Dores do crescimento

Ações de Enjoei e Méliuz despencam após balanços, mas analistas seguem otimistas e veem grande avenida de crescimento

Mais uma vez, resultado da Enjoei foi pressionado por medidas para engajar vendedores que afetaram margens; despesa do Méliuz também teve expressiva alta

Por  Lara Rizério

SÃO PAULO – As ações de duas companhias relativamente novas no Ibovespa e que vêm ganhando espaço nos relatórios de análise, Enjoei (ENJU3) e Méliuz (CASH3), registraram forte queda de suas ações na sessão desta segunda-feira (17) após a divulgação dos resultados.

Os ativos ENJU3 fecharam em queda de 8,19%, a R$ 10,87, após chegarem a ter baixa de 10,05% na mínima do dia; assim, a exemplo do que aconteceu no final de março, em resultado que ficou marcado pela divulgação de um “poema polêmico” no seu release, as ações tiveram forte queda após o balanço. No ano, os papéis têm baixa de 15%.

Já os papéis CASH3 fecharam com queda de 7,09%, após uma mínima de 7,72%; em 2021, contudo, os papéis sobem 123,05%.

Porém, as perspectivas seguem sendo vistas como bastante promissoras por analistas.

A Enjoei viu seu prejuízo subir de R$ 1,3 milhão para R$ 31 milhões no primeiro trimestre de 2021 na comparação anual, alta de 23 vezes.

O resultado ocorre por conta da maior aposta da empresa na captação e retenção de usuários, com mais subsídios e fretes grátis para os usuários. A Enjoei destacou que a campanha de frete grátis iniciada em meados de fevereiro teve papel bastante importante para a alta do número de transações, com o aumento de recorrência em cerca de 20% pela base de usuários ativos.

A receita líquida teve alta de 54% na comparação anual, para R$ 24,2 milhões. As vendas brutas totais (GMV) tiveram uma alta de 104%, a R$ 172 milhões. Já o take rate (porcentagem ganha sobre cada transação) caiu de 27% ao fim do primeiro trimestre de 2020 para 24,9% nos primeiros três meses de 2021.

A XP destacou que o Enjoei reportou resultados abaixo do esperado, 11% abaixo do projetado pelos analistas e pelo consenso em termos de receita líquida, devido a um percentual de comissão (take rate) abaixo do esperado.

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Além disso, o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda), que passou de um resultado positivo no primeiro trimestre de 2020 para um resultado negativo no primeiro trimestre de 2021, também veio mais fraco do que o esperado pela XP devido a maiores despesas operacionais, porém em linha com o consenso.

Os analistas da XP apontam que, apesar do resultado mais fraco do que esperado e da companhia já ter reportado as principais métricas de crescimento, há sinalizações positivas para frente, como a queda no custo de aquisição de cliente (CAC) versus o quarto trimestre de 2020, as iniciativas para redução do custo logístico e o sólido crescimento de uploads do enjuPRO, que possui uma taxa de comissão acima da média.

“Por fim, vemos a ENJU3 como uma combinação de uma tese de crescimento e uma boa ação para se beneficiar da recuperação da economia e melhora na confiança dos consumidores. Nós mantemos nossa recomendação de compra e preço-alvo para o fim de 2021 de R$ 15 por ação para ENJU3”, destacam.

Já o Bradesco BBI aponta que a Enjoei fez um bom progresso em iniciativas estratégicas importantes, como esforços para melhorar o engajamento de vendedores novos e existentes (houve alta de novos vendedores em 118% na base anual), expansão do sortimento (3,8 milhões de itens, alta de 81% na base anual) e no sentido de melhorar o frete de serviços (menos operações de entrega pelos Correios) e custos (queda de 12% nas áreas onde novos parceiros logísticos estão em operação). Contudo, isso coloca alguma pressão na margem no curto prazo, algo que já estava no radar da empresa também no último resultado (e que também foi destacado pelo BBI).

“Achamos que isso está tendo o efeito desejado de fazer a Enjoei mais atrativa para vendedores com dando maior liquidez e também mais atraente para compradores com mais variedade e custos mais baixos. Portanto, embora esse investimento esteja pesando sobre as margens no curto prazo, esperamos ter retorno nos próximos trimestres com mais vendedores e compradores e forte crescimento de GMV”, apontam.

Assim, o BBI aponta que, embora os lucros tenham sido menores do que as estimativas iniciais, os resultados são consistentes com a visão positiva sobre a Enjoei e a classificação outperform (desempenho acima da média do mercado) porque os KPIs operacionais sugerem um impulso mais forte por trás do crescimento.

