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Ibovespa cai 3% e dólar dispara após líder do DEM falar que Maia está fora da articulação do governo

Índice perde o patamar dos 94 mil pontos em meio a aumento de riscos para a reforma da Previdência

Rodrigo Maia
(Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

SÃO PAULO - A combinação de um noticiário bastante negativo sobre as perspectivas para a reforma da Previdência com más notícias sobre a economia global faz o mercado brasileiro registrar mais um forte dia de forte queda. As diversas declarações do presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia, se torna o fio condutor do noticiário que aumenta o mau humor dos investidores.

Com isso, às 14h24 (horário de Brasília), o Ibovespa tinha queda de 2,96%, aos 93.861 pontos, após chegar a cair cerca de 3,2% na mínima do dia, a 93.609 pontos. A piora do mercado ocorreu após o líder do DEM na Câmara, deputado Elmar Nascimento, afirmar que Maia está fora da articulação do governo.

Em entrevista, Nascimento afirmou que "a paciência dos deputados acabou" e que "não existe mais interlocução". "O ambiente na Câmara é muito ruim", completou o deputado.

Enquanto isso, o dólar dispara 2,35%, cotado a R$ 3,8894 na venda, ao passo que o dólar futuro com vencimento em abril tinha alta de 2,66%, a R$ 3,895. A mercado até amenizou após Rodrigo Maia falar que defende a reforma da Previdência, mas não se sustentou diante do noticiário turbulento.

Mais cedo o mercado já tinha forte queda em meio às notícias de que Maia estaria ameaçando deixar a articulação política da Reforma da Previdência após insatisfação com o governo. Mesmo assim, ele fez um tuíte em que afirmou: "Nunca vou deixar de defender a reforma da Previdência". Essa declaração deu uma rápida aliviada no mercado, mas durou pouco.

Minutos após o tuíte, Maia disse em entrevista à Folha que a responsabilidade pelos votos da Previdência é de Bolsonaro, em mais uma sinalização de falta de união pela proposta. "O papel de articulação do executivo com o parlamento nunca foi e nunca será do presidente da Câmara", disse ele para a colunista Mônica Bergamo.

"É todo negativo o noticiário político subsequente à prisão do ex-presidente Michel Temer. A avaliação dominante é a de que a prisão 'acirra tensões' entre o presidente Jair Bolsonaro e a base de partidos necessária para a aprovação da proposta de emenda à Constituição que trata da reforma da Previdência", destaca a XP Política. 

Soma-se a isso o comportamento de filhos do presidente Jair Bolsonaro e de aliados. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), avisou ontem ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que deixará a articulação política pela reforma da Previdência. Maia tomou a decisão após ler mais um post do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), com fortes críticas a ele, conforme destacou matéria do jornal O Estado de S. Paulo. 

Irritado, o deputado telefonou para Guedes e disse que, se é para ser atacado nas redes sociais por filhos e aliados de Bolsonaro, o governo não precisa de sua ajuda.

Além do dólar e Ibovespa, os contratos de juros futuros reagem ao noticiário e registram forte alta: o com vencimento em 2021 tem alta de 23 pontos-base, para 7,10%, enquanto o com vencimento em 2023 sobe 29 pontos, a 8,26%. 

Vale destacar que os mercados no exterior também têm uma sessão de aversão ao risco: as bolsas europeias e os índices americanos registram forte queda, repercutindo o dado frustrante de atividade na Alemanha, que renovou os receios de desaceleração emitidos pela surpresa "dovish" do Federal Reserve na quarta-feira. 

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O Markit/BME de manufaturas da Alemanha ficou em 44,7 em março, ante estimativa de 48 e anterior de 47,6. O dado foi o mais baixo desde 2012, na terceira leitura seguida abaixo de 50, configurando uma retração que pode refletir tensões no comércio global.

Contribuindo para a percepção de desaceleração econômica, estão os indicadores dos EUA, que intensificaram a queda da bolsa. O PMI da indústria de março teve queda para 52,5, ante 53,6 esperados.

