Economia

Varejo surpreende positivamente em abril, mas perspectiva para os próximos meses é menos animadora

Incentivos fiscais e reabertura são apontados como justificativa para performance positiva, mas condições econômicas devem trazer ventos contrários

Por  Vitor Azevedo -

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta sexta-feira (10) que o varejo do país teve suas vendas em alta de 0,9% em abril na base mensal, número maior do que o consenso de 0,40% esperado pelo mercado, surpreendendo positivamente. Para analistas, diminuição das restrições por conta do coronavírus, incentivos fiscais e menores gargalos em linhas de produções impulsionaram o índice, mas a perspectiva é que a tendência não se mantenha nos próximos meses.

“O bom desempenho das vendas no varejo no início de 2022 reflete o aumento da mobilidade e da atividade comercial, na retaguarda de uma onda da Ômicron”, explicam os analistas do Goldman Sachs, em relatório.

Além disso, o documento do banco americano ressalta também o impulso dado pelo apoio fiscal – o governo brasileiro vem diminuindo impostos para incentivar o consumo.

Em fevereiro, o decreto 10.979 impôs um corte linear de até 25% no imposto que incide sobre a indústria nacional, com foco na produção de automóveis e eletrodomésticos da chamada linha branca.

O setor de eletrodomésticos e móveis, pontua o Goldman Sachs, foi justamente o destaque do quarto mês do ano, com crescimento em 2,3%. Vestuário e calçados vêm na sequência, com mais 1,7%.

Do outro lado, pesou a performance do setor de alimentos e bebidas, que recuou 1,1% no mês, e de combustíveis, com queda de 0,1% – categorias que vêm sendo impactadas diretamente pela alta de preços.

Equipamentos de escritório e informática tiveram suas vendas recuando 6,7% e livros e jornais, 5,6%.

O varejo ampliado, que inclui os setores de construção civil e de automóveis, também continua pressionado. Em parte, ainda há problemas nas linhas de fabricação de novos veículos e mudanças macroeconômicas, como piores condições de acesso ao crédito, começam a serem sentidas no setor imobiliário.

“As vendas do varejo ampliadas registraram um aumento de 0,7%, surpreendendo negativamente nossa estimativa de crescimento de 0,8%”, afirma o Banco BV.

O Goldman Sachs contextualiza que o varejo ampliado foi prejudicado pela queda nas vendas de materiais de construção, de 2,0% ao mês, e de autopeças, que recuaram 0,2%.

As perspectivas para o banco americano são que, nos próximos meses, os setores que se destacaram em abril também enfrentem dificuldades.

“Inflação alta, condições financeiras domésticas mais apertadas, confiança fraca de consumidores e empresas, incerteza política, níveis recordes de endividamento das famílias e condições de crédito cada vez mais exigentes devem gerar ventos contrários para a atividade de varejo nos próximos meses”, afirmam os analistas.

O Credit Suisse aponta que, no geral, o resultado de abril e a revisão do crescimento de março indicam um consumo das famílias robusto nos primeiros meses do ano, em linha com a forte aceleração da população ativa e as medidas fiscais do governo. Indicadores coincidentes (por exemplo, licenciamento de veículos, confiança do consumidor) em maio indicam que o consumo permaneceu em trajetória ascendente.

Contudo, na mesma linha do Goldman Sachs, o Credit acredita que a dinâmica subjacente ao crescimento econômico será desafiadora nos próximos meses, especialmente no segundo semestre, principalmente devido ao efeitos do aperto da política monetária do banco central e o impacto negativo da incerteza política do país. “Seguimos com a nossa expectativa de crescimento do PIB de 1,4% em 2022”, avalia.

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