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Do arrojado ao conservador: como aproveitar o "caos" gerado pela entrada da Amazon no Brasil

Gigante norte-americana abalou as estruturas, mas não decretou o fim do varejo brasileiro

Jeff_Bezos

SÃO PAULO - Destaque de alta neste ano, o setor de varejo foi alvejado na última quarta-feira (11) com a notícia da expansão da Amazon no Brasil, que, além de atuar no ramo de venda de livros e ebooks, começou a vender eletrônicos no País a partir da meia noite desta quarta-feira (18). A possibilidade de perda de market share das "varejistas ponto.com" pela gigante norte-americana gerou pânico no mercado e as ações de Magazine Luiza (MGLU3) e B2W (BTOW3) acumulam queda de 19% e 23% levando em consideração o dia da notícia até o último fechamento, inclusive Lojas Americanas (LAME4) recuou 10% "por tabela", já que possui participação de 62% na B2W.

A queda desses papéis chamou a atenção dos investidores, principalmente os entusiastas do e-commerce brasileiro, que vem sendo a "menina dos olhos" do setor de varejo em vista do alto potencial de penetração entre os consumidores e a melhora das condições macroeconômicas, em especial pela retomada do crédito com a queda dos juros. Apesar de tudo isso, o receio de que a Amazon venha e conquiste de imediato a participação de mercado das empresas brasileiras ofuscou tudo isso e os investidores começaram se perguntar: a entrada da gigante norte-americana é o "fim do mundo" para as varejistas tupiniquins?

Neste primeiro momento, o grande diferencial da Amazon ficará por conta da comissão que será cobrada aos fornecedores. Estima-se que a norte-americana cobrará uma taxa de 10% por venda, independentemente do parcelamento da compra. A B2W, por exemplo, cobra entre 10,5% e 12%, segundo as estimativas do mercado, ao passo que Magazine Luiza o valor é ainda maior, de acordo com fornecedores. Como no varejo a margem de lucro é apertada e muito importante para a lucratividade do negócio, taxa mais baixa significa menores preços e isso deve atrair mais consumidores.

Apesar disso, de acordo com os analistas do JP Morgan, a Amazon não é uma ameaça completa, pois tem um longo passo para percorrer, que passa desde reforçar sua marca entre os brasileiros como questões de logística. Sobre esse último assunto, o presidente do Magazine Luiza, Frederico Trajano, resume bem o desafio: "a Amazon não vai ter moleza no Brasil. Lá fora ela tem Fedex, Sedex, DHL, entre outras, então ela não precisa ter sequer um caminhão ou um motoboy. Aqui, a gente depende de uma única empresa, o Correios, que ainda por cima é estatal", afirmou durante evento realizado na Casa do Saber - confira a entrevista completa.

Na verdade, a entrada da Amazon irá acelerar o processo de crescimento do mercado de e-commerce brasileiro, já que as empresas deverão investir para melhorar o serviço prestado e isso deve atrair ainda mais consumidores ao mundo digital, projeta o analista da Fama Investimentos, Stephen Duvignau. De acordo com Duvignau, não se trata de um "rouba monte", pois está tudo muito no começo e há espaço para todos crescerem. A Amazon pode até dificultar, mas aniquilar os concorrentes não parece ser uma realidade e não é de se esperar nenhum impacto relevante de imediato nas empresas brasileiras, assim projeta Rodrigo Furtado, analista da XP Gestão. 

Veja mais: Há motivo para tanto pânico das varejistas com a expansão da Amazon no Brasil?

De acordo com um gestor que acompanha o setor de consumo e varejo, seria normal esperar que a gigante norte-americana domine entre 10% e 20% de market share em até 6 anos, ou seja, o "efeito Amazon" está longe de ser imediato e, considerando esses números e o potencial de crescimento do mercado de e-commerce, sobre muito espaço para as varejistas brasileiras explorarem. Com o mito desconstruído, aí vem a pergunta que todo investidor está fazendo: a queda das ações oferece uma boa oportunidade de compra?

