Ativos mencionados na matéria

Banco Bradesco (Divulgação)
Banco Bradesco (Divulgação)

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O Bradesco (BBDC4) divulgou seus resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26), registrando um lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões, resultado que representou um avanço de 5% em relação ao trimestre anterior e de 16% na comparação anual, ficando ligeiramente acima das expectativas do mercado.

Na visão geral, analistas destacam a continuidade da recuperação operacional do banco, sustentada por crescimento de receitas, melhora de eficiência e forte contribuição da área de seguros, embora haja alerta para sinais de pressão na qualidade de crédito e para o consumo de capital. A reação do mercado aos números foi negativa por toda a sessão, com os ativos BBDC4 fechando em queda de 3,89%, a R$ 18,52.

A XP Investimentos aponta que o resultado foi “misto, mas amplamente construtivo”, com ROAE (Retorno sobre Patrimônio Líquido Médio) de 15,8%, reforçando a trajetória de recuperação iniciada em 2024. O lucro superou em cerca de 3% as estimativas da casa, mesmo com um desempenho do resultado financeiro um pouco abaixo do esperado, explicado por sazonalidade negativa nos spreads com clientes e maior volatilidade no NII (Receita Líquida de Juros) de Mercado.

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A Genial Investimentos também avaliou o trimestre de forma positiva, destacando que a rentabilidade do banco ficou acima do custo de capital, com ROE (Retorno sobre patrimônio líquido) em torno de 15,4%, refletindo crescimento de receitas, melhora do mix de crédito e maior disciplina operacional. Para a casa, o avanço consistente dos resultados reforça a percepção de normalização gradual da rentabilidade do Bradesco.

O JPMorgan aponta que primeira impressão é positiva, visto que o resultado superou as expectativas impulsionado por receita e despesas operacionais, com um índice CET1 (capital principal de nível 1, que mede o patrimônio líquido principal de um banco em relação aos ativos ponderados pelo risco) melhor e qualidade de ativos aceitável.

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As receitas cresceram 14% em relação ao ano anterior, melhor que o Santander Brasil (SANB11) e o Itaú (ITUB4) – é verdade que impulsionadas pela receita líquida de juros (NII) do mercado e por seguros, fatores que o banco aponta precisar entender para avaliar se o Bradesco conseguirá sustentar essas tendências positivas.

“Notavelmente, os resultados do segmento de seguros cresceram 13% em relação ao trimestre anterior e 20% em relação ao ano anterior, impulsionados principalmente pelo segmento de saúde: observamos provisões técnicas ligeiramente menores, com redução de aproximadamente R$ 150 milhões, apesar da estabilidade dos prêmios em relação ao trimestre anterior, o que pode ser explicado por um menor índice de sinistralidade”, avalia.

No segmento de crédito, o JPMorgan vê o Bradesco crescendo mais rapidamente que seus pares em diversas linhas, como financiamento de veículos, cartões e folha de pagamento para pessoas físicas.

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Em relação à qualidade dos ativos, as provisões foram maiores (+9,5% em relação ao trimestre anterior), mas considera positivo o aumento de apenas 6 pontos-base na inadimplência em relação ao trimestre anterior, impulsionado por uma piora de +20 pontos-base no segmento de pequenas e médias empresas (PMEs) e estabilidade no segmento de consumo, apesar da sazonalidade.” Sim, as baixas contábeis foram maiores, mas a formação de ativos em estágios 2 e 3 permaneceu praticamente estável em relação ao trimestre anterior (com base em uma carteira de crédito excluindo títulos de R$ 813 bilhões), embora, considerando a expansão da carteira (R$ 1,09 trilhão) e a relação esperada entre estágios 2 e 3, notamos um aumento significativo na formação de ativos”, avalia.

O JPMorgan também observa que o índice de inadimplência de 15 a 90 dias aumentou 20 pontos-base em relação ao trimestre anterior, atingindo 3,66%. “Em resumo, temos uma visão positiva, embora precisemos entender a sustentabilidade de algumas linhas de negócios e a expansão da formação dos estágios 2 e 3”, avalia.

