5 ações “problemáticas” disparam mais de 15% em três pregões: há algum fundamento nisso?

Como explicar o movimento que transformou verdadeiros "azarões" da Bovespa nas maiores altas do ano em 2016

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SÃO PAULO – A palavra-chave da Bovespa nos últimos tempos é volatilidade. É claro que o investidor precisa de flutuações, já que são elas que permitem que se obtenha rentabilidades expressivas na Bolsa, mas o momento atual supera em muito o movimento “normal” de um mercado acionário. Em janeiro, o Ibovespa, que é nosso benchmark de ações, caiu 7% apenas para subir mais de 8% em quatro pregões consecutivos de alta desde o dia 27 e cair mais 3% só nesta terça-feira (2). 

Dentro deste movimento de volatilidade tão forte no índice, alguns papéis que caíram muito passaram a disparar de maneira completamente descontrolada. Quem acompanha siderúrgicas pode ver que as ações do setor sobem perto de 20% desde a metade de janeiro, mas caem entre 4% e 40% no ano. O mesmo ocorre com as elétricas, com várias ações subindo forte nos últimos dias. Mais impressionante ainda é o caso da Gol (GOLL4), que tem alta de 118% em apenas três sessões. Pelo menos para a companhia aérea, há uma explicação para a alta: a notícia de que há possibilidade do governo autorizar que estrangeiros controlem empresas aéreas brasileiras.

No entanto, chamou a atenção em um levantamento feito pelo InfoMoney, pelo menos cinco casos de altas que não podem ser explicadas por qualquer fundamento. São elas: Fertilizantes Heringer (FHER3), Positivo Informática (POSI3), Restoque (LLIS3), Saraiva (SLED4) e PDG (PDGR3), que começaram a disparar no fim de janeiro. Delas, Fertilizantes Heringer, Restoque, Saraiva e PDG sobem respectivamente 22%, 57%, 44% e 31% desde o dia 22 do mês passado, enquanto Positivo dispara 15% desde o dia 28. Só hoje, a alta da varejista de roupas é de 31%, a da companhia de fertilizantes é de 24%, enquanto a livraria tem uma alta bem mais modesta, de 2%, e a incorporadora tem uma bem expressiva valorização de 5%.

Isso leva à inevitável questão: será que alguém está vendo muito mais do que os outros nestes papéis? Ou será que é apenas um movimento especulativo? Embora não possamos descartar a primeira opção, o mais provável é que a segunda esteja certa. E por um simples motivo: as ações que caem muito durante muito tempo acabam ficando mais expostas à volatilidade. Primeiro porque uma variação de um centavo em um papel que custa R$ 1 é obviamente muito mais significativa do que em um que vale R$ 100. Em segundo lugar, como os movimentos são tão bruscos, as ações acabam se tornando ideais para quem quer fazer um day trade operando análise técnica. 

Para Pablo Spyer, diretor da mesa de operações da Mirae Asset, alguns papéis na Bovespa têm operado muito sobrevendidos como aponta o IFR (Índice de Força Relativa), que mede a evolução da relação de forças entre compradores e vendedores ao longo do tempo. Na prática, ele mostra se um papel está sobrecomprado ou sobrevendido. Apesar de Spyer não citar especificamente estes ativos como exemplos, um olhar atento no IFR das cinco ações mostra que este pode ser o caso. Todas estavam sobrevendidas antes do grande movimento de alta. 

Ou seja, por mais que não exista nada aparentemente justificando a valorização, o investidor que quer fazer uma operação de curto prazo com um forte potencial de valorização acaba indo direto nestas ações. Nada muito mais complexo do que isso. 

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Alguém pode, contudo, procurar uma outra explicação para o movimento além da simples especulação, como por exemplo, uma possível percepção do investidor estrangeiro de que essas ações estão muito baratas. Faria sentido, já que o dólar atualmente opera em torno dos R$ 4,00, subindo 48% ao longo de 2015, e estes papéis caíram muito no ano passado. Pensando no gringo, as ações estão duplamente baratas, já que ele paga na moeda norte-americana um ativo que já está valendo pouco em reais. Apesar disso, o diretor da Mirae Asset acha que esta explicação não é tão correta para descrever o cenário hoje. 

“Eu trabalho com investidores estrangeiros e não vi tanta demanda ultimamente”, explica. “A demanda foi maior quando teve a grande desvalorização do real no fim de 2015, mas agora com a moeda persistentemente operando neste patamar de R$ 4,00 após chegar a R$ 4,15 no começo do ano, já há quem veja um fim da depreciação do real.”

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Ou seja, estamos longe do momento mais atrativo para o estrangeiro que esteja procurando por barganhas na Bolsa. Aquele chamado efeito Hypermarcas (HYPE3), que foi a esperada onda de compras de ativos por estrangeiros desencadeado pela venda da divisão de cosméticos da brasileira para a Coty por R$ 3,8 bilhões, não é mais visto como tão provável agora que as previsões para o dólar não são mais de que a moeda chegue a R$ 5,50 e até R$ 6,00 no fim deste ano como alguns analistas falavam. 

Se não há fundamento e o interesse dos estrangeiros esfriou, a única resposta passa a ser essa: os papéis estão sendo comprados por quem especula de curto prazo. Com isso em mente, o investidor não deve achar que é hora para ficar otimista com essas ações, já que tão rápido como elas subiram, não há nada que garanta que elas não comecem a cair de novo assim que alguns grandes players zerarem as suas posições.