Até Warren Buffet não é à prova de falhas; aprenda com os erros dos mestres

Para Warren Buffett, perder algumas ondas de euforia faz parte do jogo, significa que em alguns momentos é preciso abrir mão de fortes altas por ganhos garantidos

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Warren Buffett é considerado o melhor investidor da história, mas, nos últimos cinco anos americanos que mal entendem de Bolsa poderiam ter superado seu desempenho sem grandes esforços. Pela primeira vez em 44 anos de carreira, o bilionário não conseguiu bater o S&P 500, o principal índice de ações dos Estados Unidos. O resultado dos investimentos do “Oráculo de Omaha” não chegou a ser ruim: sua carteira se valorizou 80% desde 2009. O problema é que o S&P engatou um rali histórico e subiu 128% no período. Isso é ruim para a reputação de Buffett porque, se suas ações se valorizam abaixo da média do mercado, é mais fácil e barato para um investidor comum comprar qualquer fundo de ações passivo cuja carteira emule o S&P.

O fracasso relativo do bilionário comprova quão árdua é a tarefa de um gestor de investimentos em Bolsa. Buffett foi superado, mas isso não quer dizer que ele não tenha escolhido as melhores ações. Em determinados momentos, os mercados vivem momentos de tamanha euforia que praticamente qualquer coisa se valoriza. E foi exatamente isso que aconteceu nos EUA após a crise de 2008. O mercado americano completou, em 2013, cinco anos seguidos de alta – algo bastante raro. Muitas das ações que mais se valorizaram no período são de empresas problemáticas que apanharam demais quando a crise do subprime estourou e o apetite por risco minguou. Como Buffett gosta de comprar papéis de empresas sólidas, com boa administração, pagadoras de dividendos e resiliência a crises, ele acabou ficando para trás quando mercado voltou a apostar em papéis cujo valor oscila muito.

A complexidade do mercado é tamanha que Jack Bogle, lendário investidor americano e fundador da gestora Vanguard, levantou certa vez uma tese polêmica. Ao observar que a esmagadora maioria dos gestores de fundos ativos não conseguia ter uma rentabilidade maior que a do S&P 500 ou do Dow Jones no longo prazo, ele chegou à conclusão que “é impossível bater o mercado por diversos anos”. Bogle decidiu então criar o primeiro fundo passivo do mundo, que simplesmente replicaria a carteira de um índice. Se por um lado o fundo nunca bateria a média ponderada das ações que compõe esse índice, pensou Bogle, também não haveria como perder dele. Pouco tempo depois, o gestor criou na década de 1960 o Vanguard Total Stock Fund, que atualmente é o maior do mundo e possui exposição a praticamente todas as ações negociadas no mercado americano.

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Enquanto a lógica de Bogle é se proteger pela diversificação, Buffett e outros investidores que optam por administrar a carteira ativamente tentam concentrar os investimentos nos papéis que consideram ser os melhores – e é justamente aí que podem acabar errando. Quando maior a distância que uma carteira tem de um índice de referência, maior é a possibilidade que seus resultados se distanciem desse “benchmark”, para o bem ou para o mal. A carteira pode não apenas render menos que o índice de ações como ainda ter um resultado negativo no longo prazo – ainda que o mercado como um todo tenda a subir em períodos de 10 ou 20 anos.

Imagine, por exemplo, quem comprou as ações da empresa de petróleo OGX (atualmente, OGPar, OGXP3) em 2010, com a cotação próxima a sua máxima histórica, e ainda tem os papéis em mãos, mesmo após o pedido de recuperação judicial. Um único erro como esse pode fazer com que toda a carteira tenha tido um desempenho ainda pior que o do Ibovespa nos últimos quatro anos. Por outro lado, se esse mesmo investidor tivesse concentrado sua carteira em papéis da Cielo (CIEL3), teria batido com folga do índice.

