Entenda a fase 2

O que muda a partir de agora na sua vida financeira

A partir de 13 de agosto*, os consumidores poderão autorizar o compartilhamento de seus dados financeiros e, com isso, ter acesso a produtos e serviços mais competitivos

*Atualização: No dia 14 de julho, pela manhã, o Banco Central anunciou, por meio da Resolução BCB n° 114, o adiamento do início da fase 2 do Open Banking no Brasil de 15 de julho para 13 de agosto.

É fácil compreender o Pix. Trata-se de uma transferência instantânea, gratuita e disponível em qualquer dia e qualquer horário. Os brasileiros abraçaram a novidade com entusiasmo.

Somente em maio, foram realizadas 543 milhões de transações, totalizando R$ 327 bilhões. Transferências como DOC e TED logo serão lembranças do passado.

O Open Banking é diferente. Não estamos falando de um produto, mas sim de um conjunto de definições técnicas, regras e obrigações. Juntas, elas formam um “ecossistema”, como se diz no mundo tech. O impacto não será tão imediato como o do Pix — mas tem tudo para ser muito mais profundo.

Do ponto de vista técnico, o Open Banking é uma coleção de APIs, sigla em inglês para application programming interface.

Quem abre o aplicativo do Uber, por exemplo, vê os mapas do Google. Quem acessa a página de Altas e Baixas do InfoMoney vê os dados da B3. Essa integração entre serviços acontece por meio de APIs.

No caso do Open Banking, as APIs permitirão que as informações dos clientes possam ser lidas por todos os participantes do sistema.

O ponto crucial são as regras que acompanham essa padronização. A primeira fase do Open Banking entrou em vigor em fevereiro, mas é a partir da segunda fase, que entra em vigor em 13 de agosto*, que começa o trânsito de informações dos clientes.

A partir desse dia, todos os grandes bancos serão obrigados a fornecer dados cadastrais, movimentação de conta, cartões de crédito e produtos de crédito contratados caso os clientes assim desejem.

A entrada das fintechs no sistema é voluntária. Para aderir, elas precisam atender aos critérios regulatórios determinados pelo Banco Central de acordo com o tipo de atividade.

A ideia inicial era fazer um um lançamento simultâneo de todos os compartilhamentos previstos para a segunda fase. Mas, como disseram todos os entrevistados para esta série de reportagens, os prazos são apertadíssimos.

“O projeto brasileiro do Open Banking tem o maior escopo do mundo e os menores prazos”, diz Thiago Alvarez, fundador e CEO do Guiabolso, uma startup de gestão da vida financeira.

Optou-se por uma introdução gradual dessa segunda fase, em quatro etapas distintas. Os tipos de dados liberados e o número de clientes vai aumentando aos poucos, e o mesmo vai acontecer com o lançamento de novas funcionalidades.

A ideia é garantir a estabilidade do sistema, já que o volume de informações em circulação será enorme. A previsão é que até 12 de setembro todas as novas APIs estejam operando a 100% da capacidade.

As novidades que vêm por aí

Além disso, como aconteceu com a internet, muitas das aplicações práticas ainda nem sequer foram consideradas.

“Será um processo gradual”, diz João André Calvino Pereira, chefe do departamento de regulação do BC. “Essa foi a intenção de estabelecer um cronograma tão curto. O mercado é que vai mostrar os benefícios do Open Banking.”

Os benefícios tangíveis para os consumidores também devem demorar um pouco para surgir porque nem todas as fintechs são obrigadas a se conectar no sistema. Algumas devem esperar para ver.

Mas já é possível desenhar alguns cenários decorrentes dessa mudança tecnológica com a implementação da segunda fase:

Cenário 1

Uma cliente, vamos chamá-la de Ana, tem conta há vários anos no banco A e, mais recentemente, passou a ser cliente também dos bancos B e C.

Com poucos cliques, Ana poderá autorizar o compartilhamento de seus dados que estão no Banco A com os outros bancos B e C. Poderá compartilhar todo o histórico de transações em conta corrente, cartões de crédito e empréstimos, por exemplo.

Analisando o uso de cartão de crédito de Ana no banco A, o banco B poderá fazer uma proposta alternativa, talvez eliminando a anuidade.

Já o banco C, entendendo melhor a movimentação financeira de Ana, poderá tentar atraí-la com ofertas de investimento.

Cenário 2

Um microempreendedor, que chamaremos de Bernardo, contraiu um empréstimo num banco, mas observou que diversas fintechs estão oferecendo crédito.

Ele preenche apenas alguns dados básicos e autoriza a fintech a buscar todas as suas informações cadastrais e transacionais no banco (novamente, os dados transitam em duas mãos). Em segundos, Bernardo tem tudo o que precisa para abrir sua conta.

