Publicidade
As ações das construtoras registraram uma forte queda nas últimas semanas na B3. Mais do que as discussões sobre a destinação do FGTS para outros fins além do segmento habitacional, uma grande vilã apareceu para o setor, notoriamente para o segmento de baixa rende: a inflação de custos, também impactada pela guerra no Irã.
A Sinduscon destacou, em conversa com analistas da XP, que o ambiente setorial segue cada vez mais desafiador. A dinâmica de custos na construção residencial se deteriorou ainda mais, com a pressão agora mais concentrada em materiais do que em mão de obra. O INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) permanece em patamares elevados, refletindo tanto a inflação efetiva de custos quanto a recomposição de preços pelos fornecedores, em um ambiente de reajustes mais disseminados e baixa transparência na formação de preços.
“O repasse de custos tem se tornado cada vez mais desafiador para o segmento de média renda, dado o impacto direto nas parcelas de financiamento e a maior sensibilidade da demanda a preços, considerando o atual cenário de juros”, apontou.
Preços mais elevados do Brent pressionam frete, concreto, cimento, PVC e consumo de diesel nas fases iniciais das obras (terraplenagem), aumentando a sensibilidade dos custos de construção a choques no preço do petróleo.
“Apesar de os pedidos de reajuste por parte dos fornecedores serem relativamente homogêneos, o impacto líquido é desigual: empresas de maior porte estão mais bem posicionadas para mitigar essas pressões, enquanto companhias menores ficam mais expostas à compressão de margens, diante de contratos mais frágeis e renegociações frequentes”, destacam Ygor Altero e João Rodrigues, analistas da XP que assinam o relatório.
Leia mais:
Cabe destacar também que o mercado de trabalho segue apertado, influenciado por obras públicas e pelo ciclo eleitoral, enquanto as negociações salariais continuam a representar riscos. Já potenciais mudanças nas regras de jornada de trabalho configuram um risco relevante tanto para custos quanto para prazos de construção.
O Itaú BBA aponta que, historicamente, altas de 40% a 50% nos preços do petróleo e diesel resultam em aumentos de cerca de 10% nos custos da construção, o que pode reduzir as margens do setor em aproximadamente 1,6 ponto percentual. Antes da guerra do Irã, o petróleo brent operava na casa dos US$ 72 e chegou a operar perto dos US$ 120 nas máximas durante o conflito (ou uma alta superior a 60%). Com isso, revisou para baixo as projeções de lucro entre 3% e 15% em 2026 e entre 1% e 3% em 2027, a depender da companhia.
Para o Bradesco BBI, o principal problema é visibilidade: a inflação de custos é difícil de projetar e os resultados do 1T26 (primeiro trimestre de 2026) pouco devem esclarecer esse tema, dado que o INCC-M acumulado em base anual ainda roda em 5,82%.
Continua depois da publicidade
No entanto, já surgem sinais iniciais de aceleração rumo ao 2T26 — o dado de abril do INCC-M subiu 1,04%, ante 0,36% em março — e um estudo preliminar da FGV aponta para um impacto potencial de 4 pontos percentuais (p.p.) no INCC cheio de 2026, cerca do dobro do que vem sendo incorporado atualmente nos orçamentos das companhias.
Impactos já são sentidos?
A XP aponta que as incorporadoras ainda se beneficiam de alguma folga orçamentária em projetos em andamento, o que atua como um amortecedor de curto prazo, parcialmente sustentado por um ambiente cambial recente mais favorável, que ajudou a aliviar os custos de insumos dolarizados.
“No entanto, a persistência de um INCC elevado deve erosionar gradualmente essa margem de conforto, exigindo ajustes estratégicos”, aponta.
Continua depois da publicidade
O segmento de baixa renda compensa o aumento de custos por meio de ganhos de produtividade (menos trabalhadores para a mesma atividade) e dos ajustes recentes no programa MCMV (Minha Casa Minha Vida). Em contrapartida, o segmento de média renda permanece mais vulnerável, em função da maior intensidade de materiais (inerente aos métodos construtivos) e do espaço limitado para repasses de preços, dadas as condições de oferta e juros, o que deve resultar em lançamentos mais seletivos e maior foco na redução de estoques.
Construtoras mais e menos expostas: há oportunidades?
Neste cenário, o Itaú BBA aponta que as ações do setor já tiveram uma queda expressiva nas últimas duas semanas, entre 15% e 25%, contra um recuo de 7% do Ibovespa. Contudo, avalia que a reação do mercado é exagerada, pois embute um cenário de alta de 18% dos custos, semelhante ao pico observado na pandemia.
“Com isso, as ações ficaram baratas quando olhamos múltiplos como preço em relação ao lucro (P/L) e Taxa Interna de Retorno (TIR). Ainda assim, o momento exige seletividade”, avalia, tendo como principais escolhas as ações de Direcional (DIRR3) e Tenda (TEND3).
Continua depois da publicidade
O BBA avalia que a Direcional é a menos sensível ao aumento de custos da construção, mantendo assim recomendação de “compra” e preço-alvo de R$ 16,50, enquanto a Tenda segue entre as principais escolhas e hoje está melhor preparada para um novo choque de custos do que em 2020 e 2022, após reforçar provisões e fortalecer sua estrutura financeira. A recomendação para TEND3 é de “compra”, com preço-alvo de R$ 43.
Leia também:
A Cury (CURY3), por sua vez, é relativamente mais exposta ao aumento de custos, mas segue bem-posicionada no médio prazo, com execução comercial forte, o que deve permitir reajustes de preços e recuperação gradual das margens, avalia o BBA. Além disso, a ação está bastante descontada, oferecendo um retorno potencial muito interessante no cenário base. O preço-alvo é R$ 38.
Continua depois da publicidade
O Bradesco BBI também vê Direcional e Tenda sendo melhor posicionadas, enquanto Cury e Plano & Plano (PLPL3) mostram maior exposição à pressão de custos, dado o volume mais elevado de receitas ainda não reconhecidas — o que os levou a revisões moderadas para baixo das estimativas da Cury para o fim de 2026 e 2027.
A Cury, por sua vez, é a preferida da XP, dado seu porte, execução, histórico operacional e exposição ao segmento de baixa renda, mais defensivo. Para os analistas da casa, caso o ambiente atual persista, entendem que ele reforça um risco estrutural de compressão de margens ao longo de 2026, com impacto ainda mais relevante em 2027.
🔎 Sabe quanto precisa investir para viver de renda? Calcule agora com a Planilha Viva de Renda
“As incorporadoras de baixa renda permanecem relativamente mais defensivas, sustentadas por melhores condições macroeconômicas, enquanto as empresas focadas em média renda concentram os principais riscos operacionais e comerciais”, avalia.
O BBA aponta que, para a Plano&Plano (PLPL3), a recomendação de “compra” está mantida pelo valuation, o que compensa os riscos do cenário e sustenta a tese de investimento, tendo preço-alvo de R$ 18. Já a MRV (MRVE3) segue com recomendação neutra pois, apesar dos desafios do setor, sua ação negocia a múltiplos relativamente mais altos, com preço-alvo de R$ 8,50.