Mais que o desempenho futuro de uma ação, gestores profissionais como Buffett tentam avaliar o risco representado por uma ação caso nada saia como o esperado. A estratégia é pagar menos que o justo por determinados papéis em um momento em que o risco de novas desvalorizações seja pequeno. A qualidade dele como gestor, portanto, está mais associada ao fato de conseguir resultados constantes e consistentes ao longo do tempo – ainda que sua carteira dificilmente seja a mais rentável do mercado em um ano isolado. O bilionário explicou quem nem liga de perder algumas ondas de euforia com essa estratégia. “Isso significa que, de tempos em tempos, deixamos de lado algumas ações que fazem muito sucesso, mas que não saberíamos como escolhê-las de qualquer forma. Também significa que temos algumas ações perdedoras. Mas estamos perfeitamente interessados em trocar uma forte alta por uma alta garantida“, explicou Buffett em sua reunião anual com investidores em 1990.  

Grandes investidores ou homens na época certa?
Para Bill Gross, gestor e fundador da Pimco, a maior empresa de investimentos em renda fixa do mundo, Buffett não é um grande investidor. Nem George Soros. Nem Daniel Fuss, um de seus grandes rivais em renda fixa. Gross, na verdade, não considera nem ele próprio um grande investidor. Para o gestor, não existe um rei dos títulos de dívida – como ele mesmo é chamado – nem um rei da Bolsa. Com o mercado tão complicado como nos últimos anos, o próprio Gross tomou um “baile” dos títulos de dívida americanos em 2013. Por conta da expectativa de redução dos estímulos monetários nos EUA, seu fundo de renda fixa teve rentabilidade negativa pela primeira vez desde 1999, ano prejudicado pela crise na Ásia. Gross explicou que, num mercado tão difícil como o atual, os grandes investidores do passado não conseguiriam construir a fama de mitos que possuem.

O próprio Buffett admite que seus melhores resultados foram obtidos em uma época distante. Ele afirma que nunca conseguiu multiplicar tanto o dinheiro administrado quanto na década de 1950. Para Gross, o grande ponto de virada foi há 43 anos, com o final da convertibilidade do dólar e do ouro. Desde então, um ambiente de agressividade excessivo se criou no mercado financeiro por conta do crescimento excessivo do crédito – permitindo operações alavancadas. O risco ficou maior. Para o investidor, portanto, fica uma mensagem de humildade. Se nem os grandes mestres já não garantem rentabilidades muito acima da média e podem até registrar perdas, não é o pequeno investidor que deve tomar riscos demais.

Ganhar dinheiro é fácil? Mestres ensinam
Se você investe em ações, certamente já ouviu falar na palavra “múltiplos”. Entende o que isso significa é fácil. Se você vai comprar um imóvel, geralmente um dos fatores que você avalia é o preço por metro quadrado. Na Bolsa, não será diferente – apenas o múltiplo escolhido deve ser distinto.

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Mas que múltiplos olhar? Dois investidores podem ter a resposta para a questão. No Brasil, Luiz Barsi, um das pessoas físicas com mais dinheiro aplicado na Bovespa, gosta de investir em empresas que estejam operando descontadas em relação ao seu patrimônio líquido – o famoso P/VP – e que paguem gordos dividendos . “Eu não considero fazer isso um risco. Eu considero uma oportunidade”, diz Barsi. É importante lembrar que nem sempre Barsi supera o Ibovespa. Na verdade, muitas de suas ações às vezes sofrem. Mas ele não liga: o que lhe interessa é receber dividendos fartos todos os meses e esperar o quanto for necessário para que a cotação de uma ação suba de forma que ele possa vendê-las no futuro com um bom lucro.

Já o lendário John Templeton, que se tornou bilionário investindo em ações, é adepto do P/L, o múltiplo de preço sobre lucro. Na filosofia do americano, esse é o principal indicador a ser avaliado. Basta observar a média do preço das ações sobre o lucro das empresas e esperar esse indicador baixar para patamares mínimos e aí então “dar o bote” – sempre diversificando para não correr riscos excessivos. Aproveitar as crises e comprar sempre na baixa também não garante que você vai superar a média do mercado – mas já deve ser suficiente para torná-lo um investidor melhor.

Essa matéria foi publicada na edição 49 da revista InfoMoney, referente ao bimestre março/abril de 2014. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.