Nem lá, nem cá

“Semirrecessão”: o quadro econômico dos EUA que aumenta (ainda mais) a incerteza sobre as decisões do Fed

Consumo e construção mostram força, enquanto indústria decepciona, elevando dúvidas sobre movimento do BC dos EUA

arrow_forwardMais sobre
Bandeira dos EUA (Crédito: Shutterstock)

SÃO PAULO – Reversão na curva de juros – com títulos mais longos tendo rendimentos menores do que vencimentos mais curtos – forte desaceleração da produção industrial, com o ISM de manufaturas em território negativo dão grandes motivos para os investidores se preocuparem com a economia dos EUA, aumentando as expectativas por uma queda na taxa básica pelo Federal Reserve na reunião do fim do mês.

Isso porque, cada vez mais, a tese de recessão americana ganha força no mercado. Porém, ainda há algumas dúvidas, uma vez que há grandes disparidades entre os indicadores.

Para o Credit Suisse, a situação da economia dos EUA pode ser classificada de uma forma: como “semirrecessão”.

PUBLICIDADE

Isso porque, apesar de alguns dados macroeconômicos fracos, os dados de emprego (exceto agrícola) devem continuar mostrando força. Com isso, apesar de uma contração na atividade industrial, outros segmentos estão em um ritmo saudável de crescimento, algo similar ao que ocorreu em 2015 no país.

Esta disparidade nos indicadores foi alvo de análise de Charles Evans, presidente da distrital de Chicago do Fed, que afirmou que a fraqueza da produção manufatureira se deve, em grande parte, a incertezas sobre o cenário comercial, gerando cautela e causando redução dos investimentos das empresas.

Assim, aponta o presidente do Fed de Chicago, este foi um dos motivos que levaram o índice de atividade industrial ao menor nível em mais de dez anos em setembro, para 47,8. Nesta quinta, o pessimismo se estendeu a outros setores, sendo a vez do ISM do setor de serviços decepcionar ao cair para 52,6 em setembro, ante 56,4 no mês anterior, no menor ritmo em três anos. Uma leitura acima de 50 indica expansão no setor de serviços, e uma leitura abaixo de 50 indica contração.

Porém, ele ponderou que necessário aguardar por mais dados, uma vez que os gastos dos consumidores têm tido bom desempenho e que o crescimento econômico está em níveis razoáveis.

Os números mistos, na opinião dos economistas Thomas Pires e Constantin Jancsó, do Bradesco, trazem dúvidas sobre como o Fed deve agir nas próximas reuniões e até mesmo a forma de se interpretar o comportamento da inflação. A visão do banco é de que indústria e investimentos mostram nítida perda de tração, enquanto consumo tem crescimento robusto (com alta anualizada de 3% desde meados de 2018) e o setor de construção tem reagido favoravelmente à baixa de juros.

“Os núcleos de inflação mostram sinais de aceleração – o que, em um contexto de mercado de trabalho apertado, seria um grande sinal de alerta para qualquer banco central. Mas as expectativas de inflação não só permanecem abaixo da meta de 2% do Federal
Reserve, como se mantêm em trajetória descendente – o que tem sido um motivo de preocupação para a autoridade monetária”, apontam os economistas.

PUBLICIDADE

O cenário dos economistas é de desaceleração da economia americana ao longo dos próximos trimestres (saindo de um crescimento de 2,3% em 2019 para 1,6% em 2020) e cortes da taxa básica nas próximas reuniões do Federal Reserve.

No entanto, eles apontam que consumo e construção sugerem que o balanço de riscos para o crescimento talvez seja mais equilibrado do que parecia há alguns meses.

“Isoladamente, os dados reforçam a tese dos membros do FOMC que têm votado a favor da manutenção da taxa de juro no patamar atual e, nesse sentido, aumenta a probabilidade de que o Federal Reserve será mais cauteloso no processo de corte de juros”, avaliam. Atualmente, os juros estão na faixa de 1,75% e 2,00%.

Porém, avaliam Pires e Jancsó, a conjuntura atual tem se mostrado totalmente atípica, tanto com relação às expectativas de inflação quanto na avaliação do impacto do cenário externo sobre a economia americana, que tem mostrado um peso maior que no passado, o que aumenta as discussões sobre os próximos passos do Fed.

O Morgan Stanley reforça o tom: o fraco dado do ISM de manufaturas de setembro é um importante risco negativo a ser monitorado. Mas não é, por si só, o juiz final das perspectivas econômicas de curto prazo.

E como fica o dólar?

Com relação ao movimento do câmbio, o Bradesco avalia que a projeção da manutenção do diferencial de crescimento entre os Estados Unidos (mais forte) e as demais economias desenvolvidas continua apontando para o cenário de dólar forte.

E, mesmo se o Fed cortar menos os juros do que os economistas do banco projetam – no momento, eles veem três cortes de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para o intervalo entre 1% e 1,25% -, o cenário seguirá de menor crescimento mundial e baixa dos preços das commodities, o que pressiona os emergentes.

Nas sessões de quarta e quinta, o dólar tem registrado queda ante o real, chegando a R$ 4,08, justamente por conta das perspectivas de que o Fed cortará os juros de forma mais intensa do que o projetado no início da semana. Porém, ainda há discussões do quanto a desaceleração econômica global pode levar a uma fuga dos mercados emergentes, incluindo o Brasil, o que ponderaria o efeito de queda nas taxas nos EUA. No caso brasileiro, vale destacar ainda o ambiente de queda na Selic, que retira a atratividade nas operações de carry trade no País.

Olhando para o curto prazo, a expectativa é de certo alívio no câmbio por aqui por conta da expectativa de fluxo com a cessão onerosa de petróleo e ofertas de ações, além das perspectivas de melhora no ambiente econômico com a reforma da Previdência na reta final e a retomada do crescimento do PIB (ainda que a passos lentos).

Porém, para o real subir mais, a economia deveria seguir se recuperando, o que pode ser um desafio com o ambiente externo mais desafiador.

Invista melhor seu dinheiro: abra uma conta gratuita na XP