Operário morreu em acidente

Ações da Vale caem após morte de operário em Brumadinho; veja como fica o futuro empresa

Suspensão aconteceu na última sexta-feira (18) após a morte de um operário no mesmo local da tragédia de Brumadinho

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Vale - Itabira
Vale – Itabira (Divulgação: Vale)

SÃO PAULO – A Vale (VALE3) teve o seu alvará de funcionamento suspenso na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais, após a morte de um operário na Mina do Córrego do Feijão, na sexta-feira (18).

A suspensão da operação da Vale e das suas subsidiárias que atuam na cidade foi determinada pela prefeitura do município, por meio do Decreto nº 210, publicado em edição extra do Diário Oficial de Brumadinho, na sexta-feira. Segundo o decreto, a suspensão é válida por sete dias ou até que o ocorrido seja esclarecido e a segurança dos trabalhadores esteja garantida.

Júlio César de Oliveira Cordeiro, de 34 anos, era empregado de uma empresa terceirizada da mineradora, a Vale Verde. Ele estava na cabine de uma retroescavadeira, mas um talude desmoronou sobre a máquina na tarde de sexta-feira e ele não resistiu. A fatalidade aconteceu na Mina Córrego do Feijão, bem perto do local do rompimento da barragem B1, que deixou 270 vítimas no ano passado, entre mortos e desaparecidos

Com a notícia, nesta segunda-feira (21) os ADRs da Vale (recibos da ação, negociados no mercado americano) chegaram a cair 5,30%, no pre-market da NYSE, a bolsa de valores de Nova York. Porém, a queda se suavizou após a abertura e os ADRs caíam 2,3%, por volta das 15h15 (horário de Brasília), aos US$ 16,97.

No mercado brasileiro, as ações da mineradora chegaram a bater os R$ 84,78 na mínima, queda de 3,43%. Mas os papéis negociados na B3 também reduziram as perdas ao longo do dia e, por volta das 15h15, as ações caíam 1,12%, cotadas aos R$ 86,80.

Efeito nas ações

Segundo Pedro Lang, head de renda variável da Valor Investimentos, o tombo dos ADRs foi superior ao das ações VALE3 porque eles têm menos liquidez. “Mesmo com a notícia, a ação da Vale por aqui está caindo em linha com o mercado. Os ADRs têm menos liquidez, portanto caem mais forte”, explica.

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, acrescenta que o pregão desta segunda-feira está repleto de notícias que afetam o mercado – além do acidente da Vale. “Hoje vai ser difícil separar o que foi Vale e o que foi o mundo”, diz.

Entre outros fatores, há casos de Covid-19 aumentando em vários países do mundo, e uma nova variante do coronavírus no Reino Unido e em outras regiões da Europa, o que gerou uma onda de cancelamento de voos. É muita informação e os impactos do acidente da Vale devem ser sentidos ao longo da semana, segundo Cruz.

“Deve acontecer algo parecido com o que aconteceu no caso do Carrefour (CRFB3). O impacto na ação não aconteceu no dia da morte do homem negro em um dos supermercados da rede, nem no dia seguinte. A empresa sentiu o impacto todo dez dias depois”, afirma o estrategista da RB.

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O acidente adiciona mais pressão sobre as ações Vale, que vêm enfrentando uma série de problemas nos últimos anos. “É uma pressão chata, com certeza ruim e que joga contra a ação. Agora, se isso vai afetar o negócio da Vale no longo prazo é mais difícil dizer. O papel da empresa sobe 68,90% no ano, enquanto muitas outras empresas estão penando na crise. A Vale é uma empresa que tem um risco à parte do Brasil. No mercado o pessoal diz que é mais fácil o país quebrar do que a Vale”, diz.

Para ele, de maneira geral, o cenário para a Vale é positivo. “A China é um dos países que mais cresce e deve crescer acima do esperado ano que vem. Isso, aliado à questão que a própria Vale informou, de que não vai cumprir o guidance [no seu Investor Day, a empresa reduziu a previsão de produção de minério para os próximos anos], puxa o preço do minério para cima. Por isso, as condições da Vale estão boas, mas é o risco de imagem que traz volatilidade para a ação. Os investidores ficam de olho no histórico da empresa”.

Vale lembrar que as ações da mineradora são fortemente correlacionadas com o preço do minério de ferro, seu principal produto. Segundo Lang, da Valor, algo em torno de 70% do preço da commodity no mercado global é influenciado pela China, país que vem apresentando uma retomada consistente da economia após o período mais agudo da pandemia.

Os contratos de minério de ferro na China chegaram a subir quase 10% nesta segunda-feira (21). Com a demanda chinesa aquecida e a diminuição na produção da Vale, anunciada pela própria empresa, qualquer notícia sobre redução de oferta pressiona o minério, segundo o head de renda variável da Valor. “Como a mina do Córrego do Feijão responde por 2% a 3% da produção de minério da Vale, a commodity disparou 9,7% hoje com a expectativa de oferta mais restrita.”

ESG deve ser o foco

O acidente da última sexta-feira (18) dificulta ainda mais a tentativa da Vale de reconstruir sua imagem após uma sequência de tragédias e desastres ambientais. Depois desses eventos, os investidores passaram a ficar muito mais atentos à conduta da empresa.

Nesse sentido, o ESG, a adoção de melhores práticas ambientais, sociais e de governança corporativa, passou a ser uma questão central para a Vale.

“Estamos vendo uma mudança no mercado. Antes, o ESG era o último slide das apresentações nas conferências com investidores, ninguém falava do muito assunto, mas a Vale usou a maior parte do seu Investor Day para falar sobre o tema. Várias empresas estão destacando o assunto e a Vale precisa ainda mais disso para melhorar sua imagem”, diz Cruz.

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Lang concorda. “O acidente é ruim para a empresa, que vinha tentando desconstruir aquela imagem de companhia que não zela pelos funcionários, pelo meio ambiente e pelas questões ESG”, diz.

Ele diz ainda que, devido ao histórico da Vale, todo acidente que acontece na mineradora tem grande repercussão, naturalmente. “A Vale é descontada em relação aos pares internacionais, como a BHP e a Rio Tinto. Todo investidor institucional coloca um prêmio sobre as ações da Vale por conta do passado recente da empresa. Se um mesmo acidente acontece em outra empresa, não ganha a mesma proporção que ganha na Vale. Por isso, a ação fica sujeita a essa volatilidade, a ponto de os ADRs terem caído 5% lá fora, mesmo em um dia em que o minério ferro está subindo”, diz.

Cruz também entende que o fato de o acidente ter ocorrido em Brumadinho prejudica ainda mais a empresa. “Se fosse o mesmo acidente na grande São Paulo teria impacto menor, mas foi em Brumadinho, de novo, então pega muito mal para a empresa. As reações na internet são as piores possíveis”, comenta.

Rompimento de barragem em Brumadinho

O rompimento da barragem B1 do córrego do Feijão, que continha cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, aconteceu em janeiro de 2019. A tragédia causou a morte de pelo menos 270 pessoas e deixou um rastro de quilômetros de destruição.

A mina Córrego do Feijão, onde ocorreu o novo deslizamento, que causou a morte do funcionário Júlio César de Oliveira Cordeiro, tem o mesmo nome do bairro rural Córrego do Feijão, que faz parte do município de Brumadinho.

A Vale disse que “lamenta profundamente” o acidente e que apoiará a família do trabalhador morto. “As empresas estão apoiando as autoridades no atendimento ao caso e na apuração das causas do acidente”, disse a Vale. “As atividades de manutenção no local serão suspensas para novos estudos e avaliações das condições de segurança.”

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