“A Enjoei está fazendo trade-off entre margem e crescimento, o que é claramente normal para uma plataforma de comércio eletrônico em seus estágios iniciais. Nós vemos que a empresa oferece o maior crescimento em nossa cobertura de comércio eletrônico (alta de 78% da taxa de crescimento composta anual entre 2020 e 2023)”, apontam os analistas. Assim, eles seguem com a recomendação outperform e preço-alvo de R$ 23 para 2021.

De acordo com compilação feita pela Refinitiv de cinco casas que cobrem a ação ENJU3, quatro possuem recomendação de compra e uma de manutenção, com preço-alvo médio de R$ 17,63, o que configura um potencial de valorização de 49% em relação ao fechamento de sexta-feira (14).

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O Méliuz, por sua vez, teve queda de 51,2% do lucro na comparação anual, passando de R$ 6,2 milhões para R$ 3,01 milhões no primeiro trimestre de 2021; a companhia destacou, contudo, o crescimento da base de usuários no período, estimulado por um forte crescimento em despesas. A receita líquida subiu 63,7%, a R$ 51,81 milhões.

A companhia abriu 2,4 milhões de contas, uma média de 27 mil contas abertas por dia corrido, enquanto o número de usuários ativos teve alta de 226%, para 7,1 milhões.

O volume bruto de mercadorias teve alta de 93% na base anual, para R$ 2,9 bilhões no trimestre, enquanto o número cumulativo de cartões solicitados teve alta de 19 vezes em um ano, a 4,5 milhões.

O Ebitda teve queda 49%, para R$ 4,9 milhões, com margem de 9,5%, “explicado pela variação das despesas ao longo do trimestre”. As despesas com cashback tiveram alta de 45%, a R$ 21,2 milhões, enquanto os custos com pessoal passaram para R$ 7,8 milhões, quase duas vezes maior. Enquanto isso, as despesas com marketing subiram de  R$ 300 mil no primeiro trimestre do ano passado para R$ 7 milhões na base anual, alta de quase 23 vezes.

Na avaliação dos analistas da XP, o Méliuz apresentou bons resultados operacionais e com o total das receitas mostrando um resultado especialmente bom, considerando que a sazonalidade não ajudou.

O resultado foi positivamente impactado pelas despesas de cashback, com o índice de cashback sobre take rate chegando a 50%, um índice saudável, pois os analistas esperavam que a companhia diminuísse as margens no curto prazo para manter esse índice de crescimento.

O lucro foi impactado pelas despesas de terceirização, que Marcel Campos e Matheus Odaguil, analistas da XP, avaliam que está parcialmente relacionadas às despesas de fusões e aquisições: “dito isso, não esperamos que os investidores acompanhem os lucros no curto prazo”.

Os analistas continuam otimistas e reiteram a recomendação de compra e preço alvo de R$ 41, pois acreditam que a startup seja o melhor veículo para capturar a concorrência agressiva nos setores de e-commerce e financeiro.

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A administração da empresa também divulgou que uma demonstração de resultados pró-forma (considerando os resultados das empresas adquiridas) implicaria em receitas de R$ 207 milhões para 2020 (versus R$ 125 milhões originalmente) com Picodi, Acesso Bank, Bankly, Promobit e MelhorPlano incorporados.

“Considerando os múltiplos pagos pelas aquisições, acreditamos que poderia ser um acréscimo no longo prazo, uma vez que a empresa: i) negociaria com um múltiplo entre o valor da empresa e vendas menor; ii) poderia acelerar as receitas por meio das empresas adquiridas em seus negócios originais e por meio da integração à Méliuz; iii) envolver melhor os usuários; e iv) por meio da diversificação do e-commerce. Finalmente, a Picodi está apresentando um bom crescimento de receita de 21% anualmente para R$ 8 milhões (versus receita estável nos últimos anos), um número positivo para a empresa adquirida”, apontam os analistas da XP.

A Levante ressalta que, do lado das despesas, o que mais chamou a atenção foi o gasto com marketing, que saltou de R$ 300 mil no primeiro trimestre de 2020 para R$ 7,0 milhões em igual período de 2021, com o objetivo de sustentar o crescimento acelerado da companhia, porém resultando em uma queda da margem Ebitda ajustado de 30,6%, para 14,7% no mesmo período.

Os analistas acreditam que o principal catalisador para a companhia seja a continuação da execução de sua estratégia de aquisições, além do lançamento de novos produtos, como fez com o marketplace de crédito neste trimestre.

“O segmento de atuação vem chamando a atenção do mercado, com bancos digitais intensificando ofertas do tipo, atrelado a pontos de seus cartões de crédito”, avalia a equipe de análise da equipe de research.

Segundo compilação feita pela Refinitiv, todas as quatro casas que cobrem o papel possuem recomendação de compra, com preço-alvo médio de R$ 38, o que configura um potencial de valorização de 5,6% em relação ao fechamento de sexta.

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