O que esperar do debate econômico no segundo turno das eleições presidenciais?

Economistas analisam cenários para Lula e Flávio Bolsonaro, destacando urgência do ajuste fiscal, da avaliação dos gastos públicos, a trajetória da taxa Selic e os impactos da reforma tributária

•

Publicidade

O candidato à presidência que vencer o segundo turno das eleições terá que encarar um país com desafios econômicos que vão demandar articulação com o Congresso e decisões de grande impacto na população.

Para entender o que deve pautar a economia em um próximo governo e quais as sinalizações de cada campanha, o InfoMoney conversou com Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management; Samuel Pessoa, pesquisador associado do FGV IBRE e chefe da pesquisa econômica da Julius Baer Brasil; e Ivo Chermont, sócio e economista-chefe da Quantitas Asset. 

Eles avaliam o cenário considerando o andamento das políticas já em curso, caso o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito, e o que se viu no governo anterior do pai do candidato Flávio Bolsonaro, além de sinalizações feitas pelas equipes econômicas de cada um dos concorrentes na primeira fase da campanha.

Ainda há pouca informação sobre as propostas que poderiam ser implementadas e, principalmente, como elas seriam colocadas em prática.

Leia também: Por que a dívida pública é importante e deve pautar o governo do próximo presidente

Política fiscal

O ajuste fiscal é considerado o tema mais urgente, segundo os economistas, já que o país precisaria desacelerar a trajetória de crescimento da dívida, que em agosto chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). 

Continua depois da publicidade

O problema, no entanto, é que 90% dos gastos são obrigatórios e, para resolver essa questão, seria preciso elaborar propostas pouco populares. As medidas exigirão aprovação de Propostas de Emenda à Constituição (PECs) no Congresso e negociação com o Supremo Tribunal Federal (STF) para resistir às judicializações, que devem ocorrer.

“Se nada for feito, a dívida pública pode crescer cerca de 5 pontos percentuais do PIB ao ano, atingindo a marca de 100% do PIB em 4 anos”, alerta Solange Srour.

“O desafio do presidente Lula é achar um equilíbrio entre os interesses dos mais pobres, mas que, simultaneamente, atenda a capacidade da economia de entregar resultados”, avalia Samuel Pessoa.

Continua depois da publicidade

Leia também: Eleições importam, mas o grande trade para a Bolsa será o fiscal; veja os cenários

A avaliação é de que o atual governo aposta em brechas no arcabouço fiscal e no aumento contínuo de arrecadação para fechar as contas, sem conter a expansão real de despesas.

Em um eventual futuro governo de Flávio Bolsonaro, a tendência é que ele tenha menor resistência para aprovar as reformas no Congresso — ainda mais após o 1º turno da eleições, marcado por uma onda conservadora que não havia sido captada pelas pesquisas.

Continua depois da publicidade

A candidatura do PL aposta em um “choque de credibilidade” pró-mercado, respaldado por nomes de perfil liberal na equipe econômica, como Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e ex-braço direito de Paulo Guedes, e Adolfo Sachsida, ex-secretário de Política Econômica e ex-ministro de Minas e Energia. 

No entanto, há dúvidas se Flávio Bolsonaro  usaria o capital político de início de mandato para aprovar tais reformas ou se essa força seria direcionada para aprovar pautas jurídicas, incluindo a revisão da pena aplicada ao pai do candidato, Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. “Ele pode ter a habilidade de tocar as duas pautas [econômica e jurídica] ao mesmo tempo, mas essas questões geralmente demandam uma energia e capital político muito grande”, avalia Ivo Chermont. 

Nenhum dos candidatos, seja Lula ou Flávio Bolsonaro, detalharam medidas de corte de gastos durante o primeiro turno da campanha, e a tendência é que se mantenham neutros por se tratar de uma pauta impopular que tira votos. Por conta dessa falta de sinalização, o vencedor precisará fazer anúncios fiscais convincentes logo após a eleição — antes mesmo de assumir o governo —, para evitar uma piora das expectativas, depreciação do câmbio e alta dos juros longos, avalia Srour.

Continua depois da publicidade

Gastos públicos

Os economistas avaliam que a medida mais urgente é harmonizar o crescimento dessas despesas com a regra do arcabouço fiscal, o que exige rever a vinculação automática das despesas de saúde e educação à receita corrente líquida, bem como alterar a fórmula de reajuste do salário mínimo.

Solange Srour defende ainda o redesenho dos programas sociais, que foram ampliados após a pandemia. Isso poderia ser feito focando na qualificação profissional e na eficiência alocativa para atender à transição demográfica do país. 

