Alta valorização recente justifica call de venda para Rossi

Tendência de reportar resultados muito abaixo do esperado também é risco; múltiplos estão mais caros que os pares do setor

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SÃO PAULO – Uma forte valorização das ações e comportamento agressivo são dados positivos a respeito de uma empresa. Entretanto, para a análise de uma ação, essa combinação pode resultar em uma recomendação de venda, como é o caso da Rossi Residencial (RSID3), com maior cautela em função de menor espaço para upside.

Os papéis da Rossi tiveram forte valorização no ano passado – alta de 312,84%, um dos melhores desempenhos do setor e três vezes acima do Ibovespa – e, sobretudo por isso, os analistas acreditam que há pouco espaço para maiores altas, com o papel negociado com prêmio com relação aos pares do setor no Brasil.

”Os papéis da Rossi tiveram uma reavaliação forte no ano passado, enquanto o risco da companhia continua acima dos pares do mercado”, acreditam Dan McGoey e Heber Longhurst, analistas do Citigroup. A recomendação do banco é de venda da ação.

Outro ponto negativo destacado é a tendência de decepcionar nos resultados e de erros de execução por parte dos executivos. Entretanto, os analistas lembram que a empresa deve começar a reportar resultados financeiros melhores nos próximos períodos, um movimento que já foi iniciado no terceiro trimestre de 2009.

O mesmo ponto é compartilhado pelo analista do JP Morgan, Adrian Huerta, que espera bons resultados no próximo trimestre, mas justifica a preferência por outros nomes do setor em função de “surpresas negativas no passado, com resultados muito abaixo do esperado”. A recomendação do analista é de desempenho abaixo da média do mercado para o papel da Rossi.

Outro risco citado por Huerta é o guidance muito agressivo em termos de crescimento, mesmo com a “credibilidade tendo crescido muito no ano passado”, o que o faz esperar números abaixo dos previstos pela empresa.

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“Enquanto a empresa acredita que vai aumentar os lançamentos em 65% este ano, nosso modelo estima aumentos de 48%. Já para 2011, também somos mais conservadores, esperando aumento de 10% neste quesito, contra 33% de projeção da empresa”, explica Huerta.

Outro ponto em que o analista adota uma postura mais conservadora é em relação aos lançamentos para baixa renda, visto como um dos principais segmentos neste mercado atualmente. Enquanto a empresa espera lançamentos de 25 mil para este ano, Huerta acredita em um número menor, de 20 mil novas entregas.

Múltiplos
O P/L (relação entre preço da ação e lucro esperado) para a Rossi em 2010 fica em 12,9 vezes, o mais caro na comparação com os três concorrentes do índice (Gafisa, MRV e Cyrela). Já o PEG ratio (Price/Earnings to Growth, indicador que mede a relação entre o P/L e a projeção do crescimento do lucro por ação) fica em 0,8 vez, um desconto de 0,2 ponto percentual com relação ao benchamark.

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A margem Ebitda (relação percentual entre geração operacional de caixa e receita líquida) esperada pelos analistas do Citigroup é de 23,9% em 2010, após registrar 11,7% em 2008. Para 2009, a projeção é de 18,7%, também indicando uma melhora considerável.

É justamente por isso que Huerta destaca outro risco da ação: uma estabilidade tanto nos resultados como nas margens, não conseguindo sustentar essas altas.

Setor: perspectiva positiva, com riscos
Para o analista do JP Morgan, a projeção para o setor é positiva, com fortes expectativas de crescimento em função da saúde dos balanços das construtoras e as receitas com segmentos de baixa renda, além de menores gastos. Os analistas do Citigroup, por sua vez, citam a rentabilidade atrativa e a estimativa de aumento do crescimento.

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O cenário macroeconômico positivo do País, assim como em todos os outros setores mais ligados à economia doméstica, também é um dado positivo. Apesar disso, após apresentar forte desempenho no ano passado, há dois fatores que devem ser vistos com cautela, segundo Huerta: a provável falta de surpresas positivas nos resultados do quarto trimestre (que devem ser similares ao do período anterior) e o início do aperto na política monetária.

Ainda não há consenso sobre quando e até que ponto o ciclo de alta deve chegar, com parte do mercado prevendo a primeira elevação na taxa em março, e outros acreditando que apenas no final do primeiro semestre isso deve ocorrer. Com relação à intensidade, o relatório Focus da última segunda-feira espera que 2010 termine com a Selic em 11,25% ao ano.

Ainda assim, o analista acredita que a alta nos juros não será necessariamente negativa – embora também não seja positiva – para as empresas, de modo que os investidores devem esperar e observar a magnitude e a duração do próximo ciclo de apertos.

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Crédito e financiamento habitacional
No curto prazo, com a proximidade das eleições presidenciais, o crédito habitacional ainda deve ser um dos pilares do governo e parte integral da campanha, mas o assunto deve ser acompanhado pelo investidor com cautela.

Os dados do crédito imobiliário referentes a 2009 mostraram crescimento de 13,3% frente a 2008, no quesito financiamento com recursos de popupança, atingindo R$ 34 bilhões. Somando os recursos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), o montante alcança R$ 49,6 bilhões.

Para 2010, segundo o analista do BB, Henrique Koch, a expectativa é de que os recursos do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, que é constituído pelas instituições que captam essa modalidade de aplicação financeira, com diretrizes de direcionamento de recursos estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional) avancem 47% e cheguem a R$ 50 bilhões.

“A demanda por crédito tende a continuar evoluindo em ritmo acentuado durante o ano, muito em função do ambiente macroeconômico favorável”, conclui Koch.

Entretanto, o analista chama atenção para a necessidade de diversificação das fontes de financiamento ao setor, dado que os recursos da poupança – cuja captação líquida foi negativa em R$ 10,2 bilhões em 2009 – só devem ser suficientes para mais quatro anos de empréstimos, citando dados da ABECIP (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

Outro ponto citado pelo analista do Banco do Brasil é o programa Minha Casa, Minha Vida, que para ele tem sido avaliado positivamente pelas empresas. Lançado em abril de 2009, o programa pretende reduzir o déficit habitacional no País, estimado em 7,2 milhões de habitações, através de financiamento hipotecário mais acessível.

O programa é citado por Koch como um dos fatores que justificam a maior força dos segmentos de baixa renda no setor atualmente. “Grande parte da atual demanda tem sido direcionada a imóveis de ticket médio mais baixo, apesar das classes média e média alta também terem voltado ao mercado”, avalia.