De olho em 2021

As ações e os setores que podem ser mais afetados no cenário pós-auxílio emergencial

Redução do valor do benefício é observada de perto e sentida em alguns setores, mas especialistas estão de olho principalmente na questão fiscal em 2021

Brazilian Currency - Brl. Money bills in a wallet.
(Rmcarvalho/Getty Images)
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SÃO PAULO – O auxílio emergencial no valor de R$ 600, criado para dirimir os efeitos do isolamento social para a população, foi de grande importância para a economia do Brasil, ajudando a diminuir os impactos da pandemia do coronavírus no PIB nacional e levando a uma forte redução da pobreza no período.

Segundo estudo feito pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), o programa contribuiu para a queda temporária da pobreza no Brasil, com 15 milhões de brasileiros saindo da linha da pobreza até agosto de 2020, uma queda de 23,7% – desta forma, também criando um grande mercado consumidor e impulsionando o varejo.

Por outro lado, os fortes gastos também geraram pressão sobre as contas públicas e um debate sobre como se dará, caso se efetive, a continuidade de algum programa de auxílio. O  programa foi criado para durar apenas três meses, com valores concedidos em abril, maio e junho; depois, foi prorrogado por dois meses por esse valor. Posteriormente, com a pandemia ainda perdurando, de setembro a dezembro o valor foi cortado pela metade, a R$ 300 – e há incerteza como será a continuidade do programa.

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“A compra de bens básicos, duráveis e materiais de construção tem crescido em todas as regiões
brasileiras, refletindo a flexibilização das medidas de distanciamento social em momentos diferentes e o deslocamento da demanda para esses bens. Os serviços às famílias seguem mais restritos, diante das medidas ainda presentes, mas também mostram retomada gradual após as flexibilizações, também com disparidades regionais. A rápida reversão da queda do consumo, especialmente de bens, está associada aos programas emergenciais de renda e emprego, entre outros fatores, que sustentaram a massa de rendimentos. O possível encerramento dos programas, no entanto, levanta dúvidas sobre a continuidade de retomada do consumo das famílias, principalmente para as regiões com maior assistência”, avalia o Bradesco.

Também para o Morgan Stanley, há pontos de atenção a serem monitorados para 2021 após a rápida recuperação do consumo, destacando que há preocupação com as perspectivas de crescimento da economia brasileira e para as ações voltadas ao consumo doméstico no próximo ano.

Na avaliação dos estrategistas do banco, mesmo que o governo decida prorrogar o auxílio emergencial novamente (não é o caso-base da instituição), o governo ficará sem espaço fiscal. De qualquer forma, ou com renda familiar mais fraca (com o fim do auxílio) ou com taxas de juros mais altas e / ou moeda mais fraca (no caso da extensão do programa), as perspectivas de crescimento da economia brasileira e do desempenho das ações com participação voltada para o mercado doméstico devem se deteriorar em 2021.

Os primeiros impactos com a redução do auxílio já começam a ser sentidos: conforme destaca o colunista do O Globo Ancelmo Góis, na primeira quinzena de outubro, as vendas de supermercados caíram 5% em relação a setembro. No Nordeste, a queda foi ainda mais expressiva e chegou a 10%.

Em teleconferência após o resultado no dia 29 de outubro, o Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) afirmou que seu braço de atacarejo, o Assaí, não percebeu desaceleração das vendas do varejo alimentar como consequência do menor valor do programa. Porém, no multivarejo, o GPA destaca que, recentemente, percebe os consumidores procurando produtos de marcas mais populares.

Contudo, as vendas nos supermercados podem ser relativamente resilientes em um cenário de redução do auxílio, aponta Arthur Anderson Sousa, assessor de investimentos da Aplix Investimentos.  “Possivelmente, vai haver um freio no setor de varejo de eletrodomésticos para serviços mais essenciais, como de alimentação e saúde quando o auxílio se encerrar no fim do ano, com o setor de alimentos e de farmácias devendo sofrer bem menos”, avalia. Assim, Sousa ressalta que é preciso ficar de olho nos dados de confiança do consumidor e no cronograma de vacinas para saber como se dará a reabertura e se haverá uma volta às condições normais de trabalho e consumo.