Noticiário corporativo

O noticiário corporativo é bastante movimentado. A mina de Brucutu volta a ser alvo do Ministério Público de MG, possivelmente complicando a retomada da sua produção de minério de ferro.

A Vale saiu de watch negativo para perspectiva negativa por S&P. A perspectiva negativa nos ratings da escala global reflete as incertezas significativas sobre a quantidade de multas e litígios com os quais a Vale precisará lidar e como elas atingirão métricas financeiras e liquidez e também possíveis impactos reputacionais. 

Já a Petrobras reverteu liminar sobre a hibernação fábrica fertilizante. O Estadão informa ainda que, depois de veto do Cade, Petrobras retoma oferta da Liquigás ao mercado. 

Contudo, com o mercado refletindo principalmente o noticiário sobre a Previdência, as maiores baixas seguem de bancos e estatais, enquanto a Suzano é uma das poucas altas expressivas em meio ao dia de valorização do dólar.

Prisão de Temer e reformas
O mercado segue repercutindo a prisão do ex-presidente Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco. O episódio da última quinta-feira afeta ainda mais a percepção sobre a reforma da Previdência, uma vez que desvia o foco da pauta econômica e novas questões ganham destaque, como se outros políticos podem estar envolvidos. 

Conforme destaca o Painel, da Folha de S. Paulo, políticos e magistrados avaliam que a prisão de Temer foi um ataque à velha política e um chamado a novo embate entre cortes superiores e Lava Jato. 

Com a prisão de Temer, acabou a "fantasia" de que a aprovação da reforma da Previdência está garantida e as negociações, que vinham sendo feitas com ajuda do DEM, para formar base do governo são prejudicadas, ressalta o Valor. Segundo o jornal, o presidente da CCJ, Felipe Francischini, pensava em nomear um emedebista para relatar a reforma.

Além disso, as rusgas do governo com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) parecem aumentar. Segundo o Estadão, Maia disse em encontro com Paulo Guedes que, se pensam que ele é a velha política, está fora da articulação. O presidente da Câmara disse que está irritado com a ofensiva contra ele nas redes, desarticulação do governo e tentativa de Sergio Moro de impor a tramitação do pacote anticrime. 

Vale destacar que, durante uma transmissão, ao vivo, de sua página oficial no Facebook, Bolsonaro afirmou ontem que a reforma da Previdência é fundamental para equalizar as contas públicas do Brasil e, sem ela, o país poderá entrar em colapso até 2022. 

"Eu, no fundo, não gostaria de fazer a reforma da Previdência, mas, se não fizesse, estaria agindo de forma irresponsável e, em 2021 ou 2022, o Brasil vai parar se não fizer essa reforma, infelizmente é isso", afirmou.

Durante a transmissão, que começou às 19h e durou pouco mais de 30 minutos, o presidente estava acompanhado dos ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Wagner Rosário (Controladoria-Geral da União), além do porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo e Barros, e do deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ), que integra a comitiva.

Vale destacar o anúncio do Ministério da Economia de contingenciamento (bloqueio) de R$ 29,792 bilhões de despesas discricionárias (não obrigatórias) do Orçamento Geral da União de 2019. Além disso, também baixou de 2,5% para 2,2% a previsão de alta do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano. A expectativa para a inflação oficial, medida pelo IPCA, passou de 4,2% para 3,8% em 2019.

Na agenda do presidente, Bolsonaro se reúne no Chile com presidentes de seis países na Cúpula Presidencial de Integração Sul-Americana. Além do líder brasileiro, participam do encontro os presidentes da Argentina, do Peru, da Colômbia, do Paraguai, Equador e Chile. De acordo com o relatório, o corte de bilhões é necessário para que o Governo Central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) cumpra a meta de déficit primário de R$ 139 bilhões estipulada para 2019.

(Com Agência Estado e Bloomberg)

 

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