Após balanços, ação da BRF (BRFS3) despenca 12,65% e Minerva (BEEF3) salta 7,3%; entenda

BRF viu seus volumes caírem após reestruturação enquanto Minerva conseguiu avançar em suas vendas de carne

Vitor Azevedo

(Shutterstock)

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As ações ordinárias da BRF (BRFS3) e da Minerva (BEEF3) tomaram caminhos opostos nesta quinta-feira (11), após as duas companhias, focadas na produção de proteínas, divulgarem seus balanços do segundo trimestre de 2022 e realizarem teleconferências com analistas. Enquanto os papéis da primeira caíram 12,65%, a R$ 14,99, os da segunda avançaram 7,33%, a R$ 13,77.

A BRF teve um prejuízo líquido de R$ 468 milhões no segundo trimestre de 2022, número 94,9% maior do que o prejuízo de R$ 240 milhões do mesmo período de 2021. Por outro lado, o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) ajustado, da ordem de R$ 1,368 bilhão, foi destacado como um ponto positivo por algumas casas, como o Bradesco BBI, uma vez que foi 11% acima do consenso. Porém, o dado não foi suficiente para animar o mercado após o balanço e as ações caem forte.

Um dos motivos apontados é que, após a BRF registrar uma queda de produção no primeiro trimestre, com a companhia ajustando seus volumes a uma menor demanda, o mercado esperava que ela traria uma aumento dos volumes, o que não ocorreu.

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No segmento Brasil, a empresa negociou 547 mil toneladas, queda de 4% no ano e de 0,3% na base trimestral. No internacional, a companhia atingiu um volume negociado de 478 mil toneladas, com queda de 4,2% na base anual mas alta de 1,9% na trimestral.

“Vemos a estratégia de ajuste na cadeia produtiva e de equilíbrio dos estoques do primeiro trimestre deixando um gosto amargo, mas acreditamos em um benefício no futuro”, pontua Alencar. “A BRF trouxe melhora no segundo trimestre, em parte por comparação mais fácil na base sequencial, mas também crescendo em faturamento, trazendo a percepção positiva de estar voltando aos trilhos”.

O especialista da XP, no entanto, menciona que, se não fosse a ótima performance da companhia na produção de carne Halal, o resultado teria vindo aquém do esperado.

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O volume de carne Halal vendido foi de 195 mil toneladas, alta de 13,4% no ano e de 9,2% no trimestre.

O Itaú BBA vai no mesmo caminho, apontando que o pior “parece ter passado”, mas que o destaque ficou para a carne voltada ao mercado árabe, que impulsionou o segmento internacional.

No entanto, o Ebitda do segmento Brasil frustrou o consenso do banco, vindo em R$ 398 milhões ante R$ 452 milhões esperados.

“Destacamos a impressionante recuperação após os resultados reportados entre janeiro e março, mas ainda há um espaço para percorrer antes de atingir níveis de rentabilidade normalizados”, destacam os analistas.

O BofA destaca que as margens se recuperaram, mas ficaram longe do esperado, por conta do recuo do volume de alimentos processados, o que concentrou os gastos.

O JPMorgan, aponta, do lado negativo, além do cenário desafiador para Brasil, que o gasto com juros foi considerável e que a dívida líquida cresceu R$ 1,7 bilhão na base trimestral. Os ajustes contábeis da hiperinflação na Turquia foram inesperados e impactaram o Ebitda em R$ 142 milhões.

O banco americano mencionou também, antes da abertura dos mercados, que a queda das ações poderia acontecer dados os números apresentados também levando em conta que a companhia tinha acumulado uma forte alta recentemente.

De maneira geral, analistas destacaram que, apesar do bom resultado, falta também “clareza para os próximos trimestres”, com o plano de reestruturação ainda em andamento.

Em teleconferência, executivos da BRF defendem reestruturação

Durante conversa com analistas, os executivos da BRF focaram em explicar quais serão os próximos passos da companhia em seu processo de reestruturação e defenderam as mudanças.

“Continuamos atuando para melhorar a nossa gestão de estoque. O que buscamos é acelerar a transformação de frango e de suínos em mercadoria após o abate. É diminuir o tempo dessas proteínas nos congeladores”, explicou Lourival Luz, diretor executivo da BRF. “Temos uma curva de adequação da produção que já está dentro da normalidade, acompanhando a demanda que temos”.