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Em meio ao cenário incerto, algumas casas de análise passaram a avaliar quais são os efeitos dessas decisões nas ações.

Um dos casos mais controversos é justamente a ação de empresas que, ao mesmo tempo que podem sofrer com a queda do auxílio emergencial, também podem se beneficiar da reabertura gradual das atividades, como é o caso da Ambev (ABEV3).

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A companhia, que divulgou resultado confirmando a expectativa de forte volume de vendas de cerveja no país (até acima do esperado, com alta de 25% na base de comparação anual, ante expectativa do mercado de alta entre 15% e 20%), viu suas ações subirem forte até esta semana.

Porém, há quem esteja cético com o desempenho das ações. O Morgan aponta que, uma vez que o auxílio emergencial no Brasil teve grandes implicações para o consumo local, há preocupação com o desempenho no primeiro trimestre do ano que vem à medida que os benefícios forem diminuindo.

Na mesma linha, está o Bradesco BBI, que também mostra preocupação com a demanda após o término do auxílio emergencial e destacou que pode haver uma mudança nas carteiras de ações dos investidores em meio ao fim das medidas. Assim, o analista Leandro Fontanesi destacou ainda evitar o nome da Ambev. Ele destaca que, além do volume mais sensível à renda disponível, também há preocupação pelo aumento da concorrência.

“Acreditamos que o fim da ajuda emergencial do governo no final do ano acione uma troca de ações entre os investidores do setor para os nomes que são mais resilientes em cenário de menor renda disponível. Neste contexto, preferimos a M. Dias Branco (MDIA3)”, destacaram, ao retomar a cobertura para a fabricante de alimentos com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 32.

O analista espera que, em 2021, o volume no Brasil para a indústria de massas em geral caia 6%, enquanto os volumes de biscoitos cairão 2%, à medida que os brasileiros devem reduzir a proporção de massas e biscoitos em suas cestas de consumo, pois passarão menos tempo em casa em comparação com 2020.

No entanto, esperam ganhos de participação de mercado da empresa de 2 pontos percentuais nos próximos 2 anos, impulsionados por uma estratégia bem-sucedida na expansão da distribuição e pelo fato dos principais concorrentes estarem enfrentando um cenário desafiador. Além disso, a M. Dias vende principalmente marcas com preços mais baixos, que apoiaram ganhos de participação durante os períodos de menor consumo.

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Se o BBI prefere M.Dias Branco em relação à Ambev em um cenário de fim do auxílio, há também quem veja com otimismo os próximos meses para a ação. A XP Investimentos ressalta que pode haver um “solavanco”  nas receitas da companhia por conta da remoção do programa, mas tem viés positivo para os papéis da companhia em um ambiente de melhora econômica a partir do ano que vem.

Na mesma linha, Jorge Junqueira, sócio-gestor da Gauss, apontou otimismo para a ação ABEV3 tendo em vista a reabertura das atividades, mesmo sem o auxílio. Para o gestor, como já era esperado que a redução do auxílio iria acontecer, a desaceleração das vendas já está bem precificada no mercado.

“O e-commerce teve um expressivo volume de vendas e é natural que o setor de comércio eletrônico possa sofrer uma queda do volume de compras por conta da redução do auxílio”, avalia Junqueira. Por outro lado, também há a projeção de que a mudança de hábito, com mais consumidores realizando compras pelos meios online, tenha vindo para ficar.

Em relatório de estratégia recente, o Bradesco BBI também destacou que mudanças estruturais devem beneficiar as empresas de e-commerce, apesar de verem os valuations das empresas do setor como esticados no momento, com a forte performance no ano de 2020 sendo vista como temporária. Cabe ressaltar que ações de empresas expostas ao e-commerce, caso de Magazine Luiza (MGLU3), Via Varejo (VVAR3) e B2W (BTOW3) registram algumas das maiores altas do ano, de 114%, 69% 37%, respectivamente, enquanto o Ibovespa teve queda de quase 14% em igual período.

