Após manutenção da Selic em 15%, ABRAINC cobra corte nos juros; Abecip segue otimista

O pano de fundo das reações do mercado é um setor que vem de um ciclo relativamente positivo, mas que depende fortemente de crédito mais acessível para seguir avançando

Maria Luiza Dourado

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A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de manter a taxa Selic em 15% ao ano, na primeira reunião de 2026, esfriou as expectativas de parte do setor imobiliário por um ciclo mais rápido de queda dos juros. Associações que representam construtoras e agentes financeiros veem o patamar atual como um freio relevante ao crescimento, mas ainda projetam algum alívio monetário ao longo do ano – e esperam que isso seja suficiente para sustentar a expansão do crédito e das vendas.

De um lado, a ABRAINC (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) adotou um tom duro, classificando os 15% ao ano como um nível “excessivamente elevado e incompatível com as necessidades de crescimento da economia brasileira”. De outro, a Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) preservou o discurso de otimismo – que foi o tom das projeções da associação para 2026, anunciadas na última terça-feira (27).

O pano de fundo para a reação do mercado é um setor que vem de um ciclo relativamente positivo, mas que depende fortemente de crédito mais acessível para seguir avançando.

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Após a retração provocada pela pandemia e pelos choques de juros nos últimos anos, o mercado imobiliário retomou fôlego ancorado principalmente em programas habitacionais e em nichos específicos de demanda. O Minha Casa, Minha Vida, em sua nova configuração, ajudou a sustentar lançamentos e vendas nas faixas de renda mais baixa, enquanto segmentos de médio e alto padrão se apoiaram em consumidores com maior renda e capacidade de financiamento.

Esse movimento foi acompanhado por um aumento no volume de financiamentos, sobretudo com recursos do SBPE (poupança) e do FGTS. Mas, com a Selic estacionada em altíssimo patamar por um período prolongado, o setor passou a insistir, de forma mais vocal, na necessidade de um ciclo de flexibilização monetária mais consistente para destravar novos investimentos, reduzir o custo do crédito e ampliar o acesso à casa própria.

Na avaliação da ABRAINC, a decisão do Banco Central de manter a Selic em 15% prolonga um quadro de aperto monetário que já cobra um preço elevado da economia e das contas públicas.

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“A ABRAINC manifesta preocupação com a decisão do Copom de manter a taxa Selic em 15% ao ano, patamar excessivamente elevado e incompatível com as necessidades de crescimento da economia brasileira”, afirmou a entidade, em nota, na noite de ontem (28).

A associação chama atenção para o peso dos juros no orçamento do país. Segundo a ABRAINC, em 2025 o Brasil destinou aproximadamente 8,5% do PIB ao pagamento de juros da dívida pública, ocupando a segunda posição mundial em um ranking do FMI que analisa 190 países.

A entidade argumenta que juros nesse nível por um período prolongado – subindo desde setembro de 2024 – restringem o crédito, desestimulam o investimento produtivo e atingem de forma direta setores intensivos em mão de obra – caso da construção civil, que costuma ser um dos principais motores de emprego em ciclos de crescimento.

A ABRAINC também quantifica o impacto potencial de uma queda de juros sobre as contas públicas: cada 1 ponto percentual de redução da Selic poderia gerar uma economia anual estimada entre R$ 55 bilhões e R$ 60 bilhões em despesas com juros.
Na visão da associação, esses recursos hoje “são drenados para o serviço da dívida, em detrimento do investimento, da produção e da expansão do emprego”.

Leia mais: Mercado eleva aposta de corte da Selic em 0,5 ponto após Copom ‘explícito’

Já o discurso da Abecip foi mais equilibrado, ainda que também esteja ancorado na expectativa de redução da Selic. Em manifestação enviada ao InfoMoney, a presidente da associação, Priscilla Ciolli, afirmou que a decisão do Banco Central de manter a taxa em 15% não mudou o cenário traçado para 2026.

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“Conforme destacado em nossa coletiva, a Abecip mantém a expectativa de queda da taxa Selic no segundo semestre deste ano. A decisão do Banco Central, anunciada ontem, de manter a taxa em 15% não altera o cenário positivo que projetamos para o mercado de crédito imobiliário em 2026. Seguimos otimistas, com a perspectiva de crescimento do setor em 16% neste ano”, afirmou.

A projeção da Abecip é de alta de 16% nas concessões de financiamento imobiliário ao longo de 2026.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.