De acordo com o diretor, a companhia continuará a melhorar suas margens, visando, além do controle de custos, aumentar o volume de vendas pouco a pouco, testando a demanda – isso sem pressionar o capital de giro, em um momento de juros mais alto.

“Pretendemos ainda materializar algumas ações de repasse a partir do terceiro trimestre. Temos de testar as fronteiras e recalcular o custo de servir”, complementou Luz. “Continuaremos atuando com prudência, cautela e gestão austera em todas as linhas de custo para podermos assegurar a nossa eficiência operacional”.

Além disso, a BRF aposta também em uma presença maior no segmento premium, buscando fornecer produtos de maior valor agregado, e espera usar o evento da Copa do Mundo para reestabelecer market share, com forte presença publicitária.

“Buscaremos um posicionamento mais forte e adequado, trazendo a qualidade do nosso produto para o consumidor. Buscaremos uma melhoria de mix e avançar no faturamento”, defendeu o executivo. “Ao mesmo tempo, as medidas que tomamos para reduzir gastos também devem trazer resultados, mas temos de ter prudência com fatores que não estão na nossa gestão direta. Variáveis macro, globais, políticas. Elas podem afetar nossos custos.”

Quantos à dívida, apontada como problema pelo JP Morgan, a BRF reconheceu a alta e mencionou que ela foi oriunda do enfraquecimento do real. Os executivos da companhia afirmaram que pretende, no segundo semestre, organizar uma emissão de certificados de recebíveis agrícolas (CRAs) para, com o capital levantando, diminuir a dívida da empresa que é atrelada ao dólar.

Resultado da Minerva, do outro lado, surpreende positivamente

Se os números da BRF foram vistos como dúbios, os da Minerva foram, de forma unânime, considerados positivos.

“A divisão brasileira foi o principal destaque, com aumento de 46% na receita bruta (4% acima da nossa estimativa) devido às sólidas melhorias nos volumes de exportação”, afirma o Itaú BBA. “A frente internacional também apresentou resultados positivos, com expressivos aumentos de preços na Argentina e no Uruguai e com aumento sequencial de volumes no Paraguai”.

O frigorífico viu seu total  de abates crescer 19,2% no ano e 18,5% no trimestre, chegando a 1,03 milhão de tonelada. A receita líquida, por sua vez, avançou 34,7% e 17,2%, nas mesmas comparações, chegando a R$ 8,4 bilhões.

“O resultado do segundo trimestre da Minerva foi acima das nossas expectativas, apresentando forte crescimento de receita tanto devido ao aumento de volume quanto a melhores preços de exportação”, pontua a Eleven.

O Bank of America destaca ainda que Ebitda da Minerva, de R$ 778 milhões, foi acima das expectativas, com a margem, de 9,2%, subindo 50 pontos-base. “Reflete uma melhor disponibilidade de gado em alguns países, principalmente no Brasil, bem como maiores exportações para China, EUA e Europa”, explicam.

A mudança de ciclo de gado foi algo que os executivos da companhia atestaram estar presenciando durante a teleconferência de resultados.

A Minerva tem ainda uma percepção otimista da demanda por gado no mundo, principalmente para a provinda da China, com o preço da carne bovina sustentando seus preços a despeito do recuo de outras proteínas.

“Estamos mergulhando no mercado chinês para ver tendências e, por lá, o novo consumidor é jovem, de até 35 anos, que mudou de canais e que tem boa renda”, explicou Fernando Queiroz, CEO da Minerva. “Diferentemente do Ocidente, onde a carne perdeu um pouco de apelo, o consumidor chinês está em cidades grandes. A pandemia mudou os hábitos. O jovem chinês hoje faz um bife em casa. É algo associado a ascensão social”.

De qualquer forma, a Minerva pretende continuar diversificando seu portfólio, buscando novos mercados. “Existe um plano de negócios, um olhar estratégico, para crescer na Colômbia e Austrália. Isso continua. Devemos dar passos pontuais em M&A, a exemplo do que fizemos na Colômbia, mas sem comprometer o balanço. Temos gerado caixa livre, advindo das operações, e a ideia é usar esse capital para eventualmente dar passos em fusão e aquisições”, explicou o diretor.

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