Fio invisível liga aumento do endividamento ao corte de vagas de emprego; entenda

Estudo inédito do Ibevar-FIA Business School mapeia o "efeito dominó" do orçamento doméstico e aponta que o endividamento do brasileiro está financiando a sobrevivência, não o luxo. Em ano eleitoral, o cenário de agravamento econômico tem 55% de probabilidade.

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A perda do poder de compra das famílias brasileiras leva a um ciclo perverso que liga o aperto no salário ao corte de vagas no setor de varejo em um prazo de até 12 meses. A conclusão é de um levantamento inédito do Ibevar-FIA Business School, que rastreou o fio que liga o consumo, a dívida e o desemprego.

Para chegar a esse diagnóstico, a pesquisa utilizou um modelo econométrico de Vetores de Correção de Erros (VECM), analisando nove indicadores do sistema de crédito, renda e consumo, para entender como o desequilíbrio doméstico se propaga na economia real. 

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Dívidas de sobrevivência

Ao contrário do que o senso comum pressupõe, o brasileiro não está estourando o limite do cartão com bens supérfluos. O estudo aponta que 22,3% do endividamento das famílias no período de um ano é explicado diretamente pela queda do rendimento real e pela necessidade de manter as compras básicas do varejo restrito, como supermercados, farmácias e vestuário. 

Para Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School, o movimento é de sobrevivência. “O endividamento e a inadimplência das famílias brasileiras não são fruto de imprudência financeira. São um mecanismo de defesa quase mecânico: a inflação corrói a renda, o crédito cobre o supermercado, o atraso nas contas vira calote e o comércio, sem vender, corta vagas. Nosso modelo mostra que esse ciclo se completa em até 12 meses”, afirma.

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A velocidade da transição de um orçamento apertado para a bola de neve da dívida foi medida pelo estudo. No primeiro mês, o endividamento depende de 94,5% de sua própria inércia, ou seja, é a própria dívida gerando mais dívida por meio de juros e rolagem.

Ao fim de 12 meses, essa inércia cai para 59,1%. É neste momento que o aperto nos salários e a necessidade de manter o consumo básico passam a responder por mais de 22% do endividamento das famílias. O modelo mostra que, no longo prazo, o rombo financeiro deixa de ser um descontrole de juros e se torna um sintoma da falta de recursos para a sobrevivência básica.

Calote e inflação

A pesquisa mostra que a inadimplência grave não surge do nada. Ela começa na base do orçamento, quando as famílias, espremidas pela perda de poder de compra, começam a atrasar contas menores, em janelas de 15 a 90 dias, devido à pressão para manter o consumo básico.

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Ao longo de um ano (12 meses), esses pequenos atrasos generalizados avançam e passam a ser a causa direta de 65,1% dos calotes nas modalidades de crédito mais agressivas e com maiores juros, como cartão de crédito e cheque especial.

Essa dinâmica realimenta o ciclo de encarecimento do custo de vida. O estudo revela que 11% das surpresas inflacionárias do IPCA em um ano vêm do aumento da inadimplência, pois o risco ampliado força os bancos a encarecerem o crédito, pressionando também os custos produtivos da economia. 

Varejo e emprego

A pesquisa também mostra que, quando o consumidor usa o crédito apenas para comer e se vestir, o consumo geral desacelera. E, quando o varejo sufoca, o emprego paga a conta.

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O modelo estatístico mostra que as vendas do varejo restrito são a principal força externa de sustentação das vagas de trabalho, explicando sozinhas 21,8% das oscilações no nível de ocupação ao fim de 12 meses. 

O mercado de trabalho, no entanto, tenta resistir antes de demitir. O estudo revela que o nível de emprego suporta o endividamento e o atraso de contas das famílias por uma janela de 6 a 12 meses. Durante esse período, a autonomia da criação de vagas cai de 68,3% para 45,2%. Somente após um ano de persistência do atraso nas contas (11,1%) e da queda no varejo (21,8%), o ritmo de criação de empregos é efetivamente freado. 

Cenário pode se agravar

A perspectiva para o horizonte à frente traz uma maior probabilidade de agravamento da crise. Segundo a equipe técnica responsável pelo estudo, nos próximos 12 meses há 55% de probabilidade de agravamento do quadro, devido à tendência de anos eleitorais de pressão no gasto público, dificultando a consolidação fiscal, elevando o prêmio de risco e travando o corte de juros. Nessa rota, pequenos atrasos viram inadimplência grave no cartão e no cheque especial, forçando os bancos a elevarem o “spread“.

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Segundo o estudo, o cenário de estabilização, que carrega 45% de chances, dependeria de acordos mínimos em torno do arcabouço fiscal e do controle de gastos para reduzir o risco do país. Segundo os pesquisadores, a Taxa Média de Juros e o Prazo Médio atuam como condicionantes fundamentais. Se controlados, o Banco Central mantém credibilidade para ancorar juros menores, garantindo que o varejo sustente as vagas e o endividamento não escale.

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Élida Oliveira
Economia | Investimentos | Mercados