Fim da escala 6×1: dilema entre produtividade e novos postos opõe visões de mercado

Enquanto empresários projetam perdas com a PEC de redução da jornada de trabalho, estudos revelam potencial de criação de 3,6 milhões de vagas e ganhos de eficiência na economia

Élida Oliveira

(Foto: Reprodução do Instagram do Ministério do Trabalho/@mintrabalhoeemprego)
(Foto: Reprodução do Instagram do Ministério do Trabalho/@mintrabalhoeemprego)

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O debate econômico em torno do impacto do fim da escala 6×1, que foi aprovada na Câmara dos Deputados e segue agora para o Senado, traz diferentes cenários de avaliação. De um lado, entidades patronais falam em demissões em massa e queda do PIB. Do outro, pesquisadores de institutos e universidades apontam a capacidade de adaptação da economia, com base na expectativa de ganhos de produtividade.

Perda estática versus adaptação econômica

Na avaliação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), as diferenças nas análises se devem ao modelo comportamental adotado nas projeções. Enquanto as entidades empresariais frequentemente calculam o impacto como uma perda estática (menos horas = menos produção), os centros de pesquisa consideram os mecanismos de compensação que as empresas naturalmente adotam para manter seus negócios funcionando. 

O relatório da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 8/25 aprovada na Câmara propõe a redução da jornada semanal de trabalho para 40 horas. Estima-se que a mudança atingiria diretamente pelo menos 37% do mercado formal de trabalho, contemplando cerca de 38,4 milhões de pessoas que hoje exercem atividades com carga horária superior a esse limite. 

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Custos operacionais e o poder de mercado

Para Joana Simões de Melo, técnica de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, o impacto mais direto da redução de jornada é o aumento do custo da hora trabalhada, que poderia chegar a um acréscimo de 7,8%.

No entanto, ela avalia que isso não significa que o nível de produção deverá cair, pois o empregador tem a opção de contratar mais trabalhadores. Segundo Melo, esta variação é comparável a outros aumentos de custos, como o do salário mínimo, que não comprometeu os resultados da economia.

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Melo cita, ainda, o conceito do “poder de monopsônio” exercido pelas empresas. Segundo ela, as grandes empresas aproveitam o maior poder de barganha para fixar salários abaixo da contribuição produtiva do trabalhador. Na prática, isso significa que parte do custo da nova jornada pode ser mediado pelas margens de lucro, sem ser integralmente repassado aos preços do consumidor.

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Produtividade é alternativa à redução de custos

Em vez de colapso, o estudo do Ipea aponta que a redução das horas deve criar uma “oportunidade para a reorganização interna, redução de desperdícios e inovações tecnológicas”, que podem levar ao aumento de produtividade. A mudança incentiva o setor produtivo a parar de competir apenas via rebaixamento de custos trabalhistas, e passar a competir por eficiência de gestão.

O argumento encontra ressonância em simulações feitas por pesquisadoras da Unicamp Marilane Teixeira, Clara Saliba, Caroline Lima de Oliveira e Lilia Bombo.

Em uma simulação setorial detalhada em artigo, as pesquisadoras demonstraram que, em cenários de manutenção da produção constante, seria possível um aumento de 4,02% na produtividade/hora e a criação de 3,62 milhões de novas ocupações. 

“Os efeitos econômicos da redução da jornada são, principalmente, determinados pela escolha dos mecanismos de transição e, portanto, pela correlação de forças e pela vontade política”, afirmam no estudo. 

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O custo social da escala 6×1

Em outro documento, assinado pelas pesquisadoras, a avaliação é de que a escala 6×1 está associada a altos índices de insatisfação e pedidos de demissão, especialmente em ocupações como telemarketing, onde os desligamentos voluntários superaram a média nacional. 

Neste contexto, a redução da jornada é vista como uma medida estratégica para aliviar a carga de trabalho nestes setores, sobretudo sobre as mulheres, que despendem mais horas semanais em trabalho não remunerado (cuidado e tarefas domésticas) do que os homens, enfrentando um quadro de “pobreza de tempo”. Elas citam dados da Pnad que estimam que 20% da população ocupada, ou 20,88 milhões de pessoas, estão em sobrejornada, trabalhando mais horas semanais do que o permitido por lei.

“O maior contingente populacional a se beneficiar da mudança na lesgilação são os homens, em especial homens negros, que trabalham em média jornadas maiores e se encontram frequentemente em sobretrabalho.

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No entanto, é importante destacar que, para as mulheres, há também um benefício indireto, pois a redução nas jornadas de trabalho abre espaço para divisões mais igualitárias de atividades de cuidado e tarefas domésticas, o que pode reduzir o impacto deste trabalho, frequentemente não remunerado, em suas vidas”, avaliam.