A XP também destaca que a carteira de crédito ampliada do Bradesco somou R$ 1,09 trilhão no fim de março, com alta de 8,4% em um ano. Segundo a XP, ao desconsiderar efeitos cambiais, o crescimento teria sido de 9,5%, mais próximo do ponto médio do guidance do banco e acima da média do sistema financeiro, mesmo em um ambiente macroeconômico ainda desafiador.

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O avanço foi puxado principalmente pela pessoa física, com destaque para crédito automotivo, cartões e rural, enquanto a carteira de pessoa jurídica apresentou retração trimestral, especialmente em PMEs. A participação de linhas com garantias subiu para 60,8%, movimento visto pelos analistas como positivo do ponto de vista de risco.

Para o Goldman Sachs, apesar do lucro recorrente um pouco melhor que o esperado, as tendências gerais foram “mistas”, uma vez que houve deterioração marginal da qualidade de ativos e queda nos níveis de cobertura, compensadas apenas parcialmente por itens menos recorrentes no resultado financeiro e em seguros. O banco americano manteve recomendação neutra para o papel.

Seguros e eficiência operacional

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A área de seguros foi novamente um dos destaques do trimestre. A Bradesco Seguros registrou lucro líquido de R$ 2,8 bilhões, alta de 13% em um ano, com melhora da sinistralidade e crescimento disseminado entre os principais ramos, funcionando como um importante estabilizador dos resultados do grupo.

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Do lado das despesas, o banco mostrou avanço relevante em eficiência. As despesas operacionais caíram na base trimestral e cresceram abaixo da inflação no comparativo anual, levando o índice de eficiência a 46,9%, o melhor nível em vários trimestres. Para o Morgan Stanley, a disciplina de custos foi um dos destaques positivos.

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BradSaúde reforça capital

Outro ponto central da leitura dos analistas foi o impacto da reorganização da operação de saúde, com a criação da BradSaúde (SAUD3). Segundo a Genial e o Itaú BBA, a transação adiciona cerca de 250 pontos-base aos índices de capital em bases pro forma, elevando o Índice de Basileia para aproximadamente 17,4% e o CET1 para 12,7%, além de destravar valor relevante ao reduzir o consumo de capital regulatório.

Na avaliação do Morgan Stanley, o fortalecimento do capital após a transação deve ser bem recebido pelo mercado e amplia a flexibilidade do banco para crescer, distribuir dividendos e avançar em sua agenda de transformação. Já o Goldman pondera que, apesar do ganho pontual, ainda há questionamentos sobre a recorrência da rentabilidade e o consumo de ativos fiscais diferidos.

Recomendações

De acordo com compilação feita pela Reuters, de 10 casas que cobrem BBDC4, 6 possuem recomendação de compra e 4 possuem recomendação neutra. O Goldman Sachs e a XP possuem recomendação equivalente à neutra, enquanto o Morgan Stanley, a Genial investimentos e o Itaú BBA possuem recomendação equivalente à compra.

“Seguimos com visão construtiva para o Bradesco, sustentada pela melhora gradual da rentabilidade, recuperação operacional da franquia bancária e potencial de destravamento de capital com a reorganização da BradSaúde”, aponta a Genial, que tem preço-alvo de R$ 25 para o ativo. Para o Itaú BBA, as ações apresentam um valor atrativo considerando a melhoria e a consistência dos lucros.

A XP, por sua vez, ressalta que o lucro acima do esperado não altera a visão neutra, destacando ainda que a qualidade dos ativos, no entanto, merece maior monitoramento, uma vez que as provisões aceleraram, com custo de risco em 3,5%, pressionadas por um caso idiossincrático no Atacado e pela normalização no segmento massificado, ainda que NPLs e cobertura tenham permanecido amplamente sob controle.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.