Compra na baixa
Tanto para Duvignau e Furtado, como para a analista da Eleven Financial, Giovanna Scottini, a queda dos papéis desde a divulgação da notícia da entrada da Amazon foi exagerada e isso acabou gerando uma oportunidade de compra para as ações: e o mais interessante, uma entrada que atende desde os investidores mais conservadores até os mais arrojados.

Lojas Americanas: uma alternativa mais segura
Com o beta (correleção entre uma ação e o Ibovespa; quanto maior o beta, mais sensível o papel à variação do índice. Por exemplo: uma ação com beta 2 tende a subir 2 vezes mais do que o mercado em tempos de euforia, assim como o inverso é verdadeiro na queda do benchmark) mais baixo entre as empresas, Lojas Americanas possue o perfil mais defensivo e recomenda-se para os investidores mais conservadores. Para exemplificar como essa queda deve ser vista como um exagero, o analista da XP Gestão recorre a matemática: tendo como base o valor de mercado de Lojas Americanas na B2W, que equivale a 20%, seria justo que o ativo LAME4 caísse 4,6% (20% multiplicado por 23%), mas, desde a notícia, as ações recuaram 10%. "Ou seja, do ponto de vista puramente matemático, tivemos um exagero pelo mercado".

Olhando para os múltiplos da empresa, a queda de 10% não alterou drasticamente o EV/Ebitda (valor da empresa sobre o Ebitda) e o P/L (Preço/Lucro) projetados para os próximos 12 meses. No primeiro caso, o múltiplo ainda encontra-se acima do desvio padrão da amostra que vem desde 2013, enquanto o P/L voltou para sua média, o que descarta a possibilidade que está se formando uma nuvem de pessimismo no papel, destaca o gestor que acompanha a companhia:

 
*Fonte: Bloomberg 

Porém, se no primeiro olhar o papel ainda parece caro, Duvignau lembra que historicamente os múltiplos de Lojas Americanas são caros, já que trata-se de uma empresa premium do setor de varejo e sua combinação de bons resultados reduzem os denominadores, mas que protamente são compensados pelo avanço dos preços, o que faz o papel ficar colocado na média histórica. Além disso, comparado com outras empresas do setor, analista da Fama Investimentos destaca que nesses níveis LAME4 está barata.

Mais do que isso, Furtado e Duvignau observam a tendência de resultado para a varejista e vislumbram um futuro próspero tendo em vista a recuperação da economia, em especial das vendas do varejo, que acumularam de maio até junho três meses consecutivos de alta, interrompendo nove meses seguidos de contração, assim como os sinais de que B2W parou de "drenar" caixa de sua controladora. Além disso, o analista da XP Gestão destaca que a Lojas Americanas possui projetos importantes que devem fazer com que ganhe margem nos próximos 24 meses. Assim, reforça: "nesses níveis a LAME4 é uma excelente oportunidade".

Magazine Luiza e B2W: fortes emoções
Com o beta mais elevado, as duas empresas entram na lista dos investidores mais arrojados, que possuem mais estômago para possíveis quedas, mas podem lucrar muito mais com a retomada dos papéis. A expectativa de mais um resultado excelente no terceiro trimestre, com crescimento de 50% em base anual do segmento de e-commerce, reforça a recomendação de compra para Magazine Luiza pelo BTG Pactual.

A expectativa por uma recuperação não é diferente para B2W, que teve sua recomendação de compra reforçada pela analista da Eleve Financial, baseada, além do exagero do mercado com a notícia da Amazon, a melhora operacional da empresa, que já sinalizou a aceleração do plano de migração do e-commerce para o marketplace, repetindo a histórica de sucesso de Magazine Luiza (veja mais clicando aqui), consolidando, assim, o processo de menor "queima de caixa" e abrindo caminho para um processo de turnaround.

 

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