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SÃO PAULO – A inflação mostrou seus dentes já no segundo semestre de 2010 e desde então tornou-se a grande preocupação dos economistas. Combater a alta dos preços já é meta primordial – e difícil também – do Governo neste ano. Para ajudar nessa tarefa, o Governo também anunciou um corte orçamentário de R$ 50 bilhões. Mas, por outro lado, o Tesouro anunciou novo empréstimo de R$ 55 bilhões ao BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Contradição?
Embora o mistro da Fazenda, Guido Mantega, tenha afirmado que esse é um “gasto bom de se fazer”, grande parte dos economistas e analistas se mostraram insatisfeitos com o anúncio. Para Celso Luiz Martone, professor de economia da Universidade de São Paulo, essa política dupla cria um problema. “Todos estão fazendo esforço para conter a inflação, mas o BNDES passa ileso”, criticou.
O lado fiscal
Silvio Campos Neto, analista da Tendências Consultoria, acredita que há uma contradição desse aporte feito ao banco com a política dos cortes. O analista explica que ao colocar mais recursos no BNDES, o Governo está, na verdade, minimizando o efeito que essa contenção fiscal poderia ter sobre a demanda e, consequentemente, sobre a inflação.
Rafael Bistafa, analista da Rosenberg & Associados, também avalia um problema para o superávit primário do Governo. Bistafa explica que para sustentar o banco público é feita uma emissão de títulos para captar dinheiro no mercado e, então, repassar ao BNDES. “Como o BNDES empresta a uma taxa de juros subsidiada, bancada pelo Tesouro, há um custo fiscal em tudo isso sim”, afirma o analista.
Para Neto, o custo que esse tipo de operação gera recai naturalmente sobre o Tesouro. Esse efeito se agrava quando se analisa o diferencial de juros cobrados: enquanto a Selic está em 11,75% ao ano, o BNDES empresta a 6% ao ano, que é a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo).
O maior problema: a inflação
Porém, ele também ressalta que o efeito é mais sobre a dívida bruta e não líquida, de tal forma que o impacto nos cortes propostos não são as facetas mais preocupante. “O grande problema é para a inflação”, revela. A ideia por trás dos cortes é que eles ajudarão a política monetária no combate à alta dos preços, tirando a responsabilidade apenas da subida dos juros. Mas essa parceria pode estar ameaçada.
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Segundo o professor Martone, esse é um assunto muito mais complicado do que a autoridade monetária está querendo mostrar. “Parece que o Banco Central está namorando com a inflação”, brinca. Para o economista, a situação é preocupante e o papel da transferência ao banco pode comprometer ainda mais o atual cenário inflacionário, já que aumenta a disponibilidade de crédito na economia. “Se por um lado o Governo está tentando conter o crédito, por outro ele está aumentando com o BNDES”, ressalta.
Bistafa também explica que o crédito tem pressionado a alta dos preços e, por isso, todo cuidado deveria ser tomado para evitar uma oferta muito facilitada do mesmo. Neto ainda acrescenta dizendo que, do ponto de vista macroeconômico, a intenção de resfriar a demanda pode ir por água abaixo se não houver o cuidado com o lado fiscal.
“É como se estivessem dizendo ao mercado privado que é preciso pisar no freio para poder pagar a conta do BNDES. No fundo, isso não faz o menor sentido”, critica o professor da USP.
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Vale destacar que a MCM Consultoria já começa a trabalhar com um cenário mais pessimista para a inflação. Os consultores avaliam que o crédito direcionado, como é o caso dos recursos destinados ao banco, caminha na “contramão” da política anti-inflacionária.
Desconfiança
Para Martone, a situação não seria tão preocupante se houvesse clareza no tipo de investimento feito pelo BNDES. “A impressão que dá é que a escolha das empresas e dos setores favorecidos é arbitrária”, avalia. O professor ainda condena o fato de muitas empresas financiarem seus projetos pelo banco público. “Elas deveriam estar passando pelo mercado, mas desviam ao usar os juros de um banco público. Isso cria um cenário muito preocupante, econômica e politicamente, ainda mais com o contexto inflacionário que o Brasil tem hoje”, complementa.
Bistafa e Neto também concordam, dizendo que falta transparência no processo de escolha. Para os analistas, a sociedade fica sem saber o porquê dos investimentos naquela determinada empresa ou naquele setor específico.
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O analista da Rosenberg ainda afirma que, por ser um banco público e por cobrar juros mais baixos do que o mercado, o BNDES deveria financiar projetos não atendidos pela iniciativa privada, ou pela falta de interesse ou pela falta de viabilidade econômica. “Um setor que deveria ser atendido pelo BNDES, e não é, é o de infraestrutura. É um setor estratégico para a nossa economia”, explica. Para Bistafa, esse setor é fundamental e prioritário para que o Brasil consiga crescer de forma sustentável.