Olhando as condições oferecidas a Bernardo, a fintech – que é especializada na concessão de empréstimos a clientes com aquele perfil – faz uma proposta mais interessante.

E imediata. Como já sabe que Bernardo é bom pagador, a startup não precisa esperar para entender o comportamento dele ao longo do tempo.

Painel de controle

Os exemplos acima são apenas dois de uma infinidade de possíveis usos das APIs.

Aplicativos que concentram em um lugar só todas as suas informações financeiras são um dos maiores sucessos em países como Austrália e Reino Unido.

Outro caso de uso popular no exterior são os gestores de finanças pessoais, apps que oferecem uma espécie de painel de controle de seus gastos e usam inteligência artificial para apontar tendências (sua conta de luz aumentou demais nos últimos dois meses, ou você anda gastando dinheiro demais com delivery).

Tecnicamente, já é possível fazer isso “na marra”. Aplicativos como GuiaBolso e Olivia, por exemplo, oferecem esses serviços usando criatividade e ferramentas desenvolvidas internamente. “Fazemos open banking desde 2013”, afirma Alvarez.

Mas a expectativa é que essas soluções caseiras sejam suplantadas pelo sistema de APIs do open banking. “A energia que eu gasto para capturar esses dados será investida na geração de produtos melhores para os clientes”, diz Rafael Pereira, fundador e CEO da Open, uma fintech de crédito para pessoas físicas e microempreendedores.

Se o Open Banking permite uma visão unificada da vida financeira, por outro lado ele tem um enorme potencial de desagregação.

“Os grandes bancos viraram uma espécie de supermercado financeiro. Eles oferecem todo tipo de serviços, e o cliente, geralmente, acaba comprando tudo ali mesmo”, diz Gustavo Bresler, gerente de estratégia da Quanto, uma fornecedora das tecnologias de infraestrutura do open banking.

A expectativa é que, no sistema aberto, surjam grandes shoppings centers financeiros. Eles podem pertencer aos próprios grandes bancos, ou então ser negócios independentes.

Cada cliente vai enxergar um cardápio de opções sob medida, com base na consolidação das informações que hoje estão fragmentadas em diversas instituições.

“Inicialmente, serão investimentos, como já fazemos na XP”, afirma Leonardo Medeiros, head de open banking da XP. “Mas, no futuro, eles poderão incluir também produtos como crédito e seguros.”

Medeiros se refere à quarta fase do projeto, inicialmente prevista para estrear em dezembro, mas que pode sofrer atraso. Essa etapa final prevê a entrada de operações de câmbio, investimentos, seguros e planos de previdência no Open Banking.

Antes disso, na terceira fase, vem a iniciação de pagamentos. O nome não parece muito promissor, mas as aplicações possíveis estão entre as mais esperadas.

Em linhas gerais, iniciar pagamentos significa movimentar sua conta bancária usando o site ou app de um terceiro. Mais uma vez, fica mais fácil entender com um exemplo da vida real.

Considere o pagamento de uma conta com boleto. Hoje, você precisa escanear o código de barras e fazer o pagamento, tudo dentro do ambiente do seu banco.

A partir da terceira fase, após a devida autorização, uma operação desse tipo pode ser feita em um desses aplicativos agregadores, por exemplo. Na prática, isso significa que você segue sendo cliente do seu banco de sempre, mas talvez não tenha mais de usar um app ou site específico.

Veja os detalhes das fases 3 e 4 no quadro abaixo:

Vale a experiência

Todas as definições relacionadas ao Open Banking são chanceladas pelo Banco Central com base nas contribuições de nove grupos de trabalho. Eles são organizados por temas, como segurança, padronização técnica e comunicação.

Um deles se dedica exclusivamente à experiência dos usuários. O objetivo é definir alguns parâmetros para que a jornada dos clientes em relação ao consentimento, por exemplo, seja consistente em todos os sites e aplicativos.

Mas a preocupação vai muito além dessa conformidade. “Os grandes bancos nunca precisaram se esforçar muito para conquistar ou manter seus clientes”, diz Albert Morales, gerente geral da Belvo, empresa espanhola que oferece serviços de infraestrutura de open banking.

Com a possibilidade de pular do barco com somente um toque na tela do celular, a UX (do inglês user experience) passa a ser um elemento competitivo crucial.

Ter um aplicativo intuitivo, fluido e claro – pense em Uber, Instagram, iFood – será (na realidade já é) tão importante quanto ter agências espalhadas no país inteiro.

A agilidade na oferta de novos produtos e o uma base tecnológica mais moderna também será parte da equação.

Rapidez ou beleza não bastam. O jogo também envolve reconhecimento de marca, credibilidade e capacidade de investimentos. Mas as defesas das grandes fortalezas nunca estiveram tão vulneráveis.

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