Alta escalonada da CSLL é aprovada: veja como afeta o setor financeiro

Na prática, a medida amplia a carga tributária de diversos setores e reforça o esforço do governo para elevar a arrecadação

Ativos mencionados na matéria

Fintechs, como o Nubank, já conseguem oferecer soluções financeiras com qualidade superior e preço mais baixo que os de instituições tradicionais.
Fintechs, como o Nubank, já conseguem oferecer soluções financeiras com qualidade superior e preço mais baixo que os de instituições tradicionais.

Publicidade

A aprovação pelo Senado, nesta quarta-feira (17), do projeto que reduz em 10% benefícios fiscais federais e eleva a tributação sobre bets, fintechs e Juros sobre Capital Próprio (JCP) coloca novamente o setor financeiro no centro do debate tributário. O texto prevê cortes em incentivos ligados a tributos como PIS/Pasep, Cofins, Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), Imposto de Importação, IPI e contribuição previdenciária, com impacto distribuído de forma diferente conforme o tipo de benefício concedido. Na prática, a medida amplia a carga tributária de diversos setores e reforça o esforço do governo para elevar a arrecadação.

No caso específico do setor financeiro, o texto estabelece uma alta escalonada da CSLL para determinados segmentos. Instituições de pagamento, administradoras de mercado de balcão e bolsas de valores, entre outras, terão a alíquota elevada de 9% para 12% até dezembro de 2027, com novo aumento para 15% a partir de 2028. Já as sociedades de crédito, financiamento e investimento, além das sociedades de capitalização, passarão a recolher CSLL de 17,5% até o fim de 2027, ante os atuais 15%, e de 20% a partir de 2028.

A mudança tende a afetar diretamente fintechs, empresas de meios de pagamento e a B3, ao elevar gradualmente o custo tributário dessas operações. Para os bancos tradicionais, o impacto é mais limitado, já que muitas dessas instituições já operam sob alíquotas mais elevadas, embora subsidiárias não bancárias também possam sentir os efeitos. No conjunto, a aprovação do projeto reforça o movimento de reequilíbrio da carga tributária no setor financeiro, com efeitos graduais ao longo dos próximos anos.

Segundo análise do JPMorgan, a CSLL e o imposto de renda devem subir entre 5 e 6 pontos percentuais para alguns segmentos do setor financeiro. No caso das bolsas, como a B3 (B3SA3), a alíquota nominal pode passar de 34% para 40%. Embora a empresa historicamente tenha conseguido manter sua carga tributária no patamar padrão, o banco avalia que o ambiente competitivo mais acirrado aumenta a pressão e torna menos clara a capacidade de repassar esse custo ao mercado.

Para as instituições de pagamento, a alíquota também tende a subir de 34% para 40%, afetando algumas fintechs que operam com esse tipo de licença. O Nubank (BDR: ROXO34), por exemplo, possui uma unidade nessa categoria, embora a maior parte de seus resultados venha da operação de crédito. O impacto sobre adquirentes, como Stone e PagSeguro (PAGS34), deve ser mais limitado, já que uma parcela relativamente pequena dos lucros é registrada nessas estruturas.

As empresas de crédito e financeiras, licença usada por muitas fintechs para intermediação financeira, podem ter a alíquota elevada de 40% para 45%. No caso do Nubank, o JPMorgan destaca que a maior parte do lucro gerado no Brasil vem justamente dessa unidade, que respondeu por cerca de 79% do lucro consolidado no primeiro semestre de 2025.

A alíquota efetiva atual, em torno de 36%, pode subir alguns pontos se o aumento se confirmar, embora parte do efeito possa ser mitigada por estratégias de planejamento tributário. O banco também lembra que o Nubank está em processo de solicitação de licença bancária. Já o Inter, por operar como banco, já está sujeito à alíquota de 45%.

Empresas de capitalização e títulos de capitalização, como a Brasilcap e outras estruturas dentro de bancos, também devem migrar para uma alíquota de 45%. Para as seguradoras, não foram identificadas mudanças relevantes em uma análise preliminar.

Para os bancos tradicionais, o JPMorgan avalia o cenário como neutro. Apesar de terem subsidiárias não bancárias que podem ser afetadas, como adquirentes e empresas de capitalização, o impacto tende a ser limitado. Além disso, um regime tributário mais uniforme entre os diferentes participantes do sistema financeiro pode, inclusive, reduzir distorções competitivas no setor.

Continua depois da publicidade

Autor avatar
Felipe Moreira
Mercados | Economia | Investimentos