Azul (AZUL4) salta mais de 70%, Gol (GOLL4) sobe 28% em março com renegociação de dívidas: otimismo deve continuar?

Analistas seguem cautelosos, temendo também que os recentes resultados operacionais, considerados positivos, não se sustentem no futuro

Mitchel Diniz

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As últimas semanas foram marcadas pela recuperação nos preços das ações das companhias aéreas brasileiras. Além de resultados trimestrais melhores que o esperado, Azul (AZUL4) e Gol (GOLL4) informaram avanços na negociação de suas dívidas bilionárias. As empresas também reportaram prévias operacionais, referentes a janeiro e fevereiro, consideradas positivas. No acumulado de março, as ações AZUL4 sobem mais de 75%, maior alta do Ibovespa no período, seguidas por GOLL4, com avanço de 28%.

“No geral, a junção de um operacional forte no 4T22 e as renegociações darão um fôlego necessário às companhias que, em alguns casos, já esperam reduções significativas de alavancagem e aumento de geração de caixa já entre 2023 e 2024”, destacam os analistas da Genial Investimentos.

A Azul informou ter negociado 90% de sua dívida com arrendadores de aeronaves, eliminando diferenças de preços relacionados ao período a Covid e de taxas contratuais. Em troca, a empresa vai dar ações e títulos de dívida aos credores.

“O apoio dos lessores se materializou não porque eles são legais ou porque gostam da gente. Foi uma boa decisão de negócios, pois somos uma companhia que produziu mais de R$ 1 bilhão em Ebtida [lucro antes juros, impostos, depreciação e amortização] em 2022 e eles perceberam que [a empresa] não está precificada corretamente”, afirmou o CEO John Rodgerson, na teleconferência sobre os resultados da companhia no quarto trimestre.

Já a Gol anunciou ter concluído a reestruturação de títulos com a holding Abra Group e um grupo de credores. A Abra assinará até US$ 1,4 bilhão de secured notes sênior para 2028 (SSN) e secured notes sênior intercambiáveis para 2028 (ESSN).

Os títulos serão usados para aumentar a posição de caixa da áerea em até US$ 451 milhões. Também vão refinanciar o capital de US$ 1,077 bilhão de notas da GOL adquiridas pela Abra Group, com um desconto de R$ 312,6 milhões.

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Renegociações destravaram preço, mas, até quando?

Analistas já esperavam que a renegociação das dívidas destravassem valor para os papéis das aéreas, visto que, operacionalmente, as companhias passam por um momento de recuperação de demanda por voos.

O Citi chegou chegou a elevar o preço-alvo dos ADRs (papéis negociados na Bolsa de Nova York) da Azul, de US$ 13 para US$ 17, reiterando recomendação de compra, após a notícia de renegociação da dívida.

Na visão dos analistas do banco, a empresa poderá dar mais atenção a geração de receitas e iniciativas estratégicas. Outras casas, contudo, mantiveram visão cautelosa sobre as aéreas.

A Nord Research, por sua vez, recomendou ficar de fora do setor. Os analistas da casa de análise observam que as aéreas possuem bastante dificuldade em controlar custos.

Os insumos, em sua maioria, estão atrelados ao dólar, e essas são empresas que demandam capital massivo “o que é bastante perigoso em um cenário de juros altos”, diz a análise da Nord.

Preços das ações hoje se parecem com os do começo do ano

Ainda que os papéis tenham disparado no mês com as últimas notícias, os preços de Azul e Gol hoje ainda são bem semelhantes aos do começo do ano.

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O preço de fechamento mais alto que AZUL4 alcançou em 2023 foi R$ 14,25, no último dia 9 de março, após a notícia de reestruturação da dívida. Só que hoje, o papel já é negociado, novamente na casa dos R$ 12.

Na sessão de ontem (14), AZUL4 fechou cotada a R$ 12,73, apenas 39 centavos a mais que o preço de fechamento do dia 10 de janeiro deste ano (R$ 12,34).

No caso de GOLL4, o maior preço de fechamento do ano foi R$ 8,45, no pregão do dia 2 de fevereiro. Na sessão de ontem, a ação fechou em R$ 7,28 – preço inferior ao do fechamento no último pregão de 2022, que foi de R$ 7,34. Hoje, a ação já voltou a oscilar na casa dos R$ 6, mesmo patamar de preço do início do ano.

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A renegociação da dívida pode ter sido um gatilho positivo para os papéis das aéreas. Mas, ainda que as operações dessas empresas estejam apresentando melhora gradual, não significa que elas estejam livres de novos obstáculos.

“O grande ponto que temos e continuamos ressaltando é: até quanto as companhias aéreas conseguem elevar suas tarifas?”, indagam os analistas da Genial.

“Na nossa visão, apesar do hiato ocorrido durante o período de pandemia, a volta da procura por viagens, apesar de forte, não deve se sustentar nos patamares esperados pelas companhias aéreas”.

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A Genial tem recomendação de manutenção para as ações da Azul, com preço-alvo de R$ 15 (upside de 18% frente o fechamento da véspera), enquanto recomenda venda para Gol, com preço-alvo de R$ 6,20 (15% menor frente o fechamento de terça).

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Mitchel Diniz

Repórter de Mercados