Entregas velozes

Unicórnio em menos de um ano: o grupo de mercados digitais que entregam em 15 minutos e competem com iFood e Rappi

Daki usará novo investimento para chegar a mais estados brasileiros, enquanto JOKR pretende se firmar nos Estados Unidos

Por  Mariana Fonseca -

SÃO PAULO – Tanto o mercado digital brasileiro Daki quanto o mercado digital mexicano JOKR foram criados neste ano, com a proposta de realizar entregas em até 15 minutos. Para competirem contra aplicativos como Doordash, iFood, Rappi e Uber Eats, as startups precisam de investimentos também velozes. Até o momento, os capitalistas de risco têm topado a proposta dos mercados digitais, que juntaram forças em julho deste ano.

O grupo que reúne Daki e JOKR anunciou um investimento de US$ 260 milhões (R$ 1,5 bilhão na cotação atual) nesta quinta-feira (2). A captação avaliou os negócios conjuntamente em US$ 1,2 bilhão (R$ 6,8 bilhões). Portanto, o grupo entrou para o clube dos unicórnios tendo menos de um ano de operação.

Entregas em minutos e sem intermediários

A Daki foi criada em janeiro deste ano pelos empreendedores Alex Bretzner, Rafael Vasto e Rodrigo Maroja. O negócio começou com uma loja piloto no bairro paulistano de Pinheiros, após um investimento anjo de R$ 2 milhões.

“O objetivo é entregar uma experiência superior de delivery no mercado brasileiro. Mesmo com a digitalização provocada pela pandemia, entendemos que a satisfação do cliente ainda precisa melhorar. A penetração de compra online no país ainda é baixa na comparação com outras vertentes do e-commerce brasileiro e com as compras online de supermercado em outros países”, disse Vasto em entrevista anterior.

A JOKR também nasceu pouco depois, em março deste ano. A startup foi criada pelo empreendedor Ralf Wenzel, que fundou e depois vendeu a plataforma de entregas Foodpanda para a gigante europeia de entregas DeliveryHero. Wenzel também foi um dos sócios operadores do Softbank Latin America Fund, fundo criado pelo gigante japonês de telecomunicações e voltado às startups da América Latina. A JOKR começou sua operação na Cidade do México, mas logo depois expandiu para cidades como Nova York (Estados Unidos), Bogotá (Colômia) e Lima (Peru).

As duas startups anunciaram sua fusão em julho deste ano. A Daki foca no mercado brasileiro, enquanto a JOKR está de olho nos outros países da América Latina e nos Estados Unidos. O grupo de delivery coloca como diferenciais a entrega em 15 minutos, o frete grátis e a operação das 7h às 2h da madrugada. Os produtos são atualmente separados pelas categorias de Mercearia, Hortifruti, Carnes & Congelados, Padaria, Ovos & Laticínios, Bebidas, Adega, Cervejas & Destilados, Tabacaria, Snacks, Doces & Sorvetes, Casa & Limpeza, Farmácia, Cuidado Pessoal, Pets e Bebê.

O modelo de negócio é verticalizado. Diferente de aplicativos como iFood e Rappi, as startups negociam diretamente com os fornecedores e armazenam os produtos em pequenos centros de distribuição próprios e com portas fechadas (dark stores). Os entregadores autônomos podem ficar em espaços de descanso criados em cada dark store durante um horário determinado. Depois, podem atuar com outros aplicativos.

A Daki tem 60 dark stores em São Paulo e no Rio de Janeiro, enquanto a JOKR tem 200 delas em 15 cidades pelo mundo. Os executivos afirmam que o grupo já atingiu lucro operacional em centros de distribuição relevantes, sem especificar quantos ou quais seriam eles. Em coletiva de imprensa sobre o novo investimento, Vasto afirmou que a exclusão dos supermercados amplia margens, enquanto o combinado com os entregadores permite entregas velozes.

“Estamos próximos dos fornecedores e controlamos nosso estoque e entrega. O objetivo é maximizar o valor extraído da cadeia: nós ganhamos mais eficiência em cada processo e o consumidor recebe uma melhor experiência”, afirmou o cofundador da Daki. “A indústria de varejo é extremamente ineficiente por conta da quantidade de intermediários. Estimamos que a indústria tem uma margem entre 3% e 8%. Nós podemos atingir entre 7% e 15% de margem. Isso atraiu investidores ao nosso negócio”, completou Wenzel, o fundador da JOKR.

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O futuro como unicórnio

As empresas já tinham recebido um investimento série A de US$ 170 milhões (na cotação no momento do acordo, cerca de R$ 870 milhões). A rodada foi liderada pelos fundos de investimento Tiger Global (investidor de negócios como 99, Brex e Conta Azul), GGV Capital (IDWall, Loggi) e Balderton Capital (Merama, Revolut). Monashees, Kaszek Ventures, HV Capital, Activant Capital, Greycroft e FJ Labs completaram o aporte.

Boa parte dos novos US$ 260 milhões será direcionado para expansão da JOKR e da Daki. A startup mexicana vai chegar a outras cidades americanas nos próximos meses. Já a startup brasileira pretende chegar a Belo Horizonte ainda neste ano, e a outras capitais brasileiras no próximo ano. O plano é atingir 150 centros de distribuição até o final de 2022. A série B veio tanto de fundos novos quanto de conhecidos do grupo, como Activant Capital, Balderton, Greycroft, G-Squared, HV Capital, Kaszek, Mirae Asset, Monashees, Moving Capital e Tiger Global.

O anúncio surge depois de uma onda de crescimento entre as startups. A pandemia do novo coronavírus promoveu a digitalização de mais consumidores, que inclusive passaram a comprar online em novas categorias. Possivelmente, a entregas de itens de supermercado está entre elas.

Daki e JOKR afirmam que o volume bruto de mercadorias transacionadas (GMV) cresce 15% semanalmente. Apenas a Daki expandiu seu faturamento em mais de dez vezes (933%) na comparação entre o segundo trimestre e o terceiro trimestre de 2021. As empresas não divulgam números absolutos. “O investimento veio porque tivemos em poucos meses um crescimento expressivo. E ele foi apoiado por proposta de valor forte, qualidade de serviço e unit economics [relação entre receita e despesa por unidade de produção] saudável”, afirmou Vasto.

De forma geral, digitalização e diferenciais em modelos de negócio levaram a um interesse crescente dos investidores em startups da América Latina. O valor de mercado das empresas abertas de tecnologia na região cresceu de 0,9% para 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2015 e 2019. Em 2020, a participação saltou para 2,3%. Em agosto de 2021, para 3,4%.

Na esfera privada do venture capital e do private equity, as startups latino-americanas captaram US$ 6,4 bilhões no primeiro semestre deste ano. Nos doze meses de 2020, o valor havia sido de US$ 4,1 bilhões. Em 2019, US$ 4,6 bilhões. Os dados são da LAVCA (Associação de Investimentos Privados na América Latina).

Especificamente no Brasil, não houve queda por conta da pandemia: foram US$ 2,97 bilhões em 2019, US$ 3,6 bilhões em 2020 e US$ 8 bilhões entre janeiro e outubro de 2021, segundo a empresa de inovação aberta Distrito.

“A América Latina é a oportunidade mais interessante atualmente para empresas e investidores de tecnologia. Existe muita oportunidade de gerar mais eficiência em mercados nos quais os consumidores são pouco atendidos”, completou Ralf Wenzel, fundador da JOKR. Onde existe uma grande oportunidade, existe também uma concorrência crescente – e não seria diferente no ramo dos mercados digitais.

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