Resultados e perspectivas

Ambev (ABEV3) está otimista para 2022, mas analistas destacam aumento dos custos como ponto de atenção

Companhia trouxe balanço sem surpresa e foco do mercado ficou para o guidance

Por  Vitor Azevedo -

A Ambev (ABEV3) realizou nesta quinta-feira (24) encontro com analistas para comentar seu balanço do quarto trimestre de 2021, que foi publicado no começo da manhã. Com o balanço vindo em linha com o consenso, os comentários tanto dos analistas quanto de executivos, focaram majoritariamente nas perspectivas para a companhia ao longo do próximo ano.

“A Ambev reportou um quarto trimestre neutro. Neutro porque o Ebitda [lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] ficou apenas 2% abaixo do consenso e os volumes da sua divisão brasileira de cervejas (o mais importante) ficaram em linha com as expectativas de queda de 3% ao ano”, afirmaram os analistas do Bradesco BBI, em relatório.

O BBI aponta, para o futuro, que a Ambev pode ter espaço para avançar no Brasil no curto prazo, pelo fato de o seu maior concorrente, a Heineken, ter aumentado seus preços em fevereiro e também porque a terceira maior produtora, a Petrópolis, deve continuar enfrentando dificuldades para recuperar sua lucratividade. “Esse cenário pode proporcionar um momento positivo para a Ambev em 2022”, afirmou Leandro Fontanesi, analista da casa para a companhia.

O banco, entretanto, aponta que há risco considerável de a cervejaria ver suas margens caírem por conta da crise no leste europeu, que vem impulsionando os preços das commodities – atualmente, a Ucrânia é responsável pela produção de 13% do milho e 7% do trigo mundiais e é também um maiores exportadores mundiais de outros grãos, como cevada e centeio.

Os analistas Gustavo Troyano, Renan Moura e Victor Gaspar, do Itaú BBA, destacaram que a Ambev indicou em seu guidance que uma queda de margem é esperada para 2022, apesar de esperar que esta seja mitigada por uma alta das receitas.

Os comentários do Bank of America foram no mesmo sentido. “A Ambev planeja fazer seu Ebitda ajustado crescer em 2022 com o aumento de preços, de mix, com sua iniciativa B2B (BEES) e com crescimento de portfólio”, destacam Isabella Simonato e Guilherme Palhares. Os dois, apesar de elogiarem a política de top line da Ambev em 2021, lembraram que os preços maiores não foram suficientes para proteger as margens.

O Bradesco BBI tem avaliação outperform (desempenho acima da média do mercado) para a Ambev, com preço-alvo em R$ 21. Itaú BBA e BofA têm, ambos, recomendação neutra, com preços-alvo em, respectivamente, R$ 18 e R$ 18,6. As ações ordinárias da Ambev, por volta das 17h (horário de Brasília), caem 0,54%, a R$ 14,71.

Ambev está otimista para 2022 e vê mix melhorar

Os executivos da Ambev, durante a teleconferência, afirmaram que apesar da ameaça da alta dos preços, com a projeção de que o custo de produtos vendidos cresça de 16% a 19% neste ano, veem o Ebitda e a receita avançando.

“De modo geral, a questão do preço já esta endereçada. Estamos confiantes com a melhoria do mix ao longo do ano. Acho que as tendências estão a nosso favor. As garrafas de 600 ml estão ganhando tração. As inovações estão dando resultados”, defendeu o diretor-executivo (CEO) da companhia, Jean Jereissati.

Os executivos da Ambev endossaram que veem seus segmentos core plus – intermediário entre as marcas populares e as marcas premium – e premium ganhando espaço ao longo de 2022 – as marcas já seriam suficientemente fortes e a fatia de mercado ainda não acompanha essa performance.

“Nossa visão de longo prazo para o portfólio premium era ter força de marca acima de market share. Construir desejo, conectar com o consumidor. Estamos fazendo isso há algum tempo e tem se mostrado uma estratégia bem sucedida. Agora, estamos vendo a demanda por essas marcas crescer. É um componente principal da nossa estratégia para aumentar margem”, afirmou Jereissati.

A companhia, com os maiores custos, pontuou que voltou a reforçar a sua participação no setor de garrafas retornáveis, que tende a diminuir os gastos com embalagens.

Cervejaria pretende continuar investindo em novas tecnologias

A Ambev destacou também que vem também fortalecendo suas plataformas de tecnologia com o Zé Delivery no segmento B2C (business to consumer ou negócio-cliente, em tradução livre), e com o BEES no B2B (business to business ou negócio-negócio).

“Estamos desenvolvendo depósitos ‘ambidestros’ que atendem tanto aos clientes quanto aos consumidores” explicou o CEO. “Temos 80% de volume na sexta-feira à noite e no sábado com clientes do B2C. Enquanto no B2B a demanda é majoritariamente distribuída ao longo da semana. São estruturas complementares”, defendeu.

Segundo ele, a margem de programas como o Zé Delivery e o BEES ainda está aquém dos demais produtos e serviços da companhia. Isso porém está mudando conforme a maturação das iniciativas – os motoristas do B2C, por exemplo, começaram a pouco a realizar duas entregas em apenas uma viagem, enxugando custos, e no B2B a empresa ainda avança, entre outras coisas, na redução das visitas de representantes comerciais a clientes.

Por fim, ainda em operação, a Ambev assegurou que nesse ano as suas despesas não crescerão tanto como no último. “Quando olhamos para 2022 e falamos em gastos, vemos menos crescimento vindo do administrativo, nos manteremos disciplinados em aumento de custo fixos”, explicou Lucas Lira, diretor financeiro (CFO). “Porém, não teremos medo de investir em tecnologia”.

De acordo com a diretoria, os US$ 3 bilhões que a Ambev tem em caixa serão destinados, prioritariamente, às melhorias tecnológicas e no crescimento. “Nossa prioridade número um é investir no futuro. Vamos continuar a retornar excesso de caixa aos acionistas, como temos feito nos últimos anos, em que já melhoramos a nossa distribuição”. disse Lira ao ser indagado sobre a distribuição de dividendos. “Seja em negócios base, seja em tecnologia, em crescimento não-orgânico: estamos sempre analisando oportunidades interessantes em mercados que ainda têm espaços para crescermos”.

Impulsionada por maiores volumes

Os executivos que fizeram parte da teleconferência veem 2022 como um ano melhor para os volumes do que 2021 – o esperado, por exemplo, é que a Covid-19 perca força e que o consumo não tenha mais altos e baixos.

Além disso, destacam também que o ano conta com uma série de eventos impulsionadores da indústria – dois carnavais, um em fevereiro e outro em abril, “apesar do consumo não ser igual”, eleições e ainda uma copa do mundo no verão, algo que nunca aconteceu.

“Quando olhamos para 2022, dado que já começamos melhor do que ano passado, enxergamos Brasil recuperando o Ebitda após três anos. Dado o tamanho da importância do Brasil, isso só já nos dá confiança de que conseguiremos entregar o desempenho melhorado para 2022”, afirmou Lira. “Além disso, o Canadá e a América Central tem sido fáceis de prever. Estamos indo bem. O Chile está acelerando, bem como o Paraguai e Argentina”, completou.

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