Em mercados / acoes-e-indices

Hecatombe política leva Bolsa ao pior mês do ano; Fibria comemora alta do dólar e dispara 30%

Investidores adotam postura de aversão a riscos em meio ao impasse político e à derrocada de petróleo e minério no mercado internacional

Ações
(Shutterstock)

SÃO PAULO - A sessão de forte queda das commodities no exterior e as perspectivas negativas sobre a retomada da economia com os dados do desemprego contaminaram o mercado brasileiro nesta quarta-feira (31), antes do Banco Central divulgar a decisão do novo patamar da taxa básica de juros. Após um pregão de leves ganhos na véspera, o Ibovespa caiu 1,96%, a 62.711  pontos, com apenas três das 58 ações da carteira teórica fechando em alta. No mês, o índice acumulou mergulho de 4,12%, sobretudo em resposta à forte crise política atingiu o governo Michel Temer com as delações de executivos da JBS. Foi o oitavo mês de maio consecutivo no vermelho e o pior desempenho mensal para o índice desde novembro do ano passado, quando acumulou 4,65% de queda.

No mesmo horário, os contratos de juros futuros com vencimento em janeiro de 2018 recuavam 8 pontos-base, a 9,25%, ao passo que os DIs com vencimento em janeiro de 2021 operavam em queda de 10 pontos-base, a 10,32%, enquanto o mercado aguarda o novo patamar da Selic -- esperado pela maioria em 10,25%. Já os contratos de dólar futuro com vencimento em junho recuavam 0,49%, sinalizando cotação de R$ 3,244. O dólar comercial fechou em queda de 0,79% ante o real, a R$ 3,2364 na venda. No mês, a moeda americana subiu 1,97%.

Na China, os contratos futuros do minério de ferro negociados na bolsa de Dailian recuam 5,97%, a 425 iuanes, enquanto o minério spot negociado em Qingdao recuou 2,53%, a US$ 57,02 a tonelada. Já nos Estados Unidos, o petróleo WTI cai 2,62%, para US$ 48,36, ao passo que o barril do tipo brent tem perdas de 3,09%, cotado a US$ 50,24.

Além da queda das commodities, o clima político segue pesando sobre o mercado. Segundo Ari Santos, gerente de mesa de renda variável da H. Commcor, os investidores estão céticos com o andamento da agenda de reformas. A consultoria Eurasia avalia que a permanência de Temer pode atrapalhar reforma da Previdência pois, com reação calma do mercado à crise política, é difícil conscientizar parlamentares da necessidade de mudar o regime de aposentadorias.

O mercado segue atento ao futuro do presidente Michel Temer. O Valor Econômico informa que, depois de reunião com o peemedebista, a cúpula do PSDB decidiu tirar o tema sucessão da pauta, que só deve retornar após votação da Previdência. O presidente reafirmou a tucanos que usará todos os instrumentos legais para ficar no poder, o que poderia demandar mais de um ano, segundo o jornal. A Folha, contudo, apontou que o PSDB sai do governo se Temer for cassado no TSE e recorrer.

Segundo Santos, o mercado estava bastante comprado no início do mês e essa dúvida sobre o futuro do governo Temer pode impactar na composição das carteiras de ações para junho, com investidores embolsando os lucros e trocando por papéis mais defensivos. O fechamento deste pregão, haverá o rebalanceamento do MSCI, com destaques no Brasil para adição de Taesa (TAEE11), a saída de AES Tietê (TIET11) e a redução de participação de BRF (BRFS3) e SulAmérica (SULA11). No dia 17 de maio, o InfoMoney publicou uma matéria explicando por que o MSCI é o trade mais “imbecil” do mundo, por conta da sua assertividade quase que precisa e facilidade em replicá-lo (clique aqui para conferir).

Entre os indicadores, nesta manhã, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou os dados da Pnad Contínua, mostrando que o desemprego teve leve queda de 0,1 ponto percentual, para 13,6% no trimestre de fevereiro a abril. De acordo com o levantamento, o contingente de desempregados ficou em 14 milhões.

Na agenda, destaque ainda para a divulgação do Livro Bege do Federal Reserve, às 15h. O documento pode trazer mais detalhes sobre a visão da autoridade monetária para uma possível elevação dos juros no encontro do Fomc que acontece em junho.

Destaques da Bolsa
O destaque do noticiário corporativo é mais uma vez a JBS (JBSS3). A J&F, controladora da companhia, fechou o maior acordo de leniência do mundo com o MPF, de R$ 10,3 bilhões. E, segundo o Estadão, ela pode ser forçada a pagar total de R$ 31 bilhões em multas. Somados, passivos em função de crimes financeiros, acordo de leniência e até impostos atrasados ultrapassam o valor de mercado da empresa, diz o jornal. 

Já a Petrobras (PETR3, R$ 13,62, -3,88%; PETR4, R$ 12,96, -2,99%) recua 1% puxada pela queda do petróleo no exterior. No radar da companhia, o Morgan Stanley ressaltou nesta manhã que a estatal e a YPF são suas "top picks". Além disso, a empresa informou que obteve decisão favorável no Tribunal Regional Federal, com a manutenção de uma sentença da Justiça Federal de Sergipe sobre a venda de sua participação na Liquigás.

No mês, no entanto, vale chamar atenção para o desempenho das ações da exportadora Fibria (FIBR3, R$ 37,10, -0,50%), cujas ações acumularam disparada de 29,29%, seguidas por Qualicorp (QUAL3, R$ 28,02, -1,44%), Suzano (SUZB5, R$ 15,35, -1,03%) e BRF (BRFS3, R$ 43,32, -4,27%), com respectivas altas de 26,74%, 17,54% e 8,87% no período. Contribuiu para o desempenho positivo das companhias do setor de papel e celulose a perspectiva de alta do dólar, em meio ao agravamento da crise política.