Neste contexto, o cenário ainda é de incerteza, mas Junqueira, da Gauss, ressalta que a flexibilização de medidas de restrição também pode levar a uma recuperação das ações do setor de shoppings, que registram queda entre 38% e 50% de suas ações em 2020, caso de brMalls (BRML3), Iguatemi (IGTA3) e Multiplan (MULT3) entre aquelas do setor que pertencem ao Ibovespa.

Vale ressaltar que, durante conferência na última semana com diversas empresas do setor de shoppings, o Credit Suisse reforçou a sua tese de que de que as empresas estão se recuperando mais rápido do que o mercado inicialmente esperava e que os investidores possam estar perpetuando um cenário pessimista demais. “Mesmo estando alguns trimestres ainda de distância dos níveis pré-Covid em termos de fluxo de clientes, vendas e aluguéis, os executivos destacaram que os fundamentos do setor permanecem e que o foco em soluções de varejo multicanal deve apoiar a volta do setor”, ressaltaram os analistas do banco suíço.

Risco fiscal

Apesar do otimismo com a retomada, Junqueira reforça que o endereçamento da questão fiscal será bastante importante e pode definir se 2021 será ruim para as empresas de diversos setores da economia.

O Brasil vai terminar 2020 com a pior situação fiscal entre os maiores países emergentes. Na América Latina, o Brasil teve o maior aumento de dívida, com alta de 20 pontos este ano, o que vai empurrar o endividamento para perto de 100% do Produto Interno Bruto (PIB). Em meio à preocupação com o fiscal,  ainda há indefinição sobre o financiamento do novo programa social do governo para o ano que vem em substituição ao Bolsa Família, com as discussões devendo ser retomadas só depois das eleições municipais.

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Neste sentido, Roberto Attuch, CEO da Omininvest, ressalta que um setor que chegou a registrar recuperação de suas ações em outubro, mas que pode sofrer no ano que vem caso a questão fiscal não seja bem endereçada é o de bancos.

“Os bancos mostram a situação real da atividade e são intermediadores da dívida pública, acabam refletindo o risco da dívida. A alta recente das ações mostra a expectativa de que os resultados vão ser ‘melhores do que o temido’, uma vez que poderia haver mais provisões para perdas [o que não deve ocorrer dado o alto nível de provisionamento no primeiro semestre]. Esse terceiro trimestre é  importante, contudo, é aquela história de jornal velho, de algo que já passou. Não se sabe o que vai ser ano que vem, qual é o nível de suporte em 2021, então há um nível de incerteza muito grande”, afirma Attuch.

Vale destacar que, após um primeiro semestre difícil em meio às altas provisões que derrubou o lucro dos bancos, a expectativa para o terceiro trimestre é de números sequencialmente melhores, o que já teve início com os números apresentados pelo Santander Brasil (SANB11) (veja mais clicando aqui) e Bradesco (BBDC3; BBDC4) (veja mais clicando aqui), que reportaram aumento dos seus lucros na comparação com o segundo trimestre em meio a menores provisões com perdas.

Antes desses números, o BC apresentou dados de crédito de setembro, mostrando que a inadimplência vinha registrando queda tanto por conta da maior renda das pessoas por conta do auxílio emergencial quanto pelos processos de renegociação e adiamento dos vencimentos de parcelas no auge da crise. No mês passado o índice de inadimplência (NPL) caiu para 2,4% (-0,20 p.p. ante o mês anterior), um mínimo histórico, com indicadores de inadimplência antecipada (de créditos vencidos de 15 a 90 dias) também caindo (-0,20 p.p. na comparação mensal).

Contudo, com essas medidas que ajudaram a conter a inadimplência cessando, a expectativa é de alta desses indicadores mais à frente, algo que já repercutiu entre as preocupações dos analistas após os balanços.

Desta forma, mais do que a queda do valor do auxílio emergencial desde setembro até o fim do ano, os investidores estão de olho em como o governo endereçará a questão fiscal no próximo ano. Caso o  cenário negativo se confirme, as ações voltadas ao consumo doméstico como um todo podem sofrer no próximo ano.

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