Ivo Chermont cita também como prioridade uma reforma administrativa ampla que reorganize as carreiras públicas, a eliminação de supersalários no Executivo, Legislativo e Judiciário, a revisão do volume de subvenções concedidas a setores privados e o aumento da transparência sobre as emendas parlamentares obrigatórias.

Neste quesito, o governo Lula tem demonstrado forte resistência em alterar as regras do salário mínimo e a vinculação das verbas de saúde e educação. Do lado de Flávio Bolsonaro, as promessas focam na redução do tamanho do Estado mediante a extinção de ministérios, suspensão de concursos e enxugamento administrativo. No entanto, os economistas ressaltam que ações administrativas têm pouco impacto financeiro frente ao peso das despesas obrigatórias. 

Política monetária e inflação

A condução da taxa básica de juros (Selic) está diretamente condicionada ao ritmo da política fiscal. Para que o Banco Central consiga promover um ciclo sustentável de corte de juros e trazer a inflação para a meta de forma duradoura, o Poder Executivo precisa entregar um ajuste fiscal crível capaz de ancorar as expectativas de longo prazo e valorizar o câmbio. 

Além do cenário interno, há pressões externas que vão impactar a inflação em 2027. Srour cita os impactos climáticos do El Niño, os custos de transição da Reforma Tributária sobre o setor de serviços e a eventual aprovação do fim da jornada 6×1, o que vai exigir prudência monetária, independentemente do vencedor.

Sob um novo governo Lula, e se houver a manutenção do atual modelo fiscal, a tendência é que a taxa Selic se mantenha em patamares elevados ao redor dois dígitos por tempo prolongado. 

Chermont aponta que, embora a diretoria do Banco Central liderada por Gabriel Galípolo venha atuando com independência e aderência ao ciclo econômico, a falta de apoio do lado fiscal impede que os juros caiam para níveis confortáveis. Ele explica que os gastos colocam mais dinheiro na economia, pressionando a demanda e elevando a inflação que, por sua vez, exige juros altos para ser contida.

Para Flávio Bolsonaro, a expectativa do mercado é de uma reação positiva nos preços dos ativos e no câmbio. Caso consiga sinalizar reformas fiscais estruturais logo no início, a taxa Selic poderia recuar para a faixa entre 11% e 11,5%, segundo Chermont. Este patamar seria limitado pelo cenário de juros elevados nos Estados Unidos.

Leia mais: Petrobras, Vale, Itaú e BB após eleição: até onde ações podem subir?

Comércio exterior

A condução recente do Itamaraty no governo Lula 3 tem sido proativa e pragmática, o que deve ser preservado, independentemente de quem vencer, avalia Pessoa.

Srour também não vê espaço para grandes rupturas em relação aos EUA, China ou Europa em eventuais governos do PT ou PL. Ela destaca que a China permanece como o maior parceiro comercial do agronegócio e da mineração brasileira, enquanto os Estados Unidos e a Europa são fontes vitais de capital e tecnologia. 

Neste contexto, a prioridade para o próximo presidente deve ser aprofundar acordos de integração e evitar medidas protecionistas ou alinhamentos ideológicos automáticos que resultem em retaliações.

Na avaliação de Chermont, a vitória de Flávio Bolsonaro traria um alinhamento político mais forte com os EUA de Donald Trump e aproximação com a Argentina, além de maior flexibilidade em concessões, como no caso da exploração das terras raras. No entanto, as forças comerciais impedem um rompimento relevante com a China. Já o governo Lula tende a manter uma postura externa mais combativa e resistente a concessões.

Regulamentação da Reforma Tributária

A principal tarefa para o ciclo 2027–2030 é concluir a reforma tributária, definindo as alíquotas do IVA/CBS e do Imposto Seletivo, para dar segurança jurídica ao setor produtivo antes do início da transição.

Srour defende que o país não deve reabrir o texto constitucional já aprovado para criar novas exceções ou regimes favorecidos, uma vez que cada benefício concedido eleva a alíquota padrão paga pelos demais setores. Para ela, a prioridade de ambos os candidatos deve ser a de garantir a estabilidade das regras para que a transição ocorra sem sobressaltos.

Para Pessoa, a reforma tributária é o grande legado estrutural do atual mandato. Em um eventual quarto mandato de Lula, o andamento não deve sofrer alterações.

Já a candidatura de Flávio Bolsonaro sinalizou a intenção de “pausar” a implementação para promover uma “reforma da reforma” e rever pontos aprovados. Pessoa alerta para os riscos de retrocesso e insegurança jurídica ao se reabrir a discussão no Congresso, e Solange Srour destaca que adiar a regulamentação prejudicará o planejamento das empresas e aumentará as incertezas no ambiente de negócios.

Autor avatar
Élida Oliveira
Economia | Investimentos | Mercados