As maiores baixas, dentre as ações que compõem o Ibovespa, foram:

 C?d. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 VALE3 VALE ON 27,17 -5,00 +16,83 253,71M
 VALE5 VALE PNA 25,79 -4,62 +22,02 853,85M
 CSNA3 SID NACIONALON 6,86 -4,46 -36,77 65,19M
 BRFS3 BRF SA ON 43,32 -4,27 -10,22 916,65M
 GGBR4 GERDAU PN 9,54 -4,02 -11,67 100,39M

As maiores altas, dentre os papéis que compõem o Ibovespa, foram:

 C?d. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 JBSS3 JBS ON 8,07 +9,05 -28,98 386,82M
 TIMP3 TIM PART S/AON 9,92 +1,02 +27,45 24,82M
 VIVT4 TELEF BRASILPN 46,80 +0,56 +10,41 113,90M
 RENT3 LOCALIZA ON 43,48 +0,14 +34,03 76,23M
 EGIE3 ENGIE BRASILON ED 33,17 +0,06 -3,42 40,64M

As ações mais negociadas, dentre as que compõem o Ibovespa, foram :

 C?digo Ativo Cot R$ Var % Vol1 Vol 30d1 Neg 
 BRFS3 BRF SA ON 43,32 -4,27 916,65M 171,76M 31.706 
 VALE5 VALE PNA 25,79 -4,62 853,85M 647,75M 44.568 
 PETR4 PETROBRAS PN 12,96 -2,99 583,69M 677,14M 44.544 
 ITUB4 ITAUUNIBANCOPN 35,55 -1,06 455,11M 632,08M 29.901 
 JBSS3 JBS ON 8,07 +9,05 386,82M 196,21M 66.989 
 BBDC4 BRADESCO PN 27,52 -1,89 310,52M 361,71M 20.305 
 BBAS3 BRASIL ON EJ 28,34 -2,28 298,26M 285,34M 17.708 
 CIEL3 CIELO ON 22,81 -3,39 285,58M 195,17M 21.388 
 BVMF3 BMFBOVESPA ON EJ 18,42 -2,75 276,30M 217,11M 28.400 
 ABEV3 AMBEV S/A ON 18,71 -0,43 257,68M 296,87M 25.600 

* - Lote de mil ações
1 - Em reais (K - Mil | M - Milhão | B - Bilhão)
IBOVESPA

Copom
Duas semanas após o mercado brasileiro viver seu pior dia desde a crise global de 2008, o Banco Central deve anunciar no encontro do Copom que termina nesta quarta-feira o corte da taxa de juros para o menor nível desde janeiro de 2014. Se confirmada a expectativa, compartilhada por nove entre 10 analistas pesquisados pela Bloomberg, o saldo ainda será positivo para o BC, que terá conseguido manter o ritmo de corte de 1 ponto percentual da Selic apesar da crise política gerada pela gravação das conversas entre o presidente Michel Temer e o empresário da JBS Joesley Batista. 

O mercado chegou a prever que a Selic cairia a até 10% já neste Copom, mas passou a ver um corte menor, para 10,25%, com o receio de que a inesperada turbulência da última semana prejudique a aprovação das reformas. 

Noticiário político
A costura para a manutenção ou sucessão do governo em meio à crise política segue no radar dos mercados e no noticiário. O Valor Econômico informa que, depois de reunião com o presidente Michel Temer, a cúpula do PSDB decidiu tirar o tema sucessão da pauta, que só deve retornar após votação da Previdência. Temer reafirmou a tucanos que usará todos os instrumentos legais para ficar no poder, o que poderia demandar mais de um ano, segundo o jornal.

A Folha, contudo, apontou que o PSDB sai do governo se Temer for cassado no TSE e recorrer. O mesmo jornal, na coluna Painel, aponta que o presidente Temer retoma algum fôlego e cita a divisão interna dos partidos que vinham negociando sucessão, com destaque para PSDB e o DEM. Neste ambiente de crise, a CCJ do Senado analisa hoje às 10h a proposta de eleição direta em caso de vacância da Presidência.

O Globo, por sua vez, aponta que, em busca de apoio no Congresso, Temer pode recriar ministério dos Portos. Atenção ainda para a decisão do PMDB de ontem: dezessete dos 22 senadores da legenda manifestaram ontem posicionamento favorável à reforma trabalhista, em tramitação na Casa. O debate ocorreu na reunião da bancada que poderia resultar na troca da liderança da legenda, já que o atual líder, Renan Calheiros (AL), se colocou contrário à proposta.

Em uma saída política para a crise, a maior bancada do Senado decidiu que fará consultas internas antes de fechar posição nos assuntos considerados polêmicos e manteve Renan no cargo. Sobre a reforma trabalhista, o Estadão informa que, após adiamento da votação, um acordo na reforma trabalhista fará com que Temer vete cinco itens da proposta. 

Por fim, a Folha informa que o ex-ministro Antonio Palocci tenta negociar que a sua pena seja cumprida em um ano de prisão domiciliar, com foco em depoimentos que envolvam banqueiros, empresários e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para ter a delação aceita, Palocci teria decidido revelar os detalhes de operações supostamente irregulares cometidas pelo ex-presidente do BTG Pactual, André Esteves, e o ex-dono do Pão de Açúcar Abílio Diniz, diz a publicação.

(Com Reuters, Agência Estado e Bloomberg